Mesmo ao longe um impulso - Poesia

Tenho escrito alguns textos literários e, de vez em quando, submeto-os a concurso. Foi assim que foi publicado o meu livro de poesia «Mesmo ao longe um impulso», editado pelo Rotary Club de Faro. Segue-se a minha intervenção na sessão de apresentação do prémio.




SESSÃO DE APRESENTAÇÃO DO
PRÉMIO LITERÁRIO PAUL HARRIS-2008
Livro «Mesmo ao Longe um Impulso», de Jorge Paulo

Biblioteca Municipal de Faro, dia 14 de Novembro de 2009, pelas 17:00 h


É da mais elementar justiça agradecermos aos nossos benfeitores. A gratidão é simplesmente um dos rostos da justiça. Como sabemos, não é fácil publicar poesia em Portugal, sobretudo se a pessoa que pretende publicar sofre de um mal terrível: é desconhecida nos meios editoriais e não tem quem a torne presente. E como diz o provérbio «longe dos olhos, longe do coração», são quase sempre os mesmos que vão tendo oportunidade de fazer ouvir a sua voz. Sobretudo porque os interesses económicos, certamente legítimos, aconselham a não publicar o que se não vende em quantidade. E a poesia, excepto raras excepções, não enriquece as editoras.
Os prémios literários que prevêem a publicação das obras vencedoras assumem por isso um papel decisivo na divulgação de novos autores. O prémio literário Paul Harris do Rotary Club de Faro inscreve-se neste conjunto de iniciativas altamente meritórias, dando voz a quem a não teria, oferecendo ao público novos títulos, enriquecendo a cultura com as obras que de outra forma ficariam encerradas nas sombrias gavetas dos seus autores. Assumem, deste modo, pelo menos, um duplo papel: o de tornarem patente o que era desconhecido e o de animarem o espírito de quem se entrega à produção artística. É certo que muito do que se escreve provém de uma necessidade interior, de uma obrigação que o sujeito se coloca a si mesmo, de forma quase independente das condições onde lhe é dado viver. Mas sem incentivos externos, este impulso da vontade tende a esmorecer e mesmo que tal não aconteça, a verdade é que os estímulos externos impelem o criador a fazer mais e melhor. Os concursos literários que vão acontecendo de Norte a Sul do país desempenham, pois, um papel importante na divulgação da cultura. Não poderei deixar passar este momento sem mostrar a minha gratidão ao Rotary Club de Faro pela coragem desta iniciativa e pelas oportunidades que vai concedendo. Não esmoreçam nessa vossa vontade de contribuir para o nosso enriquecimento cultural.
Agora que celebramos os vinte anos da queda do muro de Berlim e que se enaltecem justamente as virtudes de tal acontecimento, gostaria de relevar uma sua consequência negativa cujos contornos chegam até nós: o reinado absoluto do capitalismo desregrado. Não só desapareceram, por não constituírem alternativas credíveis, os sistemas que lhe serviam de contraponto, como ele próprio não incorporou os limites éticos necessários à construção de sociedades verdadeiramente justas e humanas. E assim assistimos à crise actual, resultado desse desregramento que deixa à solta os instintos mais selvagens que habitam o coração humano. Não defendo evidentemente a posição estóica de Séneca que advoga como único valor humanamente relevante o bem moral. Mas pressinto que só uma hierarquia de valores encimada pelos valores morais pode salvar a humanidade da catástrofe, tenha ela contornos ambientais ou simplesmente humanos.
O que tem tudo isto a ver com a poesia e, em geral, com a arte? Eu diria que tem tudo a ver. Entendo que é uma das funções da arte apresentar mundos alternativos e exercer uma crítica severa à organização social, económica e política vigente, em nome de valores éticos de que a retórica política se apropria, mas estão bem pouco na base das decisões tomadas e das acções realizadas. Será que a arte está assim submetida às condições sociais vigentes? Será apenas uma resposta a essas condições, não gozando de autonomia? Não creio. É exactamente porque goza ou é forçoso que goze de uma autonomia clara em relação às circunstâncias sociais onde nasce que ela pode observar o mundo e com os seus recursos apontar as feridas e propor alternativas viáveis ou não. O lugar da arte é também o espaço da utopia, ou seja, de «lugar nenhum», no qual se inscreve o sonho, o futuro, o visionarismo profético e poético. Porque aquilo que hoje é impraticável poderá amanhã vir a ser realizável, quando surgirem condições favoráveis à sua concretização. Os únicos limites do horizonte que a arte pode propor são os da própria capacidade de sonhar, que cada ser humano tem guardada dentro de si, como um tesouro inalienável.
É esse o tema de um dos poemas que se publica neste livro e que passo a ler:

