Educação e Valores


A educação é uma responsabilidade de carácter permanente e imprescindível ao pleno desenvolvimento humano e ao bem-estar das sociedades de qualquer tempo ou lugar. Mas nem sempre é entendida na sua complexidade. Há, por vezes, a tendência para confundir educação com instrução. Instruir é transmitir conteúdos, certamente úteis, nas várias áreas do saber, desde as artes, até às ciências. No entanto, estamos ainda dentro de uma concepção da educação apenas como transmissão (o aluno é aqui entendido como mero destinatário, sujeito passivo cuja intervenção se fixa apenas na absorção de conhecimentos que deve depois transpor para os instrumentos de avaliação) e circunscrita às áreas do saber objectiváveis (a educação para valores é, nesta abordagem, excluída do contexto educativo).
Na verdade, as sucessivas reformas do sistema educativo têm procurado perspectivar a educação em moldes diferentes abrangendo outras vertentes de ensino-aprendizagem que não apenas a da transmissão de conteúdos. Isso não significa que esta dimensão tenha sido removida do acto educativo, mas sim que veio a ser enriquecida com as outras dimensões do ensinar, do aprender, do fazer e do ser.

1.      A dimensão do conhecimento

Uma das vertentes do actual sistema educativo é a que considera que a educação deve capacitar os alunos para competências nas várias áreas do saber e nos vários contextos que a vida quotidiana proporciona na sociedade do conhecimento em que estamos inseridos e onde vamos progredindo em conjunto. Tal perspectiva não se coaduna com a simples transmissão de conhecimentos, embora a pressuponha. Os alunos têm agora que ser sujeitos activos do processo ensino-aprendizagem, uma vez que só fazendo se aprende a fazer, ou seja, só pondo em prática determinados procedimentos se podem adquirir competências que o capacitem o aluno não apenas para reproduzir em contexto de avaliação o que aprendeu até então, mas para responder aos vários desafios que a vida quotidiana e profissional hoje impõe, bem como para estar preparado e disponível para ser um cidadão europeu activo e em aprendizagem constante, consciente da sua pertença a um mundo onde a responsabilidade civil é de todos. Isto requer, uma diferente perspectiva da educação, com as consequentes alterações de metodologias, processos e instrumentos de ensino-aprendizagem que devem atender aos vários tipos de alunos, de contextos e de participação dos diversos parceiros da comunidade educativa.

2.      A dimensão artística e cultural

Outra vertente desta realidade é a que considera a educação como um processo que pretende atingir a globalidade do indivíduo, em toda a sua complexidade.
Na verdade, as capacidades intelectuais do aluno, não podem ser dissociadas da sua dimensão psíquica e das muitas potencialidades que o ser humano pode desenvolver, como a dimensão artística, cultural, lúdica, etc. Actualmente o nosso ensino, embora com alguma consciência destes importantes aspectos, continua a privilegiar a vertente intelectual em detrimento das outras; por exemplo, basta ver a posição para que é relegada a educação musical e também, em certa medida, a educação visual e tecnológica, sendo que a música e as expressões plásticas são formas de linguagem de vocação eterna e universal pois não têm separações no tempo, nem fronteiras geopolíticas
Sistemas educativos de outros países, particularmente os de outros Estados Membros da União Europeia (sobretudo os do Norte) são mais sensíveis a esta dimensão e reflectem essa abordagem no desenho dos currículos dos seus vários níveis de ensino.
O mesmo se passa com o ensino da expressão corporal (ginástica, dança, educação física, etc.) Aspecto fundamental para o crescimento harmonioso e para o bem-estar físico e psíquico do aluno.

3.      Valores ético-morais

Há ainda outra área na educação que diz respeito aos valores ético-morais, esta então, particularmente secundarizada nas várias reformas do sistema educativo português.
No entanto, a dimensão ético-moral é inerente ao ser humano pois quando nos conduzimos na vida, fazemo-lo apoiados num universo de valores que constituem balizas que nos orientam e facultam um padrão de comportamento ou, se preferirmos, uma estabilidade na nossa relação com os outros, connosco próprios e com o mundo.
Será esta área menos importante do que as outras? Parece que não, bem pelo contrário, ela é determinante no sentido da promoção da felicidade humana e do contributo para o equilíbrio social, e à escala mundial, para a construção da paz e de um sistema ecológico equilibrado. De facto, os nossos progenitores, ou os seus substitutos, investem uma boa parte do seu tempo nesta tarefa, cujos resultados só a médio ou longo prazo são perceptíveis. Quando tal não acontece, o comportamento dos indivíduos sujeitos a um crescimento sem balizas, através das quais possam formar a sua hierarquia de valores, é perfeitamente reconhecível em quase todos os contextos sociais pois afecta não apenas a felicidade do indivíduo como a de quantos a nível familiar, profissional ou social, se relacionam com ele. Qualquer educador treinado para observar a conduta dos que lhe são confiados reconhece comportamentos anti-sociais, reveladores da ausência de uma educação orientada por valores. É evidente que as pessoas estão sujeitas a diferentes contextos e quando esta função reguladora não é assumida por um determinado contexto, na maior parte dos casos basta que outros possam assumi-la para que o indivíduo cresça e se integre minimamente na sociedade onde vive. Quando tal não acontece, estamos perante a marginalidade pura e simples com as decorrentes consequências para o indivíduo e a sociedade.
Assim sendo, a educação para valores é uma tarefa inadiável cuja primeira responsabilidade cabe à família. Mas, isso não significa que a escola não esteja também obrigada a fazê-lo. Na realidade, os alunos passam uma significativa parte do seu tempo na escola e se esta o não fizesse, estaria a negar a responsabilidade social, inerente à actual perspectiva de garantir ao aluno a educação integral a que ele tem direito.
Se entendermos que a educação para valores se faz mais através de comportamentos e da orientação das crianças no mundo do que através de teorias, então a escola sempre assumiu essa missão, embora tal não fosse reconhecido pelos currículos oficiais. Um aspecto que levava a que assim fosse, era o facto de haver um largo consenso, na sociedade, sobre os valores a veicular e a respeitar. Numa sociedade democrática e necessariamente aberta, tal consenso deixou de existir! Este é talvez o calcanhar de Aquiles da democracia. Reforçando a liberdade dos indivíduos, reduz a um mínimo o conjunto de “obrigações” a que estes estão sujeitos e isso implica que aquilo que para uns é falta de respeito, para outros é simplesmente a manifestação da liberdade do sujeito num contexto em que tal liberdade lhe não pode ser negada.
Urge, por isso, um equilíbrio e novos consensos. Mas agora que está a decorrer o Ano Europeu da Educação para a Cidadania, proclamado pelo Conselho da Europa, e que a educação para valores é assumida oficialmente pelo currículo, através de uma área transversal (Educação para a Cidadania), através de uma área curricular não disciplinar (Formação Cívica) e ainda através de um conjunto de disciplinas opcionais, orientadas religiosamente, é propício o momento para reflectirmos sobre um conjunto mínimo de valores ético-morais que devem orientar a educação de uma criança ou de um jovem, numa sociedade felizmente aberta e democrática.

Jorge Paulo