terça-feira, 13 de junho de 2017

Algumas questões ambientais

A ascensão de Trump à presidência dos EUA veio colocar na ordem do dia a questão ambiental. Infelizmente, pelos piores motivos. Os EUA, um dos maiores poluidores do mundo, declararam, pela voz do seu presidente, a intenção de romper com o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas. Os motivos são conhecidos: os interesses das grandes companhias petrolíferas, que dominam a economia americana. É de novo o lucro a ofuscar o pensamento e a ação política, pondo em causa os interesses do planeta em que vivemos (e, de acordo com os conhecimento atuais, o único em que podemos viver) e, consequentemente, os interesses da própria humanidade. Em nome de um suposto bem-estar, inteiramente dependente das piores pulsões que se aninham no coração humano, a geração atual nem pestaneja quando toma decisões que hão de hipotecar o destino das gerações futuras. Mais uma vez, as decisões não são tomadas tendo em conta uma visão de longo alcance, mas a mesquinhez do aqui e agora que reduz o mundo ao próprio quintal e a humanidade ao indivíduo e aos seus interesses imediatos.
No seu encontro com Trump, o papa, num gesto profético, ofereceu-lhe um exemplar da excelente encíclica que escrevera sobre o ambiente (Laudato si’). Não era expectável que isso demovesse um homem como Trump, cujas ideias fixas são impermeáveis aos conselhos de gente avisada. Declarou posteriormente que iria trabalhar pela efetivação da paz no mundo, de acordo com o que o papa propusera. Mas como é possível a paz num mundo fustigado por profundas alterações climáticas que impõem secas severas em determinadas regiões do planeta enquanto temporais sucessivos inundam outras, provocando mortes e estragos profundos no tecido económico? Os conflitos derivados da falta de água, as deslocações de inteiras populações por causa da escassez de bens essenciais, a condenação à morte de milhares de seres humanos devido a tais catástrofes não fazem prever que o caminho da paz seja possível. Não basta resolver conflitos de origem política para que o mundo viva em paz. Novos conflitos, agora derivados de cataclismos ambientais, surgirão se não cuidarmos atempadamente das causas a montante.
Felizmente, nem tudo são más notícias. Alguns estados dos EUA vieram tomar posição nesta contenda, opondo-se à estreita visão da presidência federal (como os tribunais o haviam feito na questão da imigração). Na verdade, há toda uma indústria que se foi desenvolvendo em torno das energias renováveis e a aposta na produção de energia a partir destas fontes alia interesses económicos a sustentabilidade do planeta. É um dos muitos casos em que o desenvolvimento económico não se opõe à natureza. Bem pelo contrário: direciona os seus objetivos para a preservação do sistema-Terra ao mesmo tempo que promove novas formas de emprego, novas aplicações tecnológicas derivadas de investigação científica de ponta e riqueza económica, sem beliscar o equilíbrio instável em que a vida se desenvolve e reproduz.
Só uma educação persistente ― que inclua os planos ético, estético e ecológico ― podem fazer a diferença. Só uma opinião pública ciente dos problemas que afetam a humanidade pode servir de contrapeso, em sociedades abertas e democráticas, a interesses obscuros que a classe política poderá ousar defender em determinadas circunstâncias.

Um dos tópicos que considero mais relevantes na questão ambiental é de natureza antropológica. Com o advento da chamada “civilização”, o ser humano afastou-se decisivamente da natureza, abandonando a consciência de pertença ao meio natural. Do ponto de vista antropológico, concebeu-se cada vez mais como sujeito distinto do mundo, ou até mesmo dele separado. O mundo natural não é já o meio necessário à sobrevivência da humanidade, mas um adversário que é preciso domar, dominar e submeter. A humanidade lança-se, sem dó nem piedade, à conquista dos elementos naturais, sujeitando-os às suas necessidades reais ou imaginárias ou até mesmo aos seus caprichos. Neste contexto cultural, a natureza não é já a grande aliada do ser humano, mas a que se opõe aos seus desígnios. Dominar a natureza, submetê-la ao poder humano, possuí-la até à medula, consumindo todo o seu potencial, são as grandes tarefas que a humanidade dita civilizada quer levar a bom porto. As consequências são devastadoras, tanto nas sociedades capitalistas ― no seio das quais o valor supremo não é a vida (humana ou não humana), mas o lucro, o ganho, a acumulação desmesurada e galopante de bens e valores económico-financeiros ―, como nas sociedades ditas socialistas, onde o sucesso económico se sobrepôs inelutavelmente à preservação do ambiente e, consequentemente, da vida humana.