Aviso

Não paro na berma de nenhuma estrada.
Não sossego sobre as areias quentes;
Nem cidade alguma me serve de refúgio.
Há poços onde bebo e não retenho o ser.

Servem-me à mesa todos os discursos
E eu (como criança que não quer comer)
Deixo no prato os conselhos frios —
Inteira sobremesa de todas as refeições —.

Vou antes à procura dos gritos dos homens,
Dos corpos esventrados sobre a terra que os não quis,
Dos olhos que também sonharam
(Outrora, quando o sangue se nutria de futuro).

Busco mãos inertes no segredo das estepes
E corações endurecidos pela raiva dos outros
Ou pelo ódio que não conhece a vida.
Busco os homens de todas as terras porque neles me busco.

Comigo trago duas bilhas, no alforge da alma.
Numa, flui a esperança
E o desalento me não consome os dias;
Noutra, a rebeldia escorre do gargalo estreito
Quando me querem submisso e inútil,
Calando, junto aos dejectos, os vómitos,
E junto ao ódio, que nos não permite,
O rigor do ousado insulto.

(Ei-los que escarram na face da vida,
E escorraçam dos átrios da cidade os homens;
Talvez, quando o tempo se alongar
Sobre a várzea da existência,
Aconteça que morram às mãos da solidão
Tão sozinhos como um cão abandonado
Numa esquina que ninguém conhece).

Mas a arte é também o lugar onde nos questionamos sobre o valor e o sentido da existência humana. E ao mesmo tempo que lançamos a pergunta, olhamos o mundo e lemos nele os sinais do absurdo que se vai debruçando sobre a vida, misturados com sinais que nos permitem a esperança, a alegria da vida na tríade que nos foi legada desde a antiguidade: a Verdade, a Beleza e o Bem. Mais do que respostas acabadas, a arte, na sua natureza iconoclástica, céptica ou pelo menos não dogmática, abre caminhos, descerra alternativas, colhe indícios aqui e ali como quem ceifa o que não semeou. E, neste ponto, os temas são intemporais: a morte, o sofrimento, a miséria, a vingança, o ódio, enfim: o ser humano abandonado à sua sorte, sem meios para dela triunfar; mas também a felicidade possível, a solidariedade necessária, a justiça, o amor ou a presença do infinito na exiguidade humana.

Na cidade santa

O mesmo ódio de sempre que nos cega e rouba à vida!
O mesmo rancor nos olhos baços,
E nem um pouco de sentido se debruça dos muros antigos.
A mesma raiva nos gestos, marcados pelo sangue da vingança.
A mesma tirania da noite,
Quando o dia nos toca, tão ligeiro, a superfície calosa da alma.
Os mesmos bramidos ou soluços em cada esquina da cidade santa…

E Deus, que tudo cobre,
Tomba, vencido, sob o peso ardente
Do ódio que não sabe e não conhece.


O ser humano, essa cana agitada pelo vento que transporta a sua vida em vasos de barro, essa pequenez aparentemente inútil, pode erguer-se acima de si mesmo e projectar-se no futuro temporal onde gerações vindouras hão-de continuar o itinerário da vida, ou projectar-se no futuro infinito onde tudo pode voltar a fazer sentido.

Nós

Som, murmúrio, ou coisa nenhuma;
Apenas um indício sobre a vida.

Muito obrigado pela vossa atenção.