A Páscoa

Páscoa: um acontecimento com os pés na terra e as raízes no céu



A Páscoa judaica

A fé judaica está enraizada na crença da presença de Deus na história do povo de Israel. Deus não se esconde no seu espaço próprio mas interessa-se pela vida dos homens e intervém na história para dar sentido aos acontecimentos, libertar o povo dos constrangimentos da vida e salvá-lo da sua condição de pecador.
O maior acontecimento da história de Israel, interpretado pelo povo de forma religiosa, foi a libertação da escravidão do Egipto. Na verdade, Israel foi feito escravo pelos egípcios e este facto, diz a Bíblia, não deixou Deus indiferente (“Deus ouviu o clamor do seu povo”). Assim, de acordo com a narrativa bíblica, Deus conduziu os acontecimentos de forma a suscitar em Moisés, um israelita educado no palácio do faraó, o apelo para interpretar a libertação do povo como uma missão divina à qual ele não poderia escapar. O seu encontro com Deus no Monte Sinai marca o início deste processo, que vai culminar com a partida (êxodo) do povo, permitida pelo faraó depois de sobre o Egipto se terem abatido uma série de catástrofes. Nos quarenta anos seguintes (número simbólico), o povo vai atravessar o deserto, a caminho da terra prometida (Palestina); serão anos de aprendizagem para o povo. Este terá de aprender a ler os acontecimentos à luz da fé num Deus único que o ama e, por isso, não o abandona, por mais difícil e penosa que seja a sua situação.
A libertação do Egipto ficará para sempre gravada na memória colectiva de Israel de forma tal que será considerada o momento fundante da sua identidade. Assim, para que não fosse esquecido, passou a ser comemorado e celebrado anualmente através do ritual da Páscoa (a palavra “páscoa” provavelmente significa “passagem”). Esta será sempre a principal festa do calendário religioso de Israel e comemora a saída (êxodo) do povo de Israel do Egipto, a passagem da escravidão para a liberdade. Do ponto de vista ritual, a refeição pascal inclui pães ázimos (sem fermento), o cordeiro e ervas amargas. Durante a ceia pascal lê-se a descrição bíblica da saída do Egipto (“Esta noite é verdadeiramente diferente das outras noites”) e bebem-se cálices de vinho enquanto se cantam salmos de esperança na vinda do Messias.


A Páscoa cristã

A Páscoa cristã está enraizada na festa judaica. De facto, Jesus era um judeu que, embora tenha desferido uma série de críticas ao culto judaico, sempre celebrou as festas judaicas religiosas. A principal crítica de Jesus não tinha a ver com a existência das festas em si, nem com os rituais a elas associados, tinha antes a ver com o facto de os judeus mais piedosos desligarem o culto religioso da vida. Para Jesus era claro: o primeiro culto que o ser humano presta a Deus é a atitude de fraternidade em relação aos homens, especialmente em relação aos que nada têm, aos deserdados da terra. Posto isto, o objectivo de Jesus nunca foi a destruição dos rituais religiosos. Vemo-lo no Templo a pregar, na sinagoga a rezar, etc. A sua participação na festa da Páscoa judaica era constante. Ele deslocava-se a Jerusalém para participar na principal festa de Israel. E foi também no contexto da celebração desta festa que ocorreram os acontecimentos fundantes da fé cristã: a comemoração da festa da Páscoa judaica (Última Ceia), a prisão de Jesus, a sua dupla acusação (religiosa: “faz-se passar por Filho de Deus”; política: “faz-se passar por rei dos judeus”), as torturas a que foi submetido e finalmente a sua crucificação no Gólgota (colina localizada nos subúrbios de Jerusalém).
Na formação dos elementos essenciais da festa cristã temos, assim, o Tríduo Pascal: Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Domingo de Páscoa. Foi na quinta-feira que Jesus celebrou com os seus discípulos a refeição da festa da Páscoa judaica, a chamada Última Ceia. No entanto, prevendo o seu fim próximo, atribuiu-lhe um sentido totalmente novo: já não é apenas a celebração da libertação de Israel da escravidão do Egipto, mas a celebração da sua morte e, dado que Deus está atento aos acontecimentos humanos, a celebração da vinda de Deus para instaurar a plenitude da vida.
Na sexta-feira[1] acontece a entrega de Jesus aos chefes judaicos, a sua prisão, o seu duplo julgamento, a sua crucificação, a sua morte e a sua deposição num túmulo escavado numa rocha, ali perto.
Contam os evangelhos que algumas mulheres, no primeiro dia da semana (domingo[2]), se dirigiram ao sepulcro de Jesus para o embalsamar, como era costume entre os judeus. No entanto, o seu corpo já lá não estava. Na sequência destes eventos, dizem-nos os evangelhos que tanto as mulheres como, mais tarde, os seus discípulos tiveram experiências de encontro com Jesus ressuscitado. E foram estas experiências que fundaram o cristianismo. Jesus morreu abandonado por todos os seus discípulos. Esta realidade desconcertante para os primeiros cristãos é um dado certamente histórico. Depois da sua sepultura, fecharam-se nas suas casas com medo de serem acusados pelos chefes religiosos. E, entretanto, algo aconteceu para que estes homens, paralisados pelo medo, saíssem agora à praça pública a anunciar que Jesus estava vivo, a sofrer as perseguições decorrentes da sua ousadia e a morrer por ele.
Hoje, a festa cristã da Páscoa celebra, relembra e actualiza o acontecimento da morte e ressurreição de Jesus. O qual, para todos os que crêem nele, derrama sobre o coração humano a confiança de que a vida há-de ser a última palavra sobre a existência humana, apesar da morte e do sofrimento. Eis um novo sentido para a vida, enraizado no evento Jesus de Nazaré. Por isso, também para os cristãos, tal como para os judeus, esta é a festa central do seu calendário religioso.


Fixação do calendário pascal

No calendário judaico, a Páscoa celebrava-se no primeiro dos sete dias dos Ázimos, de 15 a 22 de Nisan. A noite de 14 para 15 de Nisan (noite de Páscoa) é sempre noite de lua cheia visto tratar-se de um calendário lunar. No Concílio de Niceia (em 325 d.C.), todas as Igrejas cristãs concordaram em que a Páscoa cristã fosse celebrada no domingo a seguir à lua cheia, depois do equinócio de Primavera. A reforma do calendário no Ocidente (chamada «gregoriana», do nome do papa Gregório XIII, em 1582) introduziu uma diferença de muitos dias em relação ao calendário oriental. As Igrejas ocidentais e orientais procuram hoje um acordo, para chegarem de novo a celebrar numa data comum o dia da ressurreição de Jesus. Tem-se levantado também a hipótese de fixar a Páscoa num domingo do nosso calendário solar. Mas isto só acontecerá se todas as Igrejas cristãs estiverem de acordo quanto à data a fixar.


Jorge Paulo


[1] Para os judeus, os dias iniciavam ao anoitecer e não à meia-noite, como entre nós se faz. Assim, a sexta-feira iniciava ao anoitecer de quinta. Jesus foi aprisionado, de acordo com a nossa forma de contar, ao anoitecer de quinta-feira, mas de acordo com a forma de contar judaica tratava-se já de sexta-feira. O calendário usado pelos evangelhos é judaico, daí a perplexidade com que o leitor moderno muitas vezes se confronta ao ler os seus textos.
[2] A designação “domingo” é tipicamente cristã e significa “dia do Senhor”, ou seja, o dia em que Jesus (o Senhor) ressuscitou. Novamente os evangelhos usam a designação do calendário judaico.