Contudo, por mais que pretenda uma total autonomia em relação ao ambiente natural, o ser humano é um ser da e na natureza, necessariamente dependente dela, como todos os outros elementos que a compõem. A destruição do meio natural, levada a cabo pela avidez desmedida, revelou-se uma ameaça também para a sobrevivência da espécie humana. Se a natureza sucumbir às mãos da insanidade humana, arrastará consigo inevitavelmente a própria humanidade.
Impõe-se, por isso, um outro paradigma ético, antropológico e ambiental. Na verdade, o que são os elementos naturais? Serão apenas objetos que estão à disposição da vontade e dos caprichos humanos? Serão adversários que é preciso dominar? Serão meros recursos económicos que o ser humano usa para benefício do seu bem-estar material imediato? De acordo com os novos paradigmas filosóficos e ambientais, os elementos naturais devem ser percecionados como outro “eu”, como sujeitos e não objetos, como entidades com dignidade e valor. Os pássaros, os animais selvagens ou domésticos, mas também as florestas, os rios ou as montanhas são nossos irmãos[1]. A eles pertencemos como eles a nós pertencem. Com eles partilhamos o mesmo espaço vital. E é por isso que não são os interesses do ser humano que devem ser preservados em primeiro lugar, mas os interesses do todo, da totalidade do sistema-Terra.
Tal visão do mundo pressupõe uma reviravolta na forma de nos relacionarmos com todas as entidades que partilham connosco o mesmo planeta (e o mesmo universo). A cultura ocidental, de matriz cristã, via no outro que partilhava com ele a mesma natureza humana o seu próximo. De acordo com o evangelho de Lucas (10,29-37), Jesus terá contado a “parábola do bom samaritano” para explicar aos frios e empedernidos religiosos da época quem era, na sua perspetiva, o próximo de cada ser humano. Se os doutores da Lei impunham grandes restrições ao conceito de próximo (próximo seriam apenas os que pertencem ao mesmo povo, à mesma religião ou ao grupo dos que cumprem a Lei), Jesus vem alargar a todo o ser humano, independentemente da sua etnia, religião ou grupo social, a obrigação humana e religiosa de auxiliar quem necessita de ajuda. Foi, sem dúvida, um salto civilizacional incomensurável, no sentido do desenvolvimento de sociedades humanistas. Porém, no novo paradigma que agora se propõe, há que alargar ainda esta perspetiva, acolhendo como próximo todas as entidades, humanas e não humanas, que connosco constituem o mundo natural. O meu próximo é o animal ao qual roubámos o habitat, condenando-o à extinção. O meu próximo é o animal doméstico que eu abandonei. O meu próximo é o rio que outrora corria límpido e cristalino e agora tem as águas infestadas de dejetos, descargas tóxicas e lixo. Ao mesmo tempo que lutamos por uma vida digna para todos os seres humanos, não podemos esquecer que também os não humanos são dotados de dignidade. A sua vida é uma dádiva estética para o olhar maravilhado de todo o ser humano, é um valor ético que se impõe a toda a consciência bem formada.
Este novo paradigma constitui uma reaproximação às formas de pensar que, até há bem pouco tempo, numa atitude arrogante de supremacia cultural, considerávamos “primitivas”. De facto, na grande maioria das chamadas religiões primevas vigorava a crença segundo a qual não apenas o ser humano era dotado de “alma” ou “espírito”, mas também os animais, as plantas e até mesmo os “objetos inanimados” (pedras, montanhas, etc.). Tudo o que existe pertence simultaneamente ao mundo material e ao mundo espiritual. Não há, portanto, nesta ordem de pensamento, a divisão entre mundo meramente físico e mundo espiritual. A crença animista eleva todos os elementos da natureza à dignidade que só ao ser humano é reconhecida (infelizmente, nem sempre) no mundo tecnologicamente avançado.
O segundo tópico, de fundamental importância no que se refere à preservação da floresta e do ambiente, é o fenómeno da explosão demográfica que ocorreu a partir do início do século XIX. Durante milénios, o número de seres humanos variou entre cerca de 200 milhões e 1.000 milhões. Porém, o crescimento exponencial da humanidade, que se gerou a partir da revolução industrial (hoje somos mais de sete mil milhões), pôs em causa o equilíbrio ambiental. Por um lado, há que responder às necessidades alimentares de todos os seres humanos, o que exige níveis de produção agrícola e pecuária massivos, com a consequente desflorestação e aumento da poluição; por outro lado, as necessidades dos seres humanos têm vindo a alargar-se a bens e serviços que estão muito para lá das chamadas necessidades básicas. Se todos os seres humanos seguissem os mesmos padrões de consumo do mundo ocidental, precisaríamos de vários planetas para responder a todas as supostas necessidades. A par de uma educação para a frugalidade, é, pois, fundamental desenvolver políticas de contenção demográfica. E a única política eficaz e consentânea com os direitos dos cidadãos é a que resulta do investimento na educação. É um facto indiscutível que quanto maior forem os níveis educacionais das populações, tanto menor é a taxa de natalidade. Assim, o equilíbrio ecológico do planeta depende, em larga medida, do incremento da educação no mundo.
