Linguística - Variação entre testemunhos

Abstract: This article follows a diachronic approach and aims at analysing the variation levels that exist between the same text’s testimonies. The purpose is to understand if the copyists are relatively faithful to the text they copy or if they introduce significant changes and, consequently, if those apographs are reliable to diachronic studies. The article’s goal is to make an approach to the grapho-phonological and synthatic plans and to compare the results. The conclusions can be useful for several studies because we want to assess if the language state in manuscripts corresponds to the moment of the autograph’s production or to the moment during which its copy has been made.

Palavras-Chave: variação; testemunhos/manuscritos; autógrafos/apógrafos; variantes grafo-fonológicas/variantes sintácticas.


Variação entre testemunhos de um mesmo texto[1]

Ao redigir a minha dissertação de mestrado, apercebi-me que os testemunhos de um mesmo texto apresentavam níveis de variação bastante diferentes. De facto, se a variação no plano grafo-fonológico parecia ser não só evidente como também abundante, tanto entre testemunhos como dentro de um mesmo testemunho, no plano morfológico e sintáctico os níveis eram mais reduzidos. Esta observação resultou de um trabalho de cotejo dos manuscritos do qual derivou a primeira parte do estudo linguístico. No entanto, não tendo como objectivo determinar a incidência da variação em testemunhos do mesmo texto, o que fiz foi apenas um levantamento dos principais dados linguísticos que, no mesmo texto, apareciam em variação.
Os estudos linguísticos de tipo diacrónico enfrentam uma dificuldade particular: contextualizar cronologicamente os fenómenos linguísticos que os textos testemunham. Daí o facto de serem particularmente apetecíveis os textos cuja datação é certa ou praticamente certa. O privilégio vai então para textos notariais, por estar normalmente identificada a data da sua redacção. Estamos, pois, a trabalhar sobre autógrafos devidamente datados.
Há, contudo, um conjunto de textos (chamados correntemente “literários”, embora nem todos o sejam na acepção mais estrita do termo) que, embora não seja, muitas vezes, difícil chegar à data da sua elaboração (por via do autor), não nos chegaram directamente, através do texto original, mas através de apógrafos, muitas vezes tardios, distanciados do original de várias décadas ou mesmo séculos. Não é raro acontecer que, no lapso de tempo que decorreu entre o original e as suas cópias, muitas mudanças tenham ocorrido na língua. A questão que se coloca é a de sabermos se, ao estudarmos os dados linguísticos de um texto através de um determinado apógrafo, estamos a estudar a língua tal como ela existia no tempo em que o original foi produzido ou se estamos a estudar a língua tal como ela existia no tempo do copista. Na realidade, uma terceira hipótese é ainda mais provável: alguns dados podem corresponder ao tempo do autor e outros ao tempo do copista. O problema é conseguirmos determinar o grau de intervenção do copista (ou dos copistas, uma vez que a cópia é já, amiúde, cópia de cópia) sobre o texto que ele copiou. Talvez nem todos os copistas tenham o mesmo grau de intervenção, mas este parece variar também, como já dissemos, consoante a área linguística (grafo-fonológica, morfológica, sintáctica). Mas será possível determinar com alguma segurança qual a incidência da variação para cada tipo de área? Se a resposta a esta pergunta fosse positiva, os dados desses estudos seriam certamente muito úteis. Poderíamos, por exemplo, realizar investigações com base em textos apógrafos sobre problemas linguísticos cuja variação entre manuscritos fosse normalmente pouco acentuada e extrair daí conclusões sobre o estado da língua no tempo do autor, enquanto que para problemas linguísticos cuja variação entre manuscritos é normalmente mais elevada, tal investigação com base em textos apógrafos não seria fiável. Assim, ao fazermos estudos deste segundo tipo, ou retiraríamos conclusões sobre o estado da língua no tempo do copista ou simplesmente teríamos de ter uma enorme cautela quando fossem esboçadas conclusões sobre o estado da língua no tempo em que o texto original foi escrito.
A hipótese que nos move é a de que este tipo de textos apresenta, de testemunho para testemunho, uma enorme variação no plano grafo-fonológico mas uma baixa frequência de variação no plano sintáctico. Os copistas tendem, portanto, a manter os dados sintacticamente relevantes do texto que lhes serviu de suporte para a cópia e a alterar de forma mais ou menos significativa os dados com relevância gráfica e/ou fonológica. Esta hipótese terá ainda de ser testada. Procuraremos com este trabalho dar um pequeno contributo para a sua verificação, mas estamos conscientes de que só a verificação em corpora mais abundantes e diversificados bem como a medição de outros tipos de dados poderá clarificá-la.
Não nos interessará, assim, um estudo das variantes que os manuscritos apresentarem na mesma localização no texto. Esse estudo foi feito na minha dissertação de mestrado e utilizarei esses dados apenas como ponto de orientação para escolher os dados a investigar. Examinaremos, pelo contrário, o número de formas diferentes do mesmo dado linguístico, nos diferentes testemunhos, de modo a determinar se a variação é ou não significativa e qual o grau de intervenção que o copista teve sobre o texto.

1.      Identificação do corpus

O estudo que se segue utiliza os dados do corpus coligido e publicado na minha dissertação de mestrado (Pereira 2003), excluindo, por motivos óbvios, aqueles textos que exibiam apenas um testemunho.
Um estudo desta natureza será tanto mais fiável quanto maior for o número de textos e manuscritos sobre que incide a análise. Outro aspecto a considerar seria a natureza dos manuscritos; ou seja, um estudo ideal utilizaria textos cujo original chegou até nós, sendo, portanto, possível comparar o manuscrito autógrafo com as cópias sucessivas.
O corpus que eu utilizo, infelizmente, não tem essa condição ideal. Estamos perante um conjunto de cartas escritas originalmente no século XV, mas cujos autógrafos nos são desconhecidos. Assim, teremos de cotejar os apógrafos entre si. Essa comparação far-se-á a respeito de cada um dos diversos dados linguísticos, de modo a poder estabelecer, em termos percentuais, a incidência da variação em relação a cada dado analisado. Teremos de seleccionar dados das diversas áreas linguísticas, uma vez que o nosso objectivo é saber se a variação tem a mesma frequência em cada área ou se difere substancialmente de área para área.
Os resultados a que chegarmos serão ainda muito parcelares e, portanto, pouco fiáveis, se quisermos alargar as nossas conclusões para a generalidade dos textos remanescentes. Teríamos que aumentar o nosso corpus, incluindo textos de diferentes géneros, de diferentes épocas e de maiores dimensões, de modo a verificar se as conclusões a que formos chegando se podem aplicar a todos os textos ou épocas ou apenas a um certo tipo ou época.
O corpus seleccionado para este estudo enquadra-se no conjunto de textos normalmente identificados como “literários”, mas não poéticos. A importância destes emerge do facto de documentarem “abundantemente a morfologia nominal e verbal, as estruturas morfossintáticas dos sintagmas nominal e verbal. Sobretudo é importante para o estudo das possibilidades sintáticas da língua” (Silva 1991:38). Esta documentação já não apresenta, contudo, tantas potencialidades no que se refere ao estudo da fonética. Se quisermos subdividir o conjunto formado pela prosa “literária”, teremos, então, os textos de ficção, os textos historiográficos e os textos pragmáticos (Silva 1989:28ss.). O corpus que seleccionámos, constituído por um conjunto de cartas, pertence ao terceiro grupo.
Importa agora referir a totalidade dos testemunhos constantes do corpus e a sua localização arquivística (para mais pormenores sobre os testemunhos, incluindo outras edições anteriores, e para a consulta da edição que serve de base ao nosso trabalho, veja-se Pereira 2003).

