sábado, 11 de março de 2017

«O segredo que os corvos guardam»

         Hoje foi a apresentação do romance do João Gil. Eis aqui o texto que serviu de apresentação do mesmo:




É costume dizer-se que uma pessoa só está realmente completa depois de ter escrito um livro, ter plantado uma árvore e ter tido um filho. De filhos, o meu amigo João já tem dois, pelo que já está duplamente completo. Quanto a árvores, desconheço se já plantou alguma, mas está sempre a tempo de o fazer. Julgo que o adágio se aplica também a simples bonsais, pelo que pode fazê-lo na pacatez do seu lar. Entretanto, brindou-nos com este romance. Pode finalmente suspirar de alívio por ter ultrapassado a barreira que todo o ser humano tem diante de si e só um pequeno punhado consegue alcançar.
Com isto não estou a propor que goze os seus dias à sombra do que já concluiu, como se a sua missão estivesse realizada em toda a sua plenitude. Na verdade, a missão de cada ser humano só se cumpre realmente no último momento da vida. Assim, o meu amigo João não tem de decretar a reforma e deixar que a preguiça tome conta do seu tempo. Bem pelo contrário, dado que o primeiro ensaio superou as expectativas, há que continuar recorrendo ao tesouro inesgotável da criatividade humana e dar à luz novos textos que possam iluminar e dar alento à triste monotonia do quotidiano.

Para quê perder tempo a conceber um texto literário? Terá algum valor humano a arte de transferir para a língua escrita os sonhos que vamos tendo? Na minha opinião, escrever um livro é enriquecer o património imaterial da humanidade com um pequeno ou grande contributo, consoante a valia do que se escreve. Para lá do interesse financeiro que o escritor possa ter (na verdade, muito dificilmente o seu trabalho será realmente recompensado financeiramente), o ser humano vive de histórias. As grandes narrativas da humanidade propõem valores (e não falo apenas de valores éticos, mas também de outros valores), expõem o melhor e o pior do ser humano, estimulam o leitor a pensar sobre comportamentos e atitudes, exibem o caos e a desordem moral que se propagam pelas sociedades e pode igualmente propor uma nova ordem social, política, económica, etc. A literatura sempre foi uma arma potente nas mãos de quem a usa. As ditaduras bem o sabem quando proíbem e censuram textos libertários ou quando condenam ao exílio, ao cárcere ou à morte os que ousam pensar e escrever livremente.
Não se julgue que a literatura serve apenas para entreter ou para passar o tempo. É certo que há literatura que tem como primordial objetivo o entretenimento, mas mesmo essa, ao capacitar as pessoas para a leitura, torna-as mais competentes no acesso à cultura e ao pensamento crítico. Sou testemunha de que o livro do meu amigo João também faz pensar, para além de ser uma divertida história de mistério.
Enfim, sem literatura, o mundo ficaria mais pobre, mais triste e menos belo.

O que dizer de «O segredo que os corvos guardaram»? Antes de mais nada, gostaria de o recomendar a todos. Não é um livro complexo. Escrito numa linguagem cuidada mas claramente acessível ao grande público, este romance tem ingredientes que o tornam atrativo. Desde logo, a ideia de um mistério a desvendar. Um mistério que se adensa e cujo véu se vai momentaneamente erguendo para deixar passar certos vislumbres através de pequenas pistas. Mas até deste ponto de vista, a história é surpreendente. Evidentemente não vou expor aqui o seu final, mas direi apenas que o mistério se revela ao mesmo tempo que se esconde do olhar do leitor. E mais não digo sobre o assunto.

Nota-se também uma clara preocupação do autor em inserir na parte descritiva do texto uma série de referências históricas e culturais importantes. O texto assume-se como transmissor de cultura histórica. Mas ao mesmo tempo que pretende ser veículo cultural, fá-lo aligeirando o peso do conhecimento académico. No fundo, transforma uma pesada feijoada numa espécie de objeto gastronómico bastante mais digerível.
Até mesmo numa situação algo hilariante, o narrador não perde oportunidade para desfiar alguns dados histórico-culturais. Enquanto os protagonistas são perseguidos por criminosos, todos os acontecimentos se desenrolam a grande velocidade. Na pressa da fuga, os fugitivos entram numa dada pastelaria bem conhecida de Lisboa, colidindo com os empregados. E enquanto voam pastéis de nata e bandejas se estatelam no chão, no meio de uma azáfama inconformada de clientes e empregados, o narrador não perde oportunidade para atrasar a cena dando oportunas informações históricas sobre a restauração da independência, ocorrida a 1 de dezembro de 1640.
Esta preocupação pela informação histórico-cultural é já um motivo válido para agradecermos ao autor o seu esforço como escritor.

