domingo, 30 de abril de 2017

Amarra-os num saco!

Sábado passado, remexemos nas entranhas da casa da minha infância. Agora que a venda parece apressar-se temos de limpar o espaço de tudo quanto é pessoal e de tudo quanto nos convém guardar. E nesta constante azáfama, demos com objetos que dizem muito acerca das crenças da tia Lucília.
Os nossos antepassados, sobretudo analfabetos (que eram a esmagadora maioria), mantinham crenças ancestrais e, de algum modo, primitivas acerca de uma certa dimensão espiritual da vida. Muitos olhavam com indiferença para as instituições religiosas oficiais. Mas acolhiam acriticamente práticas fetichistas para saírem vencedores de alguma desconsiderada malapata ou para furtar o destino rumo a paragens que o livro da vida não havia registado. A minha tia não embarcava em todas as crendices, mas… pelo sim pelo não… convém não importunarmos os espíritos com o nosso ceticismo. Podem irritar-se pela desconsideração a que os votamos e exercer o seu direito oculto à vingança.
E Deus? Não seria suficiente para derrotar todas as pretensões destes perturbadores da ordem cósmica? Talvez. Se pensarmos um pouco mais profundamente, sem dúvida que sim. A sua omnipotência, a sua omnisciência e a sua bondade infinita garantem o sucesso do bem sobre as emboscadas do mal. Porém, Deus está lá no seu reino eterno, longe das nossas preocupações comezinhas. Pelo contrário, os espíritos (benignos ou malignos), aparentemente, sitiam a nossa existência. Vagueiam pelas ruas onde moramos, pelos becos onde o medo nos assalta, assediam impiedosamente as nossas almas, expostas que estão à fluidez do tempo e à insignificância da própria condição. Deus parece demorar a intervir. Quando o chamamos, raramente nos responde. E quando o faz, é tarde e às más horas. Entretanto já esses paladinos do mal se instalaram no coração da nossa vida tão precária. E o pior é que não nos libertam facilmente. Primeiro, sob a forma de mero receio, motivado por qualquer infortúnio ocorrido. Segundo, sob a veste do medo e, finalmente, sob os grilhões do pânico, gerador de avultada ansiedade. Mesmo que não haja espírito algum que nos possa incomodar, já estamos cativos da imagem deles que para nós engendrámos.
Que fazer então? Enquanto os evangelhos apelam à força da oração contínua, ou seja, à confiança no Deus de misericórdia que nos amou desde toda a eternidade, os nossos medos impelem-nos para os braços dos profissionais do além. Por convicção ou por mera conveniência financeira, tais pessoas cobram, a preço de ouro, as suas inúteis intervenções, visando desfazer a penosa condição a que estamos sujeitos por força desses supostos espíritos mundanos ou de alguém que os usou para nos algemar aos grilhões da morte.
No que me toca, não creio na existência de seres celestes, sejam eles benignos ou malignos, chamemos-lhes anjos, arcanjos, querubins ou demónios, diabos e satanás. Com uma única exceção: Deus. E se nos tempos que correm é já bastante difícil acreditar numa divindade, julgo dever ser ainda mais crer numa multidão de espíritos errantes que parecem não ter mais nada que fazer do que infernizar o juízo aos pobres humanos enquanto percorrem os acidentados trilhos da vida terrena. Mas a mente humana tem destas coisas inexplicáveis. No tempo em que a ciência reduz todas as explicações a causas meramente internas ao mundo, muitos lançam-se nas mãos de vigaristas e charlatães. Querem apenas recuperar a harmonia que perderam. Mas precisamos mesmo de recorrer a seres ultramundanos para explicar essa desarmonia que entretanto se instalou na nossa mente? Creio que nos bastam as tantas dificuldades da vida que a todos, mais cedo ou mais tarde, nos assolam.
Regressemos à perturbadora tarefa de esvaziar a casa da tia Lucília. Digo esvaziar no seu duplo sentido. Também eu saio um pouco mais vazio desta ingrata tarefa. Uma parte do que sou já se afundou com a sua morte. E resgatar aqueles objetos à casa que vamos abandonar é reviver essa perda indescritível. Porém, tudo isto tem de ser feito. Não há como escapar!
De forma sistemática, fomos avançando pelas várias divisões, esquadrinhando gavetas, armários e outros móveis. Quando chegámos à cozinha, abrimos as gavetas da mesa onde partilhámos tantas refeições e passámos a pente fino os vários objetos que lá se achavam. No fundo de uma das gavetas, bem embrulhados, estavam os enferrujados talheres dos meus bisavós. Nunca quis desfazer-se destes artefactos tão antigos quanto inúteis. Já ninguém come com talheres de ferro. Mas naquele embrulho não estavam apenas as facas, os garfos ou as colheres, estava também, e particularmente, a memória dos seus pais.
Parecia que havíamos retirado tudo dessa gaveta. Dei ainda uma vista de olhos pelo fundo sombrio, não tivesse ficado esquecido algum objeto pessoal. E de facto, lá bem no fundo, a um canto quase impercetível, estava ainda um objeto que por mero acaso nos tinha passado despercebido. Retirei-o. Era um pequeno saco de serapilheira amarrado com um atilho específico ao qual estava ligado um pequeno cilindro de madeira com formas esculpidas. Desatei o saquito e verifiquei se tinha alguma coisa lá dentro. Não. Estava vazio. Não tive a menor sombra de dúvida de que se tratava de uma qualquer bruxaria. Talvez o saco atado tivesse dentro, aprisionados, os espíritos que a haviam apoquentado e eu, imprudente como os companheiros de Ulisses, acabei por lhes dar carta de alforria. Não sei ao certo que significado tinha para ela, mas era decerto um sinal do seu respeito (e medo?) por tudo quanto não vemos nem ouvimos mas pode lá estar nesse misterioso mundo onde não nos é dado aceder.

Cá por mim, fico-me pela confiança nesse Deus que dá sentido à vida. Tudo o resto parecem-me simplesmente ficções geradas pelo medo de tudo quanto desconhecemos e nos pode ser hostil. Dir-me-ão que não sou tão radical como deveria, incluindo Deus também no rol de todas essas ficções. Talvez tenham razão. Mas não vejo como pode o universo e a vida humana fazerem sentido sem uma última explicação que não necessite ela própria de qualquer outra explicação.

2 comentários:

  1. Jorge, Parabéns pelo excelente artigo e que Deus esteja contigo e te fortaleça e preencha o vazio que a partida da tia deixou. A presença dela estará sempre contigo, disso não tenho a menor dúvida. Um beijinho

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