·         Carta 1, de D. Pedro, Duque de Coimbra, de Bruges em 1426, para D. Duarte, Rei de Portugal.
Testemunhos remanescentes:
A - Manuscrito do séc. XVI[2]: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 1928, f. 24r-41v (microfilme nº 257).
B - Manuscrito do séc. XVIII[3]: Lisboa, BN, COD. 3390, f. 32r-47r (microfilme nº 115).
C - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, PBA 147, f. 249r-254v (microfilme nº 8002).
D - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. 4446, f. 61r-68r.

·         Carta 2, de D. Pedro, Duque de Coimbra, de 1433, para D. Duarte, Rei de Portugal, quando foi levantado por Rei.
Testemunhos remanescentes:
A - Manuscrito do séc. XVI: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 1928, f. 78v-84r (microfilme nº 257).
B - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. 3390, f. 77v-81r (microfilme nº 115).
C - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, PBA 147, f. 247v-249r (microfilme nº 8002).
D - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. 4446, f. 71r-73r.

·         Carta 3, de D. Fernando (1402-1443), Infante, de Fez em 12 de Junho de 1441, para o Regente D. Pedro.
Testemunhos remanescentes:
A - Manuscrito do séc. XVII: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 1111, f. 117r-118v.
B - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 1104, pp. 299-304 (microfilme nº 55).

·         Carta 4, de D. Afonso V (1432-1481) para Gomes Eanes de Zurara (?1410-?1474) incumbindo-o da tarefa de escrever a crónica de D. Duarte de Meneses; escrita a 22 de Novembro de 14(...).


Testemunhos remanescentes:
A - Manuscrito do séc. XV ou já do séc. XVI: Lisboa, BN, COD. Nº 9165 F. G., f. 3r-4r (microfilme nº 753).
B - Manuscrito pelo menos de finais do séc. XVI: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 520, f. 2r-2v.
C - Manuscrito do séc. XVII: Lisboa, BN. COD. Nº 416, f. 9r-10r.
D - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BACL, ms. Nº 1732, pp. 1-3.
E - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. Nº 657 F.G., f. 1r-2v.
F - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. Nº 803 F. G., f. 2r-6v.
G - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº. 595, f. 2r-4r.

·         Carta 5, de D. Afonso V, de 6 de Julho de 1460, na qual D. Duarte de Meneses foi feito conde.
Testemunhos remanescentes:
A - Manuscrito do séc. XV ou já do séc. XVI: Lisboa, BN, COD. Nº 9165 F. G., f. 256r-258v (microfilme nº 753).
B - Manuscrito pelo menos de finais do séc. XVI: Lisboa, IAN/TT, Livraria nº 520, f. 222r-223r.
C - Manuscrito do séc. XVII: Lisboa, BN, COD. Nº 416, f. 157r-158v.
D - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BACL, ms. Nº 1732, pp. 303-307.
E - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. Nº 657 F. G., f. 303v-306v.
F - Manuscrito do séc. XVIII: Lisboa, BN, COD. Nº 803 F. G., f. 606r-610r.

As partes introdutórias das cartas não serão usadas, pois não são parte integrante do texto.

2.      Análise de alguns dados

Já dissemos que este estudo é fundamentalmente de natureza quantitativa. Teremos agora que seleccionar os dados linguísticos sobre os quais vai incidir a nossa análise. Como dissemos também, esses dados têm de estar distribuídos por várias áreas da linguística. Seleccionámos apenas duas dessas áreas: a área da sintaxe e a área grafo-fonológica. Outros dados para além destes poderiam ser estudados; nós optámos por aqueles que nos pareciam mais pertinentes por aparecerem com alguma frequência nos textos e pelo facto de se referirem a aspectos linguísticos sujeitos a processos de mudança na gramática da língua. Apenas estes dados nos interessam, uma vez que as mudanças ocorridas podem interferir no processo de cópia dos textos.


2.1.      Os pronomes clíticos

Os dados que agora vamos analisar pretendem representar questões de natureza sintáctica. Assim, elegemos alguns problemas que podem servir de base à investigação sobre os níveis de variação sintáctica.

2.1.1.Variação na posição do pronome em orações “neutras” (próclise/ênclise)

Martins (1994) define a noção de «orações “neutras”» como orações independentes (simples, principais ou coordenadas não disjuntivas) que não apresentam qualquer factor que determine a próclise (a existência de um operador de negação predicativa, a presença de um quantificador ou de certos advérbios em posição pré-verbal, a focalização de determinados constituintes frásicos à esquerda do verbo) ou a ênclise (o verbo em posição inicial absoluta). Os pronomes clíticos em frases “neutras” exibem variação livre em toda a época medieval, ou seja, encontramos tanto a próclise como a ênclise. No entanto, esta variação está subordinada a uma mudança bastante interessante: do século XIII até ao século XVI passou-se da predominância da ênclise até à próclise quase exclusiva. Assim, no século XIII podemos observar a ênclise dominante; durante os séculos XIV e XV é visível uma grande variação, sendo o século XV o período em que a próclise é dominante; no século XVI a próclise é quase exclusiva.
No século XVII ocorreu uma mudança significativa neste contexto: a ênclise passa a ser maioritária, embora não exclusiva, pelo menos nas gramáticas de alguns falantes (Martins 1994: 272ss).
Uma vez que o nosso corpus inclui manuscritos que vão do século XV/XVI até ao século XVIII, poderíamos notar a interferência das mudanças gramaticais, entretanto ocorridas, nas diferentes cópias dos mesmos textos. É isso que vamos verificar.
Seleccionámos este contexto ainda pelo facto de a única ocorrência de variante próclise/ênclise que o nosso corpus exibe surgir exactamente aí:

