domingo, 14 de maio de 2017

Fátima e o papa Francisco

Francisco é, de facto, um renovador. E a sua ação reformista cumpre-se por meio de palavras ousadas, mas também através de gestos inusitados que decide realizar, contra ventos e marés. Neste sentido, é realmente um profeta, no verdadeiro sentido do termo. Um dos poucos homens do sistema que se comporta como tal. De um modo geral, o profeta encaixa-se mal nos sistemas de valores vigentes. É uma espécie de desmancha-prazeres, um crítico obstinado que não para de zurzir, com o látego das suas palavras e gestos, pessoas e sistemas demasiado instalados ou descarnados de vitalidade. Recusa curvar-se e submeter-se aos seus ditames seculares e anacrónicos, cujo sentido o tempo deliu. Prefere, antes, que um espírito transcendente, cujo eco se faz sentir no seu coração sedento, lhe segrede palavras, comportamentos e modos de ser que não deixarão de incomodar os paladinos da imobilidade social, cultural, religiosa ou pessoal. O profeta esgaravata no terreno da acomodação que tendemos a construir, para nossa suposta segurança. Perturba a nossa indolência preguiçosa. Rejeita a inércia e desassossega os instalados.
É assim Francisco. Logo desde o primeiro momento em que foi eleito papa. Não esperaríamos que fosse diferente agora que veio a Fátima. E se aqui canonizou as duas crianças que a morte prematura levou, não canonizou, decerto, todo o conteúdo, em parte obsoleto, da chamada “mensagem de Fátima”, tal como se encontra vertida nas “Memórias” da irmã Lúcia.
As visões e os segredos que esta mulher nos foi desvendando, inscrevem-se, em larga medida, na religião do medo, que a Igreja assumia nas suas catequeses e homilias. Sobre a pequenez desprotegida do ser humano, um deus parece rejubilar com o sofrimento e entregar, sem dó nem piedade, o pobre pecador ao pavor de um inferno cujas imagens Lúcia pintou, nas páginas que escreveu, como se fossem a mais estrita descrição de um quadro de Bosh.
Francisco está, pelo contrário, em sintonia com o Evangelho, nos antípodas deste tipo de religiosidade que elege o pecado, a culpa e o castigo como conceitos centrais na pobreza humana da sua teologia.
Para Francisco, Deus é essencialmente amor e misericórdia. A sua vontade benigna de acolher o pecador, por mais distante que esteja, é infinita. Nada há que fique fora da sua ação benevolente. E assim sendo, Francisco pede que nos empenhemos na “revolução” que a misericórdia e o perdão introduzem na nossa maneira de nos relacionarmos com Deus e com os outros. Somos chamados a ser sinais da “misericórdia de Deus, que perdoa sempre, perdoa tudo”. E a revolução da nossa forma de pensar, a conversão da nossa mente, é convidada instantemente a rejeitar o medo e o temor e a abraçar, sem rodeios nem subterfúgios, a força irrecusável da ternura e do carinho. E o papa sublinha ainda que a “humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes”. A lógica do Evangelho é o oposto da lógica do poder, da força bruta e da prepotência. É o triunfo da humilde condição de provedor dos outros. Daqui deriva que, nos mais diversos momentos da vida, cada um é convocado a “antepor a misericórdia ao julgamento”. “Em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”. Francisco recupera o tema fundamental do seu pontificado, pois é nele que vê espelhar-se o melhor que o Evangelho de Cristo veio trazer ao mundo.
Mas o papa não se fica por aqui. Interpela a consciência de todos os romeiros que se encaminham para Fátima, algumas vezes sob o impulso de motivações desprovidas de sentido. Defende, portanto, que Maria é bendita porque acreditou nas promessas de Deus e a ele se entregou inteiramente e não porque seja “a santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”. Uma clara crítica à religiosidade das promessas, alicerçada numa relação comercial com o divino, como se Deus se dispusesse a negociar connosco o nosso próprio bem e não estivesse, desde sempre, empenhado na nossa salvação. Não faz sentido que a relação do crente com Deus se funde numa mera troca comercial de bens. Deus é o senhor de tudo. Que lhe poderíamos nós oferecer que não fosse já dele? Deus ama-nos desde toda a eternidade. Como nos atrevemos, pois, a considerar que lhe podemos comprar, a baixo preço, algum favor especial? Na verdade, aquilo que ele tem para nos oferecer não tem preço. E apenas porque é pura dádiva, estará ao nosso alcance. Por outro lado, de que precisaria Deus para ser mais do que já é realmente? A única oferta que Deus espera de nós é a oferta de cada um em prol de todos os seus semelhantes. A única oferta que Deus espera de nós é a decisão de amar os outros como nos amamos a nós mesmos. E neste ponto, Francisco não se cansou de referir a urgência de negarmos a indiferença do olhar e encontrarmos no bem dos outros a nossa própria realização pessoal. “Cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente”, “os excluídos e abandonados a quem negam o futuro”, exigem uma “mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”. E conclui: “a vida sobrevive com a generosidade de outra vida”. Por isso, rezar a Deus é procurar que a humanidade escute as nossas súplicas e que não fique indiferente às privações que diante de Deus desfiamos. Cada ser humano é uma acendalha de esperança para os outros.
Também o papel de Maria terá de ser reconsiderado. O excessivo centralismo mariano do catolicismo deverá ceder o passo a uma visão mais equilibrada, na qual Maria existe em função de Jesus e este em função de Deus. É Cristo que é o centro da fé cristã. Ele é a esperança da humanidade divinizada. E se Maria introduziu os pastores no mar imenso da luz de Deus, foi para o adorarem. O centro da mensagem de Fátima terá, pois, de ser a presença divina na vida de cada crente como fonte de esperança e de coragem para enfrentar as adversidades.
E para todos os que pensam que Deus exige algum tipo de sofrimento voluntário, deliberadamente procurado, o papa refere que não é preciso subir à cruz para encontrar Jesus. Foi ele que se humilhou para nos encontrar. Não estamos sozinhos. Vivemos nele e com ele. Porque por piores que sejamos, não é ele quem nos abandona. Somos nós próprios que o rejeitamos no irmão doente, esquecido ou humilhado.

Por último, Francisco apela a que se descubra “novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”. Que belo programa para a Igreja de Cristo! Depois de décadas de apagamento gradual na sociedade moderna e contemporânea, talvez possamos agora esperar que esta comunidade de pecadores escancare os seus braços não apenas ao que supostamente cumprem leis, ritos e prescrições, mas sobretudo aos que os não cumprem e, ainda assim, ou talvez exatamente por isso, sentem que precisam de um ponto de orientação absoluto ao qual entregar a própria vulnerabilidade. Talvez possamos esperar, sob influência da proposta de Francisco, ver a Igreja virar as costas definitivamente àquele farisaísmo contra o qual Jesus falou e agiu. Assim bispos, padres, religiosos e leigos assumam este lado luminoso da vida que o Evangelho testemunha desde que Jesus o propôs.