quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Mário Soares



Mário Soares não foi um político qualquer. Muitos entram na política para colher dela tão-somente dividendos pessoais. Este homem de origem burguesa fez da política a sua luta pela justiça, pela democracia, pela liberdade e pela tolerância. Nunca precisou da política para se alcandorar socialmente a píncaros que o seu berço lhe não dera, facto esse que releva ainda mais o mérito deste homem, ao dedicar-se de alma e coração às grandes batalhas políticas. Viveu orientado por convicções que acreditava serem realizáveis e determinantes para o futuro de Portugal, dos portugueses e da projeção do país no mundo contemporâneo.
Opôs-se firmemente à mesquinhez do regime autoritário liderado pelo provinciano Salazar. Opôs-se-lhe porque via nele o sinal mais evidente da decadência do país e da sua miserável condição, que um analfabetismo atávico e uma subserviência indigna perpetuavam. Foi, por isso mesmo, uma das muitas vítimas do sistema. Diversas vezes preso, foi também exilado, porque não havia lugar para a sua coragem perturbadora no seio da triste paisagem de um país derrotado pela penúria de um autoritarismo paternalista. Salazar era o passado. Soares, o futuro. Salazar haveria de afogar o país nas águas do seu isolamento internacional, da sua pobreza endémica e da morte que as guerras coloniais haveriam de gerar. Durante quase cinquenta anos, o país definhou, sob a batuta desses senhores da verdade que se apoderaram do país, reduzindo-o ao estado de escravidão intelectual e social. Soares, pelo contrário, estava do outro lado da barricada. Do lado da razão. Ao arrepio do que muitos pensavam, acreditava, no seu otimismo desconcertante, que era sempre possível refundar um outro país e que o futuro não estava, de modo algum, pré-determinado. Tudo podia ainda acontecer. Bastava que o quiséssemos. E tinha de acontecer, se nos não deixássemos vencer pelo desânimo e pelo desespero. E foi com este espírito que tomou, em Paris, o comboio da liberdade e desembarcou em Santa Apolónia dia vinte e oito de abril de setenta e quatro, quatro dias apenas após a revolução dos cravos.
Soube interpretar corretamente os sinais dos tempos. Era agora o momento adequado para reconstruir o país a partir das cinzas a que um regime obscurantista e anacrónico o condenara. Foram tempos de grande instabilidade. Todos os acontecimentos se precipitavam sem ser possível prever exatamente o que o dia seguinte haveria de trazer. E apesar dessa incerteza e da volatilidade dos fenómenos sociais, Soares soube tomar as rédeas do país e enfrentar as derivas autoritárias que espreitavam pela melhor oportunidade. Sabia de onde vínhamos e sabia para onde queria que o país se encaminhasse. O fim da guerra colonial, a urgente descolonização, a fundação dos esteios de um país democrático, a defesa intransigente da liberdade e a reconfiguração da sociedade portuguesa através da educação, da saúde para todos, da segurança social e de leis laborais que protegessem o elo mais fraco na cadeia do sistema produtivo foram as principais orientações que desejava implementar.
Não foi fácil. Havia oposição interna feroz. Da esquerda, sobretudo, uma vez que a direita estava praticamente neutralizada pelo fervor revolucionário. Mas nem assim depôs a vontade no chão da indiferença. Soube como levar o país pelas águas tranquilas da democracia pluralista e da liberdade individual e coletiva. Mesmo sob o calor abrasivo do processo revolucionário em curso, Soares não abriu mão das suas convicções e da luta constante pela sua implementação. Foi ministro dos governos provisórios, foi várias vezes primeiro-ministro e, finalmente, presidente da república em dois mandatos sucessivos.
E quando novas derivas neoliberais se queriam impor em Portugal, Soares opôs-se-lhes, porque recusava aceitar que os interesses dos portugueses fossem vendidos ao grande capital e aos grandes grupos económicos. Era o interesse dos portugueses e de Portugal que estavam em primeiro lugar na sua atuação política. Sobretudo, as justas aspirações dos mais pobres e dos assalariados, amiúde vencidos pelo poder hegemónico dos grandes grupos económicos e financeiros.
Também se enganou, como é próprio dos humanos, sobretudo de quem não deixa por mãos alheias o que tem de ser feito. Mas o volume da obra feita está aí para render homenagem a este português de exceção que conduziu Portugal rumo ao progresso.
Foi ainda ele quem preparou Portugal para a integração na então Comunidade Económica Europeia. Sabia bem que o isolamento do país lhe não proporcionaria nada de bom. Ou vivemos solidariamente com os outros ou morreremos afogados na agonia da própria solidão. Sabia bem que não haveria futuro para Portugal fora da Europa, a que sempre pertencera por destino geográfico. E quando a mesma Europa se subjugou aos princípios de um espúrio egoísmo nacionalista, com laivos de alguma xenofobia, sob a vontade cega da nova direita populista e medrosa, o mesmo Soares denunciou a traição inaceitável aos princípios dos fundadores que sempre viram na solidariedade entre os povos a pedra de toque do Velho Continente.
Também a ele ficámos a dever a relação tolerante do Estado com a religião, sobretudo com a Igreja Católica, claramente hegemónica. E é bem sabido como a maior parte do poder religioso português admirara Salazar e alinhara a sua atuação pelos parâmetros do poder instituído à revelia dos cidadãos, promovendo, assim, ou por inércia ou através de apoios manifestos, a própria ditadura. Seria, portanto, quase natural que a nova situação entretanto criada pela revolução desferisse sobre a Igreja Católica o ódio que décadas sucessivas de censura haviam calado. Tendo aprendido com os erros da Primeira República, este homem visionário permitiu que o poder político democrático não hostilizasse o poder religioso. E fez bem! Todo o ódio gera reações adversas. Decerto que uma Igreja acossada pelo Estado não teria colaborado com o novo sistema da forma como o fez. De outro modo, a tensão no país teria decerto subido e provavelmente a oposição ao regime nascente seria, sem dúvida, bem maior.
Soares fica para a história pelos valores que defendeu e pela coerência prática que, de uma forma geral, manifestou. Sem ele, Portugal provavelmente não seria o que é hoje. Sem ele, nenhum de nós seria o que é hoje. Todos temos, de alguma maneira, para com este homem luminoso, uma dívida de gratidão. A história há de definir-lhe os contornos. Como sempre acontece.