(1) a.   Assi senhor peçouos por merce que em uossa encommenda e merce ajais as mulheres e madres, e filhos e couzas destes que comigo estao~ (3A,118v,19)
b.   Asim senhor vos peço por merçe que em vossa emcomenda ajudeis as molheres E madres e filhos e Couzas destes que Comiguo estao~ (3B,304,9)

Estas frases poderiam ser interpretadas como orações principais mas não neutras uma vez que apresentam um dos advérbios que, em posição pré-verbal, determinam, em princípio, a próclise.
No entanto, o advérbio pode ou não ser um adjunto frásico (Martins 1994:20-21). Se o for, a sua presença não determina a próclise; se, pelo contrário, a sua ligação ao verbo for maior, a próclise passa a ser obrigatória.
A sua interpretação como adjunto ou não depende fundamentalmente da presença de pausa entre o advérbio e o verbo (Cunha & Cintra, 1997:314). Essa pausa é bem perceptível na oralidade, sendo na escrita representada pela vírgula (na ortografia actual). Mas uma vez que a pontuação destes textos está longe das regras ortográficas actuais, torna-se verdadeiramente difícil determinar a presença/ausência dessa pausa. A conclusão que poderemos retirar é que os dois copistas parecem ter interpretado de maneira diferente a função sintáctica do advérbio. O copista de 3A, em (1) a, interpretou-o como adjunto frásico, enquanto que o copista de 3B, em (1) b, o interpretou aparentemente como dependente da forma verbal. Assim, para o copista de 3A, a frase em questão tem todas as características de uma oração neutra, enquanto que para 3B, a mesma frase é interpretada como oração principal com advérbio “proclisador”. Está assim justificada a análise desta frase no contexto das orações “neutras”.

Quadro 1
Posição dos clíticos em orações “neutras”


3A
3B
%
%
Próclise
10
62.5
11
68.7
Ênclise
6
37.5
5
31.3
Total
16
16

No quadro 1 considerámos apenas a variação em relação à carta 3 e aos seus dois manuscritos. O nível de variação é de 6.2%, considerando como base para o cálculo percentual o número de frases neste contexto em cada testemunho (16).
Mas o nível real de variação só será verdadeiramente acautelado se tivermos em conta a totalidade das frases neutras em todos os textos do corpus. É isso que vamos procurar ver no quadro seguinte.

Quadro 2
Posição dos clíticos em orações “neutras”


1A
2A
3A
4A
5B
Próclise
18
4
12
2
5
Ênclise
6
3
6
1
---
Mesóclise
---
1
---
---
---
Total parcial
24
8
18
3
5
Total de frases
58

No quadro 2 incluímos apenas o número de ocorrências de frases com próclise, ênclise ou mesóclise no contexto referido e apenas num dado manuscrito, excluindo a referência aos outros manuscritos, porque não ocorre, em relação a todos os textos e manuscritos, excepção feita à carta 3, como já vimos, qualquer variante no que se refere a este assunto. Os níveis de variação aproximam-se, portanto, de 0%. Com maior rigor podemos observar que num conjunto de 58 frases (todas as frases de todos os textos, tendo em conta somente um testemunho para cada texto), apenas uma frase apresenta variação. Ou seja, 1.7% da totalidade das frases em orações “neutras”. Na realidade, esta percentagem baixaria muito mais ainda se contabilizássemos as frases todas em todos os contextos, porque ocorre apenas uma única variante que afecta a posição do pronome clítico do tipo próclise/ênclise/mesóclise.

2.1.2.Variação na interpolação

A interpolação a que nos referimos aqui é a inclusão de determinados elementos linguísticos entre o pronome clítico e o verbo, provocando uma ruptura na adjacência do pronome em relação ao verbo. Esse fenómeno só pode acontecer em contextos de próclise. Os elementos linguísticos que podem aparecer interpolados, em textos portugueses medievais e subsequentes, são, entre outros, os seguintes: SNsujeito, OD, OI, oblíquos preposicionais, advérbios, adjectivos, PP em tempos compostos, infinitivo em completivas ou em estruturas com auxiliar, constituinte de redobro do clítico, quantificadores. Para além destes elementos, há ainda a considerar a interpolação do advérbio de negação “não”, o qual apresenta uma história específica, como veremos a seguir. Os contextos em que tal interpolação ocorria eram variados.
A interpolação nunca foi um fenómeno obrigatório, daí a ocorrência de situações com interpolação e outras sem interpolação em contextos semelhantes.
No século XVII, contudo, ocorre uma alteração significativa: a frequência da interpolação de outros elementos linguísticos para além do advérbio “não” diminui substancialmente, permanecendo opcional a interpolação de “não” (Martins 1994: 275ss e 306).
Vejamos agora as variantes que o nosso corpus apresenta:

(2) a. deixao~ ja de falar na ho~rra e boa fama que he em a asy tere~ (1A,39r,3-4)
b. _em asi a terem (1B,45r,9-11)
(3) a. tais quatro homens que som pera ainda uos fazer muyto seruiço (3A,117v,38)
b. _sam para uos ainda_ (3B,301,30-31)
(4)  a. O meu vulto pintado eu o no~ tenho pera volo agora la poder e~uiar (4A,4r,31-32)
b. _para agora lá volo poder enviar (4G,4r,14-16; 4E,2r,10-11)
c. _para agora vo lo poder enviár (4F,6v,1-2)
(5)  a. por que vos nao~ me escreuies (4A,3r,18-19)
b. por que vós me nao~ escrevieis (4E,1r,14; 4G,2r,18-19)

A presença ou não de interpolação também introduz alterações na posição do pronome clítico, embora essas alterações não determinem variantes do tipo próclise/ênclise. Todas as frases têm o pronome em posição pré-verbal e a variação ocorre na presença/ausência de interpolação de determinados elementos entre o pronome e o verbo.
Assim, nas frases (2) a (4) observamos a presença/ausência de interpolação de determinados advérbios, os quais ocorrem sempre em posição pré-verbal. O contexto em que ocorrem as variantes é o de orações infinitivas introduzidas por em e por pera.
Nas frases (5) observamos a presença/ausência de interpolação do operador de negação predicativa em frases subordinadas finitas negativas.
É necessário verificar que a interpolação dos advérbios (exceptuando o de negação, que deve ser tratado à parte) ocorre nos manuscritos mais antigos: 1A (séc. XVI) e 4A (séc. XV/XVI). A excepção é o manuscrito 3A, que não apresenta interpolação, por oposição ao manuscrito 3B, que a exibe (a este respeito, é necessário referir que o manuscrito 3B parece preservar dados mais antigos do que o manuscrito 3A). Os manuscritos onde a mesma frase aparece sem interpolação são datáveis dos séculos XVII ou XVIII. Ora estes dados correspondem exactamente às conclusões de Martins (1994:193-194): “a partir do século XV, [dá-se] o início de um processo de mudança: a frequência relativa da escolha da estrutura sem interpolação começa a aumentar”.
No que se refere à interpolação do advérbio não, estamos perante uma história própria. Este é o único caso em que o português actual admite a interpolação. Assim, podemos verificar que a frase onde ocorre interpolação pertence a manuscritos mais recentes, exibindo o manuscrito mais antigo a estrutura sem interpolação (igualmente alternativa em textos antigos).
Vamos agora verificar quantitativamente a incidência da variação, contabilizando apenas os contextos pertinentes.
Assim, começamos por recolher os dados sobre interpolação em orações subordinadas finitas, uma vez que este contexto, porque determina a próclise, é favorável à ocorrência de interpolação.

