domingo, 14 de maio de 2017

Fátima e o papa Francisco

Francisco é, de facto, um renovador. E a sua ação reformista cumpre-se por meio de palavras ousadas, mas também através de gestos inusitados que decide realizar, contra ventos e marés. Neste sentido, é realmente um profeta, no verdadeiro sentido do termo. Um dos poucos homens do sistema que se comporta como tal. De um modo geral, o profeta encaixa-se mal nos sistemas de valores vigentes. É uma espécie de desmancha-prazeres, um crítico obstinado que não para de zurzir, com o látego das suas palavras e gestos, pessoas e sistemas demasiado instalados ou descarnados de vitalidade. Recusa curvar-se e submeter-se aos seus ditames seculares e anacrónicos, cujo sentido o tempo deliu. Prefere, antes, que um espírito transcendente, cujo eco se faz sentir no seu coração sedento, lhe segrede palavras, comportamentos e modos de ser que não deixarão de incomodar os paladinos da imobilidade social, cultural, religiosa ou pessoal. O profeta esgaravata no terreno da acomodação que tendemos a construir, para nossa suposta segurança. Perturba a nossa indolência preguiçosa. Rejeita a inércia e desassossega os instalados.
É assim Francisco. Logo desde o primeiro momento em que foi eleito papa. Não esperaríamos que fosse diferente agora que veio a Fátima. E se aqui canonizou as duas crianças que a morte prematura levou, não canonizou, decerto, todo o conteúdo, em parte obsoleto, da chamada “mensagem de Fátima”, tal como se encontra vertida nas “Memórias” da irmã Lúcia.
As visões e os segredos que esta mulher nos foi desvendando, inscrevem-se, em larga medida, na religião do medo, que a Igreja assumia nas suas catequeses e homilias. Sobre a pequenez desprotegida do ser humano, um deus parece rejubilar com o sofrimento e entregar, sem dó nem piedade, o pobre pecador ao pavor de um inferno cujas imagens Lúcia pintou, nas páginas que escreveu, como se fossem a mais estrita descrição de um quadro de Bosh.
Francisco está, pelo contrário, em sintonia com o Evangelho, nos antípodas deste tipo de religiosidade que elege o pecado, a culpa e o castigo como conceitos centrais na pobreza humana da sua teologia.
Para Francisco, Deus é essencialmente amor e misericórdia. A sua vontade benigna de acolher o pecador, por mais distante que esteja, é infinita. Nada há que fique fora da sua ação benevolente. E assim sendo, Francisco pede que nos empenhemos na “revolução” que a misericórdia e o perdão introduzem na nossa maneira de nos relacionarmos com Deus e com os outros. Somos chamados a ser sinais da “misericórdia de Deus, que perdoa sempre, perdoa tudo”. E a revolução da nossa forma de pensar, a conversão da nossa mente, é convidada instantemente a rejeitar o medo e o temor e a abraçar, sem rodeios nem subterfúgios, a força irrecusável da ternura e do carinho. E o papa sublinha ainda que a “humildade e a ternura não são virtudes dos fracos, mas dos fortes, que não precisam de maltratar os outros para se sentirem importantes”. A lógica do Evangelho é o oposto da lógica do poder, da força bruta e da prepotência. É o triunfo da humilde condição de provedor dos outros. Daqui deriva que, nos mais diversos momentos da vida, cada um é convocado a “antepor a misericórdia ao julgamento”. “Em todo o caso, o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”. Francisco recupera o tema fundamental do seu pontificado, pois é nele que vê espelhar-se o melhor que o Evangelho de Cristo veio trazer ao mundo.
Mas o papa não se fica por aqui. Interpela a consciência de todos os romeiros que se encaminham para Fátima, algumas vezes sob o impulso de motivações desprovidas de sentido. Defende, portanto, que Maria é bendita porque acreditou nas promessas de Deus e a ele se entregou inteiramente e não porque seja “a santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço”. Uma clara crítica à religiosidade das promessas, alicerçada numa relação comercial com o divino, como se Deus se dispusesse a negociar connosco o nosso próprio bem e não estivesse, desde sempre, empenhado na nossa salvação. Não faz sentido que a relação do crente com Deus se funde numa mera troca comercial de bens. Deