sábado, 1 de abril de 2017

«A mancha humana»



Terminei hoje a leitura de uma das obras mais excecionais de toda a literatura que conheço: “A mancha humana” de Philip Roth. Este americano genial escreve com a mesma naturalidade deslumbrante com que se respira. Não há palavras a mais, não há palavras a menos. Tudo quanto escreve já estava gravado, desde sempre, no livro intemporal da vida. Bastava que alguém o revelasse. Por isso, na sua obra, nada sobeja. E de nada carece aquele palco de personagens consistentes, que se confundem com a própria realidade. Uma obra a não perder, para quem queira estar a par do que melhor se escreve no tempo que vivemos.
Eu diria que há um tema omnipresente: a mentira como sossego inquieto, como lenitivo irrecusável para a doença da vida num mundo “sadio” onde a negritude é o asco a evitar, o morbo a recusar.
Não havia grande alternativa de sobrevivência no arco de um tempo em que ser negro era simplesmente não ser, ou ser menor, ou não ter, aos olhos dos outros, a completude necessária dos construtores da história. Por mais inteligente que fosse, por mais nobre que fosse, como o fora o pai do protagonista.
Só havia, portanto, uma alternativa ao desastre de se perder no injusto esquecimento dos povos. Sim, de se perder na vacuidade do que não pode ser tido em conta, do que não existe, ainda que viva e se mova num quotidiano, por vezes heroico. É certo que o pai escolhera essoutro caminho: o da honesta assunção da própria condição de negro, arrostando assim com toda a humilhação que lhe estava colada à pele. Que ganhara ele com isso? Culto como fora, muito para lá da grande maioria dos que ostentavam a cor como privilégio indiscutível, acabara os seus dias a servir à mesa na carruagem-restaurante dos comboios onde se empregara, enquanto lhe bailavam na mente os versos geniais de Shakespeare. Que ganhara então ele?
Não. Não era essa a decisão certa. Se a mentira pairava sobre os valores de uma sociedade caduca (e não há maior mentira do que o preconceito feito carne), na qual o autor de Hamlet definhava enquanto servia à mesa de um comboio suburbano e muitos dos que eram servidos jamais tinham lido uma tragédia grega, quaisquer que fossem os meios usados decerto que estariam justificados. Teria de mentir? Mentiria. Teria de ocultar da mulher e dos filhos a sua verdadeira origem? Fá-lo-ia. Afinal, o que é realmente a verdade? Qual é a natureza específica da mentira? Conquistar com o suor do próprio rosto o lugar a que se tem direito não será mais autêntico e verdadeiro do que propagar a sete ventos, por orgulho ou valentia, a própria negritude?
É a história de uma tragédia humana vivida na América racista e segregacionista, na qual uma franja de cidadãos de pele clara, mas com ascendentes negros, decide renunciar às próprias origens familiares (e até ao contacto com a sua família alargada) para poder usufruir dos benefícios que a inteligência e as aptidões pessoais lhes podem proporcionar.
Parafraseando Martin Luther King, era uma sociedade onde se julgavam as pessoas ― e se distribuíam por gavetas sociais incomunicáveis ― a partir do critério da cor da pele e não da grandeza de caráter, do comportamento e dos méritos efetivos. E foi esta a grande tragédia humana que durante séculos assolou a história da humanidade, mantendo no estado de servidão, total ou parcial, uma fatia significativa de seres humanos. E ainda se não resolveu inteiramente, apesar de se terem dado passos consideráveis no reconhecimento da igualdade fundamental entre todos os seres humanos, independentemente da cor ou da raça.
Mais do que a tragédia pessoal da mentira em que laborou Coleman, o protagonista, este romance é o testemunho da tragédia infame de uma tal sociedade. Ele não é o herói negro típico que se assume portador de direitos, encabeçando, na sua condição efetiva, a luta pelos direitos cívicos, como Luther King fará até que o ódio e o preconceito vilmente o abatam. Coleman é o anti-herói que prefere renunciar a ser o que o nascimento dele fizera, condenando-se à expulsão voluntária do grupo sociorracial a que pertence, por forma a deslocar a fronteira da sua identidade para um terreno onde a coragem dos heróis não é necessária para alcançar o que antes lhe estava vedado.
Também ele terá de pagar um preço elevado. A negação de si mesmo é a negação do berço onde fora plasmado, a rutura com o passado onde se fizera homem e, simultaneamente, a construção da nebulosa relação, despida daquela intimidade que só a verdade pode outorgar, com a família nuclear que se escolhera, inteiramente destituída de passado.
Por último, terá de pagar com a própria vida. De alguma forma, o seu comportamento libertino ameaçara o malsão veterano de guerra que deixara no Vietname a sua sanidade. E assim, este romance é também um grito de revolta face a decisões políticas que tornam a vida de milhares de cidadãos perfeitamente insuportável. Ninguém que tenha passado junto ao ódio devorador da morte poderá sair incólume.
Lester, o veterano do Vietname, vive uma existência sem rumo nem significado. Já se extinguiu nos campos de morte por onde passara. É o seu cadáver que todos os dias se levanta, porque a alma, essa dissipou-a junto aos despojos, no inferno asiático para onde o governo o empurrara. E é assim que salpica de morte tudo quanto toca. Lester está para lá do bem e do mal. Só quem vive pode ter padrões éticos ou balizas morais. Lester morreu algures no passado e aí deixou esses limites a que a consciência outrora o obrigara. O que sobra agora é a secura mortal que o deserto da vida lhe serve, indiferente ao sofrimento. E quando este se ergue acima do suportável, o espetro ambulante desse homem esboroa-se numa espécie de serena insanidade que tudo arrasta para o fundo do precipício. E foi assim que Coleman e a sua amante sucumbiram às intrigas do desespero letal.
E novamente é obrigatório perguntarmo-nos o que é a verdade. Essa interrogação eterna cuja resposta cabal não está de modo algum ao nosso alcance. Mas podemos entrever, no meio do bulício das palavras enfadonhas, desertas ou mesmo difamatórias, um minúsculo atalho para o rosto disso a que chamamos verdade. Decerto lhe não descobriremos o corpo inteiro. Mas pequenas franjas do manto cerrado da noite hão de pender perante os nossos olhos.
A morte do protagonista é ensombrada por calúnias e vil difamação. Só o seu amigo sabe a verdade dos factos. Não que esteja nele a posse das provas ou que se veja na iminência de as restituir à luz do dia. Sabe com a clareza luminescente com que o coração conhece, sem o avisado consentimento da razão. Por isso, luta pela sua desocultação, pela derrota dessa torrente de maledicência tenebrosa que enlameia a memória do seu amigo. Sabe que não havia nele essa perversidade que outros insistem em atribuir-lhe, esse ódio visceral, esse desejo irresistível de vingança. Estava simplesmente na vida como quem a ama. E pretendia gozá-la até ao fim. Apenas isso!
E talvez fosse isso mesmo que tornara a vida desse homem tão odiosa. Despertava, na sua sadia postura perante as coisas, inveja e ciúme. Não há nada pior para um invejoso do que ver a felicidade dos outros desdobrar-se sobre a miséria da sua incapacidade para usufruir da vida.

2 comentários:

  1. Jorge,
    Parabéns pelo belíssimo post e obrigada por me emprestares o livro. Estou curiosa para ler. Um beijinho

    ResponderEliminar