Quadro 3
Interpolação em orações subordinadas finitas (excepto “não”)


1A
2A
3A
4A
5B
Sujeito
7
1
3
2
2
Advérbios
5
5
2
2
1
Objecto directo
3
1
---
---
---
Oblíquos preposicionais
4
1
3
---
6
Total de frases com interpolação
19
8
8
4
9
Total de subordinadas finitas
93
27
55
17
15

O quadro 3 apresenta a totalidade das orações subordinadas finitas (num manuscrito para cada carta) com interpolação de determinados elementos (excluímos, neste momento, o advérbio “não”). Uma vez que não ocorre qualquer variante em nenhum dos manuscritos, os níveis de variação são de 0%, num total de 207 orações subordinadas finitas e num total de 48 subordinadas finitas com interpolação de determinados elementos.

O contexto que agora nos interessa é o da totalidade das orações negativas, uma vez que queremos determinar o nível de variação da interpolação de “não” nas orações cujo contexto é dado pelas frases (5) a. e b. onde ocorria uma variante.
 

Quadro 4
Interpolação de “não” em orações negativas


1A
2A
3A
4A
4E-G
5B
%
%
%
%
%
%
Com interpolação
15
71.4
4
66.7
6
66.7
3
75
8
100
1
100
Sem interpolação
6
28.6
2
33.3
3
33.3
1
25
---
---
---
---
Total
21
6
9
4
8
1

Se atendermos apenas à percentagem da variação no conjunto de orações que fazem parte dos manuscritos da carta 4, podemos ser induzidos em erro, uma vez que uma única ocorrência tem um nível percentual muito elevado (25%, ou seja 1 em 4). Seríamos então induzidos a pensar numa percentagem de variação muito elevada no que se refere à interpolação de “não”. Na realidade, temos de contabilizar também o conjunto de orações negativas de todos os outros textos.
Num total de 41 orações negativas, tendo em conta a totalidade de ocorrências num manuscrito de cada texto, apenas 1 apresenta variação na interpolação da negação, o que representa, de facto, 2.4% da totalidade das orações. Trata-se, pois, de uma frequência de variação bastante reduzida. Se quiséssemos contabilizar, como faremos para a análise dos dados grafo-fonéticos, o número de ocorrências na totalidade dos manuscritos, a percentagem de variação seria certamente ainda mais reduzida.

As frases (2) a (4) revelam a existência de variação quanto à interpolação de advérbios em orações infinitivas introduzidas por em e por pera/para. Não vamos ter em conta apenas o contexto das orações infinitivas, pois o que nos interessa determinar é o nível de variação na interpolação de certos advérbios. Vamos, por isso, determinar, antes de mais, todas as frases que estão em condições de realizar a interpolação de advérbios. Terão de ser frases onde o pronome está em posição proclítica e onde ocorrem advérbios em posição pré-verbal, em condições, portanto, de ocuparem o lugar entre o pronome e o verbo. Os advérbios que ocorrem, interpolados ou não, são os seguintes: assim, ainda, agora, , , sempre, antes (com sentido de “pelo contrário”), outrossim, também, mais (com sentido de “também”), logo, melhor, igualmente, , tarde, diante.


Quadro 5.1
Interpolação de advérbios


1A-2A
1B-2B
3A
3B

%
%
%
%
Com interpolação
10
52.6
9
47.4
3
16.7
4
22.2
Sem interpolação
9
47.4
10
52.6
15
83.3
14
77.8
Total
19
19
18
18

Quadro 5.2
Interpolação de advérbios


4A
4E
4F
4G
5B

%
%
%
%
%
Com interpolação
4
80
3
60
3
60
3
60
---
---
Sem interpolação
1
20
2
40
2
40
2
40
4
100
Total
5
5
5
5
4

Se considerarmos os dados de cada texto, independentemente dos dados dos outros textos, verificamos que o nível de variação entre 1A-2A e 1B-2B é de 5.2%, entre 3A e 3B é de 5.5%, entre 4A, por um lado, e 4E, F e G, por outro lado, é de 20%, entre 5B e os outros manuscritos da carta 5 é de 0%. Se, contudo, considerarmos a totalidade dos manuscritos para todas as cartas, verificamos um nível bem mais baixo de variação. Para a carta 4, por exemplo, que é a que apresenta percentagem mais elevada, a variação baixaria para 11.4%.
A partir destes dados, podemos verificar quão enganadoras podem ser as conclusões retiradas de um tão ínfimo número de ocorrências. De facto, os manuscritos da carta 4 apresentam uma única variante, exactamente o mesmo número de variantes que as outras cartas apresentam, excepção feita à carta 5; mas o nível percentual aparece francamente elevado porque a base para determinar a percentagem é de apenas 5 frases.
Tal como temos vindo a fazer, o caminho mais recomendado é reflectir sobre números globais, que incluam a totalidade das frases em todos os textos (seleccionando apenas um manuscrito de cada um) e verificar posteriormente qual o número de frases que apresentam variantes, de modo a podermos determinar a percentagem global de variação. Deste modo, num total de 46 frases em condições de interpolar advérbios, 3 apresentam variação do tipo interpolação/não interpolação. Isso representa 6.5% da totalidade das frases.