Um terceiro tópico prende-se com os incêndios florestais. O fogo é um fenómeno que sempre acompanhou a existência do planeta e a vida humana. Mas a intervenção do ser humano na reorganização das florestas (por exemplo, as monoculturas), aliada ao recente aumento da temperatura global, veio criar condições propícias para a existência de calamidades ambientais (e também económicas e humanas) derivadas da devastação das florestas pelos fogos.
Uma vez que o fogo não vai jamais deixar de existir ― e não seria sequer conveniente ou vantajoso que tal acontecesse ―, só há uma maneira de debelar os calamitosos incêndios: aprender a utilizá-lo através de soluções inteligentes já amplamente testadas. Os fogos controlados limpam as florestas do combustível essencial à proliferação de grandes incêndios, mantendo-as assim a salvo de toda a devastação funesta.
Em Portugal, as proporções dos incêndios são bem maiores do que no resto da Europa do sul. Não porque tenhamos mais incendiários… Na verdade, embora 90% dos nossos incêndios tenham mão humana, apenas 3% têm origem criminosa. Os restantes 87% decorrem de atitudes de desleixo, incúria e ignorância. Assim sendo, só a formação das consciências pode conduzir a alterações significativas nos perigosos comportamentos humanos e, consequentemente, à diminuição dos incêndios florestais.
O quarto e último tópico que me apraz referir é o da aliança entre economia, emprego e sustentabilidade ambiental. Habituados que estamos a encarar os interesses económicos em oposição aos interesses ambientais, é-nos difícil percecionarmos uma relação profícua entre os dois planos.
No início deste texto, referi o atual investimento nas energias renováveis e como tal investimento é útil ao desenvolvimento económico de uma dada região (e à consequente promoção de emprego), mas também à sustentabilidade ambiental. Quanto maior for a produção energética a partir de energias renováveis, menos necessária será a queima de combustíveis fósseis para a produção de energia. É certo que se perdem negócios, lucros e empregos na área dos combustíveis fósseis, mas tal perda poderá ser compensada com os ganhos que as novas formas de produção de energia poderão trazer.
Uma outra forma de aliar estas duas dimensões, geralmente em conflito, é o desenvolvimento da indústria corticeira. 35% do território nacional é ocupado por floresta e o sobreiro é a nossa segunda maior espécie. O povoamento de sobreiros ― o montado ― é altamente resistente ao fogo e um ecossistema importante na preservação do solo, na qualidade da água e na produção de oxigénio, bem como na preservação de uma rica biodiversidade. No montado convivem serenamente interesses económicos, ambientais e estéticos, uma vez que a sua beleza natural é procurada também para fins turísticos.
Mas a principal fonte de receitas advém da cortiça (a casca do sobreiro). Desde logo, oferece empregos rurais (embora sazonais) bastante bem remunerados, uma vez que a extração da cortiça do sobreiro é manual (não mecanizada). Mas a indústria corticeira, para além de promover o emprego, proporciona lucros avultados, sobretudo por causa do enorme volume de exportação de produtos cuja matéria-prima é a cortiça. E se há alguns anos atrás tais produtos se resumiam praticamente a rolhas e corticite para o chão ou outras superfícies habitacionais, atualmente produz-se uma multiplicidade de artefactos que ultrapassam largamente os usos tradicionais, promovendo também empregos qualificados nas áreas do design. Neste domínio, temos novamente a economia aliada à estética. Hoje não é raro ver produtos de alto valor estético produzidos a partir da cortiça: sapatos, malas, estojos, molduras, canetas, fios, anéis, gargantilhas, pulseiras, brincos, chapéus, cintos, carteiras, sacos, chapéus de chuva, móveis e tantos outros produtos. Trata-se de um caso de feliz aliança entre interesse económico e preservação ambiental, fomentando deste modo uma economia sustentável.
Que fazer então para fomentar nos homens e mulheres que moram connosco nesta casa comum que é a Terra? Só a educação pode trazer consigo resultados duradouros porque incide sobre os sistemas de crenças, os valores assumidos e os comportamentos que daí decorrem.





[1] Cf. “Carta do chefe Seattle” e “Cântico das Criaturas” de s. Francisco de Assis.