segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eleições à beira do abismo

Depois do desastre americano, também a França foi a votos. E esteve por um triz, quase a resvalar para a área tenebrosa da extrema-direita e do seu discurso racista, xenófobo e nacionalista. Há alguns anos, julgava que as nações estavam em vias de extinção. O futuro era o mundo como casa comum de todos os seres humanos. Hoje, sei que ainda não. Se aquilo a que assistimos não for apenas o seu canto de cisne, as nações afirmam-se como autoridades supremas.
Não me interpretem mal. Amo a minha pátria. Gosto de ter nascido no país em que nasci, ainda que lhe veja os defeitos colados ao meu destino. Mas esse fator emocional não me impede de saber que nenhum povo é filho de um deus menor. Sou inteiramente português, mas tal condição não faz de mim menos europeu ou menos cidadão do mundo. Sempre que penso nisto, relembro o poema de António Gedeão:
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
E nesta quintilha está tudo dito. De uma forma tão deslumbrante, que outras palavras apenas ofuscariam a sua luminosa mensagem. Como se pode compaginar tal visão universalista com a mesquinha afirmação do próprio eu ― seja ele pessoal, regional ou nacional ―, como valor supremo a que tudo deve vergar-se?
A globalização trouxe, sem dúvida, problemas à ordem estabelecida. Levou ao enriquecimento de alguns e ao empobrecimento de outros. Talvez tenha sido o Ocidente desenvolvido a sofrer de forma mais significativa o embate da necessária abertura das economias e das culturas e a consequente ascensão de outras civilizações. Mas essa não será razão suficiente para nos trancarmos no nosso egoísmo, enquanto expulsamos do nosso jardim todos os intrusos que não se inscreveram ou não puderam inscrever-se no nosso clube.
Podemos e devemos assegurar a integridade da vida humana nos limites das nossas fronteiras. Porém, não há nenhuma contradição entre esse esforço securitário, sobretudo face ao terrorismo dilacerante, e o reconhecimento efetivo dos direitos daqueles que ― não tendo nascido no espaço confinado das nossas fronteiras ou não partilhando connosco os mesmos valores religiosos ou não ostentando a mesma cor de pele ― têm exatamente a mesma dignidade que nós reivindicamos para os nossos filhos. É esta visão universal da vida humana, humanista até ao limite, que deve presidir, segundo creio, à relação entre pessoas e povos, sob pena de nos despenharmos na barbárie que outrora infestou as nossas sociedades.
Com as eleições em França, todos trememos. O que virá aí depois da saída anunciada do Reino Unido da União Europeia? Se já será penoso tal êxodo, como sobreviverá a União à fuga de uma das nações mais estruturais para o edifício europeu, como é o caso da França? Todos nos lembramos o que era a Europa das nações isoladas. As guerras, os interesses nacionais sobrepostos aos interesses dos povos, a insaciável avidez pelo poder, o egoísmo sem margem para a solidariedade entre cidadãos, entre povos e entre nações… O elenco dos crimes, das catástrofes e das mortes é demasiado extenso para caber em tão poucas linhas. Mas os volumes de historiografia estão repletos dessas narrativas sinistras para que fomos arrastados durante séculos de imaturidade civilizacional.
O medo é o pior conselheiro. Sempre que nos deixamos dominar por este sentimento tão necessário quanto arrasador, transformamo-nos em monstros, prontos a afiar as garras na pedra dos nossos ódios mesquinhos. Infelizmente, Marine Le Pen, com a sua despudorada demagogia, apela a esse fundo irracional que, de um modo geral, mantemos sob guarda nos calabouços da nossa mente. Contudo, despertado o monstro, não há barco que nos faça dobrar o cabo das tormentas. Somos arrastados para o abismo oceânico pela violência dos ventos que libertámos. Quem dera fôssemos realmente poupados a tal experiência abominável!

Parece que desta vez vamos sobreviver. Mas seria bom que os políticos do sistema tirassem as ilações necessárias e desta ameaça assustadora renascesse, autêntico e lúcido, um outro rosto da democracia. A Europa também tem de aprender com a lição. Não é por acaso que muitos franceses já não se sentem assim tão enlevados com a União a que pertencem. Não é por acaso!

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