2.2.Terminações nasais

As terminações nasais que vão ser estudadas são apenas as que representam ou evoluíram para o ditongo nasal uniformizado [ɐ)w)], quer sejam formas nominais singulares (ex.: ocupação, galardão), quer sejam formas verbais (ex.: são, pareceram, hão, poderão) ou adverbiais (ex.: não, senão, quão, tão). No que se refere às formas nominais, serão apenas tidas em conta as formas singulares. Excluiremos também as formas cujo étimo latino deu directamente origem ao ditongo nasal [ɐ)w)], antes de qualquer uniformização (por ex.: irmão, mão, cristão...).
Contabilizamos em conjunto os dados dos manuscritos 1A-2A, 1B-2B, etc., como aliás já fizemos no ponto anterior deste trabalho, porque não só se trata do mesmo manuscrito, como também a grafia revela ter sido copiado pela mesma mão. Onde tal não acontecer, os dados serão trabalhados em separado. Uma vez que os dados serão analisados em termos percentuais, poderemos sempre comparar a incidência da variação, mesmo quando comparamos dois manuscritos em conjunto (4A e 5A, por exemplo), com um único manuscrito (4E, por exemplo).
Nos quadros seguintes aparecerá na primeira coluna o número de ocorrências de cada forma e na segunda a percentagem dessa forma sobre o número total de ocorrências em cada manuscrito.
O número total de ocorrências no mesmo texto, mas de manuscritos diferentes, pode não ser o mesmo devido a problemas vários no manuscrito (palavras, expressões ou frases não transcritas pelo copista devido a erros ou desatenções de múltiplos géneros; mau estado do manuscrito; etc.).
Estas terminações nasais, derivadas de diversas terminações latinas, poderão ter começado o seu processo de uniformização ainda no século XIII ou no século XIV, mas esse processo só será concluído nos finais do século XV (Castro 1991: 244s). Isso significa que as formas em <õ>, <ã>, etc., em textos dos finais do século XV ou posteriores a esse século, representam a manutenção, ao nível exclusivamente gráfico, de antigas terminações nasais[4]. Sendo algumas das cartas da primeira parte do século XV, é provável que o processo de uniformização fonética ainda não estivesse concluído no momento em que foram redigidas. Os testemunhos que aqui usamos são todos de uma época em que essa uniformização já estava concluída. O que nós pretendemos verificar é se os manuscritos tendem a manter as formas do manuscrito que lhes serviu de cópia ou se alteram significativamente esses manuscritos. Ou seja, interessa-nos saber qual o grau de intervenção do copista.

Quadro 6
Terminações nasais


1A-2A
1B-2B
1C-2C
1D-2D
3A
3B
%
%
%
%
%
%
ão/aõ
144
57.1
181
70.4
159
61.9
189
74.1
57
60
40
42.1
õ/o
50
19.8
22
8.6
58
22.6
2
0.8
2
2.1
35
36.8
õo/oõ
---
---
---
---
---
---
---
---
---
---
3
3.2
om
2
0.8
28
10.9
12
4.7
12
4.7
33
34.7
9
9.5
iom
---
---
---
---
1
0.4
---
---
---
---
---
---
on
---
---
---
---
13
5.1
39
15.3
3
3.2
2
2.1
ã/a
43
17.1
10
3.9
1
0.4
10
3.9
---
---
1
1.1
am
2
0.8
7
2.7
2
0.8
---
---
---
---
4
4.2
an
---
---
---
---
---
---
---
---
---
---
1
1.1
aon
---
---
---
---
---
---
1
0.4
---
---
---
---
aom
11
4.4
9
3.5
11
4.3
2
0.8
---
---
---
---
Total
252
257
257
255
95
95


Quadro 7
Terminações nasais


4A-5A
4B-5B
4C-5C
4D-5D
4E
5E
4F-5F
4G
%
%
%
%
%
%
%
%
ão/aõ/ao
76
84.4
83
95.4
71
78
77
86.5
46
95.8
21
95.5
68
95.8
43
89.6
õ/o
5
5.6
---
---
6
6.6
3
3.4
1
2.1
---
---
---
---
1
2.1
on
---
---
1
1.2
---
---
---
---
---
---
---
---
---
---
---
---
ã/a
9
10
---
---
6
6.6
9
10.1
1
2.1
---
---
2
2.8
---
---
am
---
---
3
3.4
8
8.8
---
---
---
---
1
4.5
1
1.4
4
8.3
Total
90
87
91
89
48
22
71
48

Os dados dos quadros 6 e 7 revelam que os níveis de variação entre manuscritos dependem não só dos manuscritos em confronto como também do tipo de variante em análise. De facto, podemos verificar, por exemplo, que o manuscrito 1A-2A, embora tenha uma elevada percentagem de ocorrências da forma <ão/aõ> (57.1%), fica ainda muito aquém, por exemplo, do manuscrito 1D-2D (74.1%), certamente por ser mais recente. A diferença entre uma e a outra percentagem corresponde à variação entre cada manuscrito (17%). Os dois manuscritos estão, assim, bastante distantes um do outro. O grau de intervenção do(s) copista(s) é realmente notável. Mas se compararmos os mesmos dois manuscritos, em relação a outra forma (, por exemplo), podemos observar um grau de variação bastante baixo (0.4%). Podemos, então, concluir que o grau de intervenção dos copistas é diferenciado de acordo com as formas em análise.
Mas os manuscritos em apreço também exibem graus de variação diferenciados. Se analisarmos a mesma forma já examinada (<ão/aõ>), observamos que a variação entre o manuscrito 1B-2B e 1D-2D é de facto bem mais pequena do que o grau de variação já referido para os manuscritos 1A-2A e 1D-2D. Aqueles apresentam uma variação de apenas 3.7%, enquanto que estes exibem 17%. A oscilação tem, por isso, a ver não apenas com as formas em análise mas também com os manuscritos; provavelmente com a sua relação genética e com a época em que foram redigidos. De facto, os manuscritos mais antigos tendem a apresentar uma menor percentagem de ocorrências da forma <ão/aõ>, apesar de tal não acontecer sempre. Quando tal não acontece, podemos levantar a hipótese de que os manuscritos que serviram de base às cópias mais recentes fossem manuscritos mais antigos do que os que serviram de base às cópias mais antigas e também ao facto de o copista dos primeiros ter exercido uma menor intervenção sobre o manuscrito de base (cf. 3A e 3B).
Podemos concluir que, quanto ao problema que nos ocupa, a intervenção dos copistas é múltipla e de graus muito variados. Múltipla porque incide sobre formas diferentes, de grau variado porque a intervenção não tem a mesma incidência quantitativa entre manuscritos diferentes. Assim, a amplitude da variação que podemos observar vai desde uma pequena diferença (por exemplo 0.4%, como já vimos) até uma diferença bastante significativa (34.7%, correspondente à diferença, para a forma <õ/o>, entre o manuscrito 3A e 3B).
Se nos debruçarmos agora sobre a média global de variação entre manuscritos (a soma das diferenças percentuais correspondentes a cada forma entre manuscritos da mesma carta, a dividir pelo número total de parcelas), observamos o que se apresenta no quadro 8.



