domingo, 26 de fevereiro de 2017

Um mundo mais tenebroso

Jerusalém, cidade santa



Infelizmente, o mundo tem avançado para tempos mais tenebrosos. Do lado de lá do Atlântico temos alguém a dirigir a mais poderosa nação do mundo com tal prepotência, que faz lembrar ditadores de outros quadrantes geográficos. Na sua estupidez insanável, não desiste da sua xenofobia recalcitrante, nem das suas manifestações concretas como a construção de muros entre nações, o isolacionismo e o levantamento de barreiras ao comércio mundial, o constante piscar de olhos aos mais abjetos políticos do mundo, o desmantelamento de alianças no mundo árabe, que se mostrou ser um fator importante para não transformar a luta dos extremistas numa luta civilizacional entre o Ocidente e o mundo islâmico, etc. Vamos aguardar pelos desenvolvimentos posteriores, mas não me parece que os próximos anos possam ser de apaziguamento dos conflitos mundiais.
O extremismo religioso de certos grupos islâmicos foi e continua a ser o maior desafio para o mundo e a maior ameaça à paz mundial. Debelar estes grupos que pretendem recuperar a pujança política do islão medieval é tão essencial à harmonia global, que todas as alianças nesse sentido serão bem-vindas. O mundo ocidental não pode ceder à tentação de transformar este estado de coisas num conflito entre democracias e teocracias islâmicas, ou seja, num conflito entre civilizações. O Ocidente democrático não pode pretender impor aos outros povos o seu sistema de vida. Terá de ser a população de cada nação a lutar pela implementação da melhor forma de organizar a vida e de criar condições para a felicidade dos povos. Além disso, tomar o mundo islâmico, no seu todo, como inimigo a abater é altamente perigoso e contraproducente. Por um lado, porque os países islâmicos não são, de modo algum, uma massa indiferenciada. Por outro lado, porque tem de ser, em primeiro lugar, o mundo islâmico a reconhecer que o extremismo religioso é um mal absoluto que afeta a paz mundial e que a sua derrota não redunda apenas na vitória do Ocidente, mas sobretudo na vitória dos países islâmicos moderados, independentemente dos desenvolvimentos políticos que esses países vierem a ter no futuro. Neste sentido, Trump não tem sido, até ao momento, de grande ajuda na pacificação do mundo.
Também no conflito israelo-palestiniano a nova administração americana mudou radicalmente de posição. Já não defende inequivocamente a solução de dois estados, mas deixa a porta entreaberta para a imposição da visão israelita de um único estado, cujo aparelho de poder terá de ser dominado, evidentemente, por israelitas. Embora esta última afirmação nunca apareça nos comunicados oficiais, está subjacente à política agressiva de Israel que tem imposto barreiras e invadido território palestiniano, onde constrói colunatos judeus, apropriando-se assim do que lhe não pertence. E como seria importante que este conflito se resolvesse uma vez por todas, para que se pacificassem as relações entre o mundo islâmico e o Ocidente! Em vez disso, assistimos impávidos e serenos à agressão israelita sobre os povos palestinianos, sem travarmos a fúria exterminadora deste povo. Ao contrário do que possa parecer, digo isto sem ter qualquer má vontade em relação a Israel. Conheço bem a história deste povo. Sei todas as atrocidades a que foi injustamente sujeito. Mas esse facto incontornável não lhe dá o direito de espezinhar os atuais povos autóctones da região que reivindica para si. Tem de haver lugar para todos. Temos de aprender a conviver uns com os outros, no respeito estrito pela diversidade de convicções religiosas ou outras. Bem gostaria que houvesse condições para haver um único estado israelo-palestiniano. Mas não há! Estaria, por exemplo, Israel disposto a aceitar que o nome do estado fosse alterado para incluir também o outro povo que lá habita? E sobretudo, estaria Israel disposto a abdicar de parte do seu poder, num possível estado único, para incluir nas estruturas políticas os representantes do outro povo? Sem se verificarem tais condições, não vejo como seria possível que um estado único servisse os interesses dos dois contendores. Assim sendo, pelo menos provisoriamente, só se vislumbra uma única solução: a divisão geográfica da Palestina em dois estados independentes.
Bem sei que há decisões difíceis de tomar, as quais têm inviabilizado esta solução. E o estatuto de Jerusalém não é a menor delas. Israel reivindica a soberania sobre a cidade. Os palestinianos não abdicam da sua presença autónoma no mesmo espaço geográfico. A meu ver, a melhor solução seria a de esta cidade assumir um estatuto internacional, uma espécie de capital do mundo, sob a administração das Nações Unidas. De facto, Jerusalém é cidade santa para as três principais religiões do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Com tal estatuto, todos os crentes destas tradições religiosas teriam ali acolhimento. Porém, Israel recusa tal solução. E percebe-se porquê. Na Bíblia, a cidade de Jerusalém assumiu um papel de tal forma preponderante que não faz sentido, do ponto de vista judaico, prescindir do seu papel central na vida política do estado israelita. Foi a cidade do rei David e, por extensão, a cidade do Messias que haveria de vir libertar Israel da opressão a que foi sujeito ao longo da sua atribulada história. Foi a capital de Israel antes de a nação ter sido dispersada pelo mundo no século I e II da era cristã. Por outro lado, os palestinianos também não aceitam viver na sua cidade sob o jugo de um povo estrangeiro. Têm direito à sua autonomia e a viver de acordo com as suas tradições, sem interferências de povos estranhos. E é por isso que não vejo outra alternativa que não seja a adoção de um estatuto internacional para Jerusalém, a cidade santa por excelência.
Vivemos num mundo fustigado por conflitos terríveis que põem em causa a estabilidade da vida sobre a Terra. Do outro lado da barricada, temos sinais de esperança que não podem ser sufocados. Na cadeira de Pedro senta-se hoje um homem de uma humanidade sem limites, cuja voz é mundialmente ouvida. As suas palavras estão carregadas daquela verdade que só a bondade e a misericórdia revelam. Apesar de todos os trumps, haverá sempre uma voz que irrompe na miséria da nossa ignorância, que nos chama à razão das coisas e põe diante de nós o futuro que todos desejamos.