Fazendo uso de um narrador que não intervém na história (heterodiegético), quase tudo se passa no plano das ações e dos comportamentos visíveis. A narrativa assume uma perspetiva quase cinematográfica. Tudo o que acontece é posto diante do leitor como realidade acessível à visão. De uma forma geral, as personagens não discorrem acerca do mundo interior onde proliferam e se digladiam pensamentos, crenças ou sentimentos. É em larga medida através dos seus comportamentos e das achegas do narrador que nós ingressamos no universo subjetivo de cada personagem.
Uma vez por outra, o autor recorre à técnica da analepse (flashback) para caracterizar as personagens que entretanto surgem em cena. E a forma como elas vão surgindo é igualmente digno de nota. As vicissitudes das personagens são narradas de forma alternada. Inicialmente, desconhecemos a relação que elas terão umas com as outras. Só mais à frente se há de perceber em que moldes se relacionam e de que maneira essa relação vai ser fundamental para o evoluir dos acontecimentos. A técnica narrativa usada é interessante, uma vez que deixa o leitor na expectativa de ulterior informação que até ali não lhe é dada. O autor termina muitos capítulos no auge da ação, deixando para ulteriores desenvolvimentos a conclusão dos acontecimentos, aumentando assim o interesse do destinatário do texto em prosseguir a leitura. Aliás, um outro aspeto bastante interessante é o facto de os capítulos serem, em geral, de dimensão reduzida. Nunca percebi efetivamente qual o interesse de prolongar um capítulo desmesuradamente. Sem dúvida que dificulta a leitura.
O estatuto social e profissional das personagens evidencia o momento histórico em que vivemos. Gente que alcançou altos níveis de capacitação académica vê-se a braços com a impossibilidade de integrar uma profissão adequada ao nível cultural e aos conhecimentos adquiridos. É o problema do desemprego jovem, é o problema da desadequação dos cursos ao mercado de trabalho, é o problema do desinvestimento das sociedades atuais em saídas profissionais nas vertentes do conhecimento humanístico e das ciências sociais. Inevitavelmente, perguntamo-nos se não estamos a condenar as sociedades a um afunilamento de perspetivas e, portanto, a um empobrecimento de pontos de vista.

Sem dó nem piedade, o autor põe a nu problemas da sociedade portuguesa que afetam largamente o seu funcionamento. Desde logo, a questão do subfinanciamento da investigação científica e os problemas com que se debate este setor crucial para o desenvolvimento do país e para a sua projeção mundial. Também se alude aos problemas do financiamento bancário a projetos económicos com alguma margem de risco. Se os bancos acodem rapidamente a projetos cujo risco é quase nulo, retraem-se no financiamento de projetos inovadores com margens de risco mais elevadas, atirando assim para a vala do esquecimento comum ideias empreendedoras que poderiam contribuir para a renovação económica de uma sociedade.

Também há personagens que procuram noutros campos profissionais a sua realização porque não reconhecem nos seus atuais empregos o ambiente onde possam ser felizes. Ainda que os salários possam ser tentadores, há aspetos éticos que se levantam na atividade profissional que podem tornar difíceis, senão insuportáveis, as relações laborais. Consciências eticamente sensíveis dificilmente estão disponíveis para recorrer a toda e qualquer estratégia que vise conseguir níveis sempre mais elevados de lucro, sem atender à violência desumana que se exerce sub-repticiamente sobre os clientes. Se procurar o lucro é legítimo, já não o será fazê-lo de qualquer forma e feitio. Os fins não justificam os meios. Infelizmente, podemos assistir todos os dias, através das notícias diárias que irrompem pela paz dos nossos lares, ao triunfo do mais soez maquiavelismo. Quando o que está em jogo é avultado, parece não haver limites ao comportamento humano. Para quê dar ao cliente a informação toda de que necessita para poder decidir, se posso ocultar a parte menos favorável dessa informação e levar o cliente a embarcar em negócios que podem revelar-se ruinosos?
Neste ponto, coloca-se também o inevitável problema da obediência. A quem devemos nós obedecer em primeira instância, quando os conflitos éticos se agudizam? Ao superior hierárquico ou à própria consciência? Podemos hipotecar a própria liberdade em nome da mera obediência cega a uma autoridade exterior que impõe uma dada conduta? Por outro lado, estaremos dispostos a suportar as danosas consequências de preferirmos seguir os ditames da consciência moral às ordens superiores? Podemos delegar no outro a decisão final sobre o que está bem e o que está mal? A história diz-nos que não. Jamais seremos justificados se nos deixarmos conduzir pelas instâncias de poder, abdicando de todo o espírito crítico e autonomia moral. Os únicos verdadeiramente responsáveis pelos atos que praticamos, tenham sido eles realizados sob a égide da própria vontade ou sob a estrita ordem de uma autoridade exterior, seremos sempre nós mesmos.
Hoje vivemos em sociedades sofisticadíssimas, com as quais os nossos antepassados trogloditas nem podiam sequer sonhar. Mas do ponto de vista moral, continuamos a guiar-nos pela mesma ordem selvática. Com uma agravante, enquanto eles eram pressionados por uma forte vigilância social, nós hoje diluímos tanto os laços sociais que ninguém se sente impelido a buscar o bem da comunidade quando o interesse individual é posto em causa.
A crítica a comportamentos humanos sobressai também quando se observam os níveis de exploração económica a que estão sujeitos os trabalhadores do setor da hotelaria, sobretudo no que se refere ao prolongamento excessivo dos horários de trabalho. Noutra vertente bem diferente, o texto assume um papel crítico face à exposição pessoal nas redes sociais e à possibilidade de tais informações poderem ser usadas por pessoas sem escrúpulos e mal-intencionadas. E é o próprio que, por ingenuidade ou desconhecimento da natureza humana, expõe a sua intimidade em praça pública, enquanto espera que do outro lado ninguém que aceda a tais informações as use para fins tenebrosos.
De forma menos gravosa, mas igualmente reprovável, alude-se aos favores e cunhas para obtenção de empregos, em troca de vantagens específicas. Ou a obtenção de certos lugares cimeiros não por mérito ou competência, mas por outras razões menos dignas.