Quadro 8
Média global de variação

Carta 1/2
5.4%
Carta 3
11.1%
Carta 4/5
4.1%
Todas as cartas
6.9%

Este quadro dá-nos a indicação de que 6.9 ocorrências em 100 são diferentes de testemunho para testemunho, contabilizando apenas a variação entre os manuscritos de cada carta. O nível da variação parece ser relativamente baixo. No entanto, se tivermos em conta um número de ocorrências elevado, 6.9% desse número é, de facto, uma quantidade bastante significativa. É de referir ainda que os resultados médios são sempre um pouco falaciosos, uma vez que encobrem as diferenças reais entre cada elemento que entrou no cálculo da média. Se observarmos com atenção o quadro 8, verificamos que a diferença entre 11.1%, correspondente à carta 3 e 4.1%, correspondente às cartas 4/5 é significativa. Também não podemos esquecer que, em relação a cada carta já observámos níveis de variação bastante diversificados, como referimos nos comentários aos quadros 6 e 7.

Por motivos óbvios, relacionados com o tipo de dados que pretendíamos comparar, utilizámos como corpus para este estudo apenas as cartas de múltipla tradição, as que apresentavam mais do que um manuscrito. No entanto, fizemos, na dissertação de mestrado, a edição de uma outra carta cujo manuscrito ou é autógrafo ou está muito próximo do original. Trata-se de uma carta também de D. Pedro, Duque de Coimbra, de 1444, para o seu filho, o Condestável D. Pedro, sobre a libertação da cidade de Sevilha. O único testemunho remanescente (manuscrito provavelmente autógrafo) encontra-se em Lisboa, IAN/TT, Corpo Cronológico, Parte I, Maço 1, Doc.16 (microfilme nº 1422).
O facto de ser provavelmente autógrafo torna esse manuscrito particularmente relevante. Vamos, por isso, observar os dados que aqui ocorrem e levantar a hipótese de que os originais das outras cartas teriam mutatis mutandis o mesmo tipo de ocorrências. Esta hipótese não poderá ser suficientemente testada, terá, portanto, um grau de probabilidade relativamente baixo, mas baseia-se no facto de este manuscrito ser sensivelmente da mesma época em que os outros autógrafos foram produzidos, momento em que o processo de uniformização das formas que aqui nos interessam estava ainda a decorrer.

Quadro 9
Terminações nasais (manuscrito autógrafo)


%
õ
1
6.7
om
13
86.6
am
1
6.7
Total
15

Os dados constantes do quadro acima são substancialmente diferentes dos dados das outras cartas. De facto, neste manuscrito, as várias formas aparecem grafadas de acordo com a antiga forma fonética das terminações nasais. A única ocorrência de <ão> refere-se à palavra Jrmaão, que exibiu sempre (em português) a terminação em <ão>, uma vez que provém do étimo latino GERMA#NU. Enquanto que os outros testemunhos apresentam uma percentagem acima dos 50% para a terminação <ão>, excepto 3B que, no entanto, se aproxima deste valor, este testemunho autógrafo não exibe uma única ocorrência, sendo todas as formas que etimologicamente não produziram <ão> grafadas de acordo com a sua origem etimológica. Se atendermos a estes dados, e se mantivermos a hipótese de que os autógrafos das outras cartas, pelo menos os das cartas 1, 2 e 3, apresentavam uma grafia semelhante à desta, poderemos supor um nível de variação bastante superior àquele que já encontrámos em cada testemunho do nosso corpus. Ou seja, o grau de intervenção dos copistas das cartas que nos serviram de corpus é bastante elevado, supondo que os autógrafos de cada uma teriam dados correspondentes aos que encontramos nesta carta de 1444. Deste modo, os 0% de ocorrências de <ão/aõ> contrastam com os 57.1% de 1A-2A, os 70.4% de 1B-2B, os 61.9% de 1C-2C, etc. Se considerarmos as formas correspondentes a [õ] como um conjunto único, os 93.3% do manuscrito autógrafo contrasta largamente com os 20.6% de 1A-2A, os 19.5% de 1B-2B, os 32.8 de 1C-2C, 20.8 de 1D-2D, os 40% de 3A, ou mesmo os 51.6% de 3B (as cartas 4 e 5 têm níveis percentuais ainda mais baixos).

2.3.      Representação gráfica da segunda pessoa do plural

A segunda pessoa do plural dos tempos verbais em que ocorria um -d- intervocálico sofreu uma interessante evolução ao longo do século XV (Castro 1991: 247s). Este -d-, com origem no -t- latino, sofreu um processo de vozeamento por assimilação ao traço [+voz] das vogais entre as quais se encontrava. Este fenómeno, normalmente incluído num processo de mudança mais vasto chamado lenição ou abrandamento, ocorreu ainda em latim. O português herdou as formas da segunda pessoa do plural já com -d- intervocálico. Só, muito provavelmente durante a primeira metade do século XV (Williams 2001: 175ss) é que ocorreu a queda deste segmento fonológico, por causa do seu enfraquecimento derivado do contexto intervocálico. Deste processo, surgem hiatos que, à semelhança de outros hiatos mais antigos e devido ao facto de os hiatos serem sequências fónicas muito instáveis, se vão resolvendo ainda durante o século XV, através da semivocalização da segunda vogal (verbos da primeira e segunda conjugação), dando origem a um ditongo crescente que, aliás, ainda se mantém hoje neste contexto. No que se refere aos verbos da terceira conjugação, o processo da queda de -d- proporcionou a existência de um hiato com vogais do mesmo timbre. O resultado final foi a crase das duas vogais. Assim, optamos por analisar apenas os verbos da primeira e segunda conjugações, ou seja, os que evoluíram para ditongo.
Do que foi dito, resulta que excluímos aqueles tempos verbais onde o não aparece em contexto intervocálico. De facto, nesses contextos ele ainda se mantém hoje. Vejamos, por exemplo, as formas fizerdes (futuro do conjuntivo) e fazerdes (infinitivo flexionado). É de salientar ainda o pretérito perfeito em que a segunda pessoa do plural permanece sem (fizestes) e algumas formas que não ficaram sujeitas à queda de -d-, como, por exemplo, vedes, ledes, vindes, etc. Nenhuma destas formas será, pois, tida em conta.
As formas gráficas desta pessoa verbal aparecem representadas de quatro maneiras: com hiato gráfico (consintaes, dizees, erees, estees, façaes, mandees, percaes, poderees, podiees, sabee, seiaes, soccoraes, soes, tenhaes, tiraes), com ditongo gráfico (açharieis, dais, deueis, deuieis, dizei, entendeseis, estéis, fareis, sabeis, sois, tirais), sem hiato nem ditongo gráficos, ou seja, com apenas uma vogal (aues, eres, escrevies, fores, mandares, trabalhasses), com hiato e com ditongo gráficos (esteeis, sabeies, sabereies, soeis, soies). A penúltima situação só acontece quando as vogais em questão têm o mesmo timbre, o que leva a supor uma possível crase das duas vogais, a qual não vingou pois o processo de resolução dos hiatos foi uniforme no que se refere ao resultado que se viria a generalizar: a semivocalização da segunda vogal. A última situação revela uma certa indecisão do copista em optar por uma das duas formas possíveis. Motivado pela fonética, ele representa o antigo hiato através de ditongo, mas da antiga forma de grafar estes contextos ele mantém as duas vogais.
Surgem igualmente algumas formas cujo resultado não veio a vingar: te)ez por tendes, averes por averdes, etc[5]. Todas estas formas serão rejeitadas, uma vez que mantiveram o , como atrás já foi referido. Por vezes aparece também, associado aos hiatos gráficos, um sinal geral de abreviatura. Consideraremos estas formas como simples representações de hiatos gráficos.

