Função da água nas religiões


A função da água nas religiões

A água é, e sempre foi, um bem essencial à vida. Tanto à vida em geral, como à vida humana em particular. Para além deste facto irrenunciável, e mesmo decorrente dele, a água assumiu sempre um conjunto de funções na vida pessoal e comunitária que a tornaram um bem material cujo sentido ultrapassou largamente a sua função primeira e imediata. Tornou-se, por isso, um elemento simbólico extremamente relevante desde a mais remota antiguidade.
No contexto do fenómeno religioso, as águas são um símbolo praticamente universal. Representam, em primeiro lugar, a fonte e a origem de todas as coisas, a matriz de todas as possibilidades de existência[1], os fundamentos do mundo inteiro, o elemento que permite a longevidade, o princípio de toda a cura e a bebida da imortalidade. A água é, pois, a substância primordial, da qual nascem todas as formas e para a qual regressam no final da sua existência. As águas são eternas e eternamente criadoras. Assim sendo, o movimento de imersão e emersão das águas significa a regeneração total, um novo nascimento, uma recriação do sujeito. O banho na água potencia a força vital e criadora do sujeito. Através do ritual iniciático, ela provoca um novo nascimento; através de um ritual mágico, ela cura; através de rituais funerários, ela assegura o renascimento do defunto. Daqui decorre que a água é o símbolo da vida (a “água viva”), fecundando a terra, os animais, a mulher. Na língua suméria, por exemplo, a palavra a significava “água”, mas também “esperma” e “geração”. Na ilha Wakuta, um mito conta que uma rapariga perdeu a virgindade ao deixar que a água lhe tocasse o corpo. Entre os Índios Pima, do Novo México, um mito refere que uma bela mulher foi fecundada por uma gota de água caída de uma nuvem.
Muitas são as cosmogonias[2] aquáticas na história das religiões. Da água, fonte de toda a vida, deriva todo o cosmos. Na mitologia indiana popularizou-se o mito das águas primordiais (as águas originais de onde tudo proveio). Também na Babilónia há narrativas a descrever o caos aquático, o oceano primordial. Desta civilização, passou directamente para a Bíblia: o livro do Génesis, o primeiro livro da Bíblia, abre imediatamente com a descrição deste oceano primordial, onde pairava o espírito de Deus: “No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo e o espírito de Deus movia-se sobre a superfície das águas” (Gen 1, 1-2).
Igualmente abundantes são as narrativas que fazem derivar da água o ser humano ou uma raça particular. Na costa sul de Java, por exemplo, encontra-se um “mar de crianças”. Os Índios Karaja do Brasil, lembram-se do tempo mítico em que se encontravam ainda na água. Em Oxford, é conhecida uma fonte (Child’s Well) capaz de tornar fecunda uma mulher estéril.
A água é o símbolo medicinal por excelência. Ela cura, rejuvenesce, assegura a vida eterna. Na “água viva” reside a vida, o vigor, a eternidade. Esta água não está acessível a todos. Só a conseguem obter, os que se submetem a provas e as ultrapassam com sucesso. O rio da água da vida encontra-se junto ao trono de Deus, de acordo com o texto do Apocalipse[3]: “O anjo mostrou-me o rio da água da vida, resplandecente como cristal, que saía do trono de Deus” (Ap 22, 1). Ainda nos nossos dias, na Cornualha, as crianças doentes são mergulhadas três vezes no poço de Saint-Mandron. Em França, o número de fontes e de rios com virtudes curativas é considerável. A “água não começada”, ou seja, a água de um vaso novo, não profanado pelo uso quotidiano, tem nas magias populares um enorme poder curativo, uma vez que representa a água primordial e o seu valor criador. Os actos mágicos repetem a criação original porque projectam tudo no tempo mítico do início, repetindo os gestos da criação primeva.
A imersão na água, simbolizando um processo de purificação do sujeito, tem a mesmo significado: a água dissolve o sujeito e toda a sua história, recriando-o para uma nova vida, sem qualquer sinal do tempo histórico anterior, em que o “pecado” tinha implantado as suas raízes. No plano humano equivale à morte, no plano cósmico equivale ao dilúvio. Aniquilando tudo, a água tem o poder de purificar o sujeito, regenerar o mundo e submeter a totalidade das coisas a um renascimento que tudo limpa. Na Eneida, as abluções[4] purificam do crime (II, 717-720). No Alceste de Eurípides, as abluções purificam da presença nefasta dos mortos. Nas religiões politeístas grega e romana, as abluções tinham um papel essencial: constituíam rituais obrigatórios antes de se entrar nos templos e de se realizarem sacrifícios.
Este simbolismo da imersão nas águas, que já se praticava também nos movimentos baptistas judaicos do tempo de Jesus (veja-se, por exemplo o movimento de João, o Baptista), é assumido pelo próprio Jesus e pelo cristianismo após a sua morte. O baptismo de João Baptista procurava o perdão dos pecados, num contexto histórico em que se esperava o fim do mundo iminente. No cristianismo, o baptismo tornou-se o sacramento[5] da principal regeneração espiritual, simbolizando a morte e sepultura de Cristo (Rm 6, 3ss). No baptismo, o cristão transforma-se em “outro Cristo”, revivendo o seu destino trágico e tornando-o capaz de assumir também o seu destino glorioso (a ressurreição). A emersão da água é, por isso, tão importante como a imersão. O homem velho morre nas águas, dando origem a um homem novo.