O submundo do crime entra em ação como oponente em relação aos protagonistas. E não nos causa qualquer perplexidade que a criminalidade se guie por princípios que nada têm que ver com a ordem ética. Há outros interesses que impelem à ação, associados no romance à extensão da plataforma continental e à exploração económica dos fundos marinhos.
Os criminosos de grande calibre veem a sua identidade protegida dos olhares indiscretos do público porque habitam para lá de toda a suspeição. São os donos disto tudo: os que movem as pessoas como peças de xadrez, ao sabor discricionário da sua vontade omnipotente. Habitam espaços e tempos para lá do bem e do mal. Regem-se por obediências cuja identidade desconhecemos, embora possamos suspeitar. E afinal, o criminoso miúdo, aquele que salta para a liça de arma mão, aquele que rouba, maltrata, sequestra e assassina mais não é do que um mero peão no jogo do mundo, empurrado por forças realmente poderosas que escapam quase sempre ilesas. Também no crime, a arraia-miúda pode ser dispensada e, quando necessário, eliminada. A violência usada na relação com os outros virar-se-á, então, contra o homem violento, porque quem aceita o princípio da força no relacionamento interpessoal não pode esperar senão a aplicação do mesmo princípio em relação a si mesmo.

A história que este romance conta expõe igualmente uma série de relações afetivas atribuladas, mas recheadas de densidade humana. Desfiam-se relatos de relações desfeitas, de filhos desejados mas que se recusam a nascer, de conflitos interpessoais motivados por desentendimentos a que os problemas financeiros não são completamente alheios. Tudo isto é agravado ainda pelo eterno problema da incompreensão entre géneros, que aflora aqui ou ali na superfície do texto.
O conflito de valores e perspetivas de vida transparece também na narrativa. E aqui refiro-me ao conflito motivado por visões do mundo distintas: uma sob a orientação de valores morais bebidos no contexto do cristianismo de matriz católica e outra inteiramente alheia a tais constrangimentos. Uma das personagens, impelida por uma visão religiosa do mundo, concebe a legitimidade das relações sexuais apenas como manifestações do amor; a outra centra a sua atuação em torno do princípio do prazer inteiramente independente do amor.
No contexto do conflito de valores, o autor não se coibiu de expor no seu romance uma família tipologicamente alternativa, no sentido em que não se enquadra no esquema tradicional de família. Duas personagens femininas partilham a vida, sendo que uma está grávida. Trata-se, sem dúvida, de um tema escaldante. Mesmo as sociedades ocidentais, livres e democráticas, só agora estão a admitir alternativas aos modelos familiares que nos foram legados pela tradição judaico-cristã. Não admira que uma das personagens argumente desfavoravelmente com a ordem natural das coisas, supostamente quebrada em relações homoafetivas, e com a necessidade da criança ter também um pai, como se ter duas mães e nenhum pai fosse uma aberração da natureza.

O romance termina numa tonalidade enternecedoramente patriótica. É quase um apelo a que todos os que se reveem no país onde nasceram ou escolheram viver abandonem a letargia em que têm vivido e se lembrem de quem são, para projetar no futuro a sua própria identidade mais profunda.
Obrigado, João, pelo romance que aqui nos deixas.

Lisboa, 11/03/17

Jorge Paulo