Quadro 10
Terminações verbais da segunda pessoa do plural


1A-2A
1B-2B
1C-2C
1D-2D
3A
3B
%
%
%
%
%
%
Hiato
2
2.2
5
5.7
3
3.3
2
2.3
1
2.6
9
23.1
Ditongo
83
93.3
75
86.2
87
95.6
83
94.3
34
89.5
29
74.4
Vogal
4
4.5
6
6.9
1
1.1
3
3.4
3
7.9
1
2.6
H/D
---
---
1
1.1
---
---
---
---
---
---
---
---
Total
89
87
91
88
38
39


Quadro 11
Terminações verbais da segunda pessoa do plural


4A-5A
4B-5B
4C-5C
4D-5D
4E
5E
4F-5F
4G
%
%
%
%
%
%
%
%
Hiato
4
19
1
4.3
5
22.7
11
50
1
5.6
---
---
1
5.6
---
---
Ditongo
11
52.4
18
78.3
11
50
5
22.7
15
83.3
---
---
15
83.3
16
94.1
Vogal
6
28.6
4
17.4
5
22.7
---
---
2
11.1
---
---
2
11.1
1
5.9
H/D
---
---
---
---
1
4.5
6
27.3
---
---
---
---
---
---
---
---
Total
21
23
22
22
18
---
18
17
Nota:   Os manuscritos 5E e 5F terminam antes do fim do texto da carta; por isso, não se encontra qualquer ocorrência em nenhum dos dois.

Os dados dos quadros 10 e 11 vêm corroborar o que já foi dito a propósito das terminações nasais. Também aqui o grau de variação é diferente de manuscrito para manuscrito mas também de forma para forma. Elevados níveis de variação (por exemplo: 20.5% em relação à representação do hiato em 3A e 3B; 60.6% em relação à representação do ditongo em 4D-5D e 4E) contrastam com níveis bastante mais baixos (por exemplo: 1.1% em relação à representação da vogal em 1A-2A e 1D-2D). Os dados são tão díspares que não é possível determinar um grau de intervenção uniforme. Em relação a dados de natureza grafo-fonológica não parece ser possível encontrar um padrão de variação: os dados exprimem elevado grau de intervenção em algumas formas, mas pequenas intervenções em relação a outras formas.

Quadro 12
Média global de variação

Carta 1/2
2.6%
Carta 3
13.6%
Carta 4/5
19.2%
Todas as cartas
11.8%

Também no que se refere à média global de variação deve ser tido em conta o que foi referido para as terminações nasais. É ainda de salientar que 11.8% é uma média global bastante alta, contrastando com os 6.2% de média global de variação no que se refere às terminações nasais. Também aqui não é possível pressupor um padrão de intervenção uniforme.

Vamos agora, à semelhança do que foi feito para as terminações nasais, analisar os dados do manuscrito autógrafo e confrontá-los com os outros manuscritos.
Podemos observar a presença no autógrafo de algumas formas cujo resultado não veio a vingar: hij por ide, põee por ponde. Nenhuma destas formas foi considerada, uma vez que a sua evolução conduziu à manutenção de . A sua presença poderá significar que a forma sincopada existiu em português, pelo menos num momento inicial, ou seja, ao mesmo tempo ou pouco depois de este fenómeno ter ocorrido nos outros contextos.
Como já dissemos, não vamos ter em conta as ocorrências de formas como pedij e pedijs, em verbos da terceira conjugação.
É necessário também ter em conta que as formas com vogal aparecem em conjugações pronominais, com o pronome em mesóclise (futuro do indicativo: presemtarlhees, pidirlhees). O contacto entre a vogal do pronome e a vogal da terminação verbal produz igualmente um hiato. A comparação com outra forma do futuro sem mesóclise (firmarees) parece indiciar que as formas com mesóclise só não têm hiato na terminação verbal porque isso obrigaria à presença de três vogais do mesmo timbre em contacto. Talvez as duas formas com vogal se enquadrassem melhor nas formas com hiato, o que produziria 100% de ocorrências com hiato.

Quadro 13
Terminações verbais da segunda pessoa do plural
(manuscrito autógrafo)


%
Hiato
16
88.9
Vogal
2
11.1
Total
18

Os dados constantes no quadro 13 revelam que o já tinha caído: não há, por isso, qualquer ocorrência com -d-. No entanto, as formas com hiato gráfico são esmagadoramente maioritárias. Se tivermos em conta que as duas ocorrências com vogal são dúbias, as formas com hiato são praticamente a totalidade das ocorrências. Se compararmos estes dados com os das outras cartas e manuscritos, podemos verificar uma enorme discrepância. Esta diferença, aliada à hipótese já avançada de que os autógrafos das outras cartas teriam dados semelhantes aos deste autógrafo, leva-nos a concluir que os níveis de intervenção são muito maiores do que aqueles que os quadros anteriores já evidenciaram.


Conclusão

Os dados que analisámos atrás poderão servir de base a algumas conclusões sobre os níveis de variação e de intervenção dos copistas. No entanto, teremos de ter em conta que estas conclusões serão ainda bastante parciais. Isto por vários motivos: baseiam-se num pequeno corpus de textos, certamente não suficientemente representativo da maneira como se comportam os dados linguísticos em textos de épocas passadas da língua portuguesa; foram seleccionados apenas alguns dados que também não serão completamente representativos da maneira como se comportam globalmente os dados de natureza grafo-fonológica e sintáctica. Este estudo será, pois, uma primeira aproximação ao problema, carecendo de ulteriores estudos sobre outros dados concretos mas mais abrangentes.
Todavia, dos dados que nós recolhemos podemos inferir algumas conclusões. A primeira é que vimos parcialmente confirmada a nossa hipótese de partida, ou seja, que os níveis de variação são mais elevados no que se refere aos dados de natureza grafo-fonológica do que aos dados de natureza sintáctica. Parece que os copistas tendem a intervir com elevado grau de profundidade no sentido da adaptação da superfície textual à forma como as palavras se grafavam no tempo em que realizaram o seu trabalho. Na ausência de uma ortografia determinada oficialmente, há maior liberdade no sentido de a forma gráfica das palavras poder reproduzir a forma fonética, apesar da tendência generalizada para a conservação de antigas formas gráficas e para a utilização dos sistemas gráficos aprendidos. Assim, não parece que os copistas entendam a adaptação da grafia à forma fonética em uso como uma traição aos dados constantes no manuscrito que lhes serviu de base para a cópia. Talvez até pretendam com isso tornar o texto legível para os leitores do seu tempo, prestando assim um serviço à comunidade através da actualização das grafias.
Mas o mesmo já não parece acontecer quanto à forma sintáctica. Os copistas tendem a preservar os aspectos de natureza sintáctica, mesmo aqueles que já sofreram alteração. Isso não significa que não ocorram intervenções no sentido da actualização da sintaxe ao estado da língua no tempo do copista. Significa apenas que essa intervenção é feita em menor grau do que a que é realizada para a adaptação grafo-fonológica.
Se as coisas forem como as descrevemos, então os estudos de questões grafo-fonológicas realizados a partir de cópias terão de ser efectuados com a máxima cautela. A distância cronológica entre a cópia e o original será um aspecto a considerar. Assim, quanto mais próximo do texto original maior probabilidade haverá de corresponder aos dados grafo-fonológicos constantes no autógrafo. Isso porque a língua, no seu processo de mudança, precisa de tempo para consolidar as novas formas; no que se refere à escrita, esse tempo é ainda mais longo do que na oralidade, uma vez que a escrita tende a ser um registo bastante conservador. Quanto mais distante cronologicamente estiver o apógrafo, mais provável será que as adaptações grafo-fonológicas tenham ocorrido, uma vez que já se terão vulgarizado as novas formas, tanto na oralidade como na escrita.
É evidente que há outros factores a ter em conta. Como vimos atrás, 3B, sendo aparentemente mais recente do que 3A, parece manter formas mais antigas. Há certamente copistas mais conservadores do que outros. Há cópias mais recentes mas mais conservadoras por terem sido realizadas a partir do próprio autógrafo ou a partir de cópias mais antigas, etc. No entanto, o critério acima referido da distância cronológica continua a ser válido. De facto, 3A e 3B são relativamente próximos cronologicamente; assim sendo, outros factores podem ser preponderantes para as diferenças que eles apresentam.
No que se refere a questões sintácticas, os estudos poderão ter maior segurança mesmo quando usam um corpus constituído por textos apógrafos. Mas mesmo nesta situação, será sempre preferível o texto autógrafo ao apógrafo e quase sempre preferível o apógrafo mais antigo ao mais recente (especialmente se a distância cronológica entre os dois for bastante significativa).

Bibliografia

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Brocardo, M. Teresa. no prelo. “Sobre algumas mudanças linguísticas caracterizadoras do português médio”, in Actas do Congresso Internacional 500 anos da língua portuguesa no Brasil (Universidade de Évora, 8-13 de Maio de 2000).
Castro, Ivo. 1991. Curso de História da Língua Portuguesa, Universidade Aberta, Lisboa.
Cepeda, Isabel. 1995. Bibliografia da Prosa Medieval em Língua Portuguesa (subsídios), IBNL, Lisboa.
Cunha, Celso & Cintra, Luís F. Lindley. 1997. Nova Gramática do Português Contemporâneo, 13ª edição, Edições João Sá da Costa, Lisboa.
Dias, João José Alves. 1982. Livro dos Conselhos de El-Rei D. Duarte (Livro da Cartuxa), edição diplomática, introdução de A. H. de Oliveira Marques e João José Alves Dias, revisão de A. H. de Oliveira Marques e Teresa F. Rodrigues, Editorial Estampa, Lisboa.
Maia, Clarinda de Azevedo. 1994. “Tratado de Tordesilhas: algumas observações sobre o estado da língua portuguesa em finais do séc. XV”, Biblos LXX, pp. 33-91.
Martins, Ana Maria. 1994. Clíticos na História do Português, Dissertação de Doutoramento em Linguística Portuguesa apresentada à Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Lisboa, 2 vols.
Pereira, Jorge Augusto Paulo. 2003. Edição e estudo linguístico de um corpus de cartas do séc. XV, dissertação de mestrado em linguística apresentada à Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa.
Silva, Rosa Virgínia Mattos e. 1989. Estruturas trecentistas. Elementos para uma gramática do Português Arcaico, IN-CM, Lisboa.
Silva, Rosa Virgínia Mattos e. 1991. O português arcaico: fonologia, Contexto, S. Paulo / Bahia.
Williams, Edwin B.. 1939. Do latim ao português. Fonologia e morfologia históricas da língua portuguesa, 7ª edição da tradução portuguesa, Tempo Brasileiro, Rio de Janeiro, 2001.

Agosto de 2004
Jorge Augusto Paulo Pereira


[1] Quero agradecer à professora Teresa Brocardo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, por ter lido o rascunho deste artigo e feito observações críticas preciosas. Contudo, todos os erros que este artigo possa apresentar são da minha exclusiva responsabilidade.
[2] Dias (1982:XIV): “O apógrafo, sem data, é atribuível paleograficamente aos finais do século XVI ou começos do XVII. Porém, sabendo que o convento de Scala Coeli foi inaugurado em 1598 e que D. Teotónio – fundador da casa e doador do manuscrito – morreu em 1602, situamos a sua produção nos finais da centúria de Quinhentos”.
[3] Esta data corresponde à que se encontra em Cepeda (1995:191). Dias (1982:XIII) tem outra datação para este manuscrito: “Um monge cartuxo que, no século XVII, fez uma cópia do códice, descreve-o (...)”.
[4] Mesmo no caso de haver trocas, ou seja, palavras etimologicamente [õ] aparecerem grafadas <ã> e vice-versa, trata-se da manutenção daquilo que o copista pensaria ser a grafia correcta das antigas terminações nasais.
[5] Também aparece mantaes por mantenhaes, que parece ser um simples erro do copista. Esta forma será considerada, uma vez que se trata de um simples erro, não tendo sequer o hiato sido afectado.