O uso funerário da água tem o mesmo significado: as águas “saciam a sede do morto”, dissolvem-no, aniquilam-no, abolindo definitivamente a sua condição humana, decadente e sofredora. A morte não é entendida como uma extinção total do sujeito. Depois da morte, ele vai habitar a zona inferior (“Inferno”, “Hades”), numa existência degradada, como sombra sem consistência. Na expectativa de retorno ao cosmos (reencarnação) ou de libertação definitiva, o morto sofre e este sofrimento exprime-se através da sede. Em Lc 16, 24, o rico, mergulhado nas chamas do Inferno, suplica a Abraão que tenha piedade dele e lhe mande Lázaro para lhe refrescar a língua com água. A convicção de que os mortos tinham sede aterrorizou, em particular, os povos ameaçados pelo calor (gregos, mesopotâmicos, sírios, palestinos, etc.). A libertação dos mortos era vista como um refrigério, enquanto que os povos nórdicos representavam a sofrimento post mortem exactamente da maneira oposta: o frio, a geada… As libações dos mortos pretendem retirar-lhes o sofrimento a que estão sujeitos, dissolvendo-os inteiramente na água, extinguindo a sua condição degradada e permitindo, deste modo, um novo nascimento.
Este valor simbólico da água veio a repercutir-se em numerosos cultos e ritos concentrados em fontes, rios e ribeiras. Os cursos de água são elementos sagrados, nos quais o transcendente se revela. A água corre, por isso é viva; inspira, cura e profetiza. Junto a cursos de água foram encontrados objectos de culto que manifestam esta crença do homem desde períodos muito recuados da história. Na Grécia antiga, por exemplo, Homero conhecia o culto dos rios: sacrificavam-se animais ao Escamandro e às nascentes do Esperqueios. Outros povos tinham este tipo de culto (Francos, Germanos, Eslavos, Massai, Baganda, etc.). As Ninfas são divindades que habitam em todas as águas correntes, em todas as fontes e nascentes. As mais célebres são as irmãs de Tétis, as Nereides, ou como lhes chama Hesíodo (Teogonia, v. 364), as Oceanides. Mas acima de todas estas divindades menores, encontra-se Poséidon. O mar enfurecido perde as suas características femininas e adquire um perfil masculino. Poséidon é o deus dos mares, tem o seu palácio no fundo do oceano e o seu símbolo é o tridente. Ele é desagradável, selvagem e mau, ou seja, é anterior a qualquer moral uma vez que representa o poder original, anterior a todas as coisas. O cristianismo desenvolverá duas atitudes diferentes e contrapostas em relação a estes cultos: a proibição, muitas vezes infrutífera, destas manifestações religiosas e a sua “cristianização”, através da atribuição de um significado tipicamente cristão.
As tradições que referem dilúvios estão ligadas à ideia da dissolução do mundo e da humanidade como ponto de partida para a sua recriação, dando início a uma nova época e a uma nova humanidade. As águas precedem toda a criação e reabsorvem-na periodicamente a fim de a purificarem. O dilúvio acontece nos vários mitos por causa do “pecado” da humanidade, embora nem sempre esse pecado seja de origem ético-moral, tem muitas vezes a ver com uma falta ritual. Se não acontecessem os dilúvios periódicos, a humanidade, devido à sua fraqueza e à sua debilidade, desmoronar-se-ia no abismo das suas faltas e enfraqueceria até cair na mais esgotante esterilidade. O dilúvio é, assim, o garante da renovação da humanidade, atribuindo-lhe ciclicamente o vigor e a força anímica que a faz prosseguir.
Na Bíblia, assiste-se a uma certa ruptura com este modo de pensar. A cultura hebraica é avessa ao pensamento cíclico, por isso representa apenas um único acontecimento diluviano. Deus acaba por se arrepender da sua acção destruidora e estabelece com Noé e a sua família uma aliança que será eterna: “Deus disse a Noé e aos seus filhos: Vou estabelecer uma aliança convosco (…): não mais criatura alguma será exterminada pelas águas do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a terra” (Gen 9, 8-11). Em continuidade com este pensamento, o Novo Testamento atribui à morte de Cristo, como evento salvífico primordial, esta função purificadora, que redime definitivamente o coração humano, associando-o simbolicamente ao seu percurso existencial através do ritual baptismal.

Jorge Paulo


[1] Cf. ELIADE Mircea (1992). Tratado de história das religiões. Edições Asa. Porto.
[2] Uma cosmogonia é uma narrativa mítica que pretende explicar a origem do universo e o seu processo de criação.
[3] Último livro da Bíblia cristã.
[4] A ablução consiste no ritual da lavagem de partes do corpo.
[5] Signo religioso e ritual cujo significado se realiza pela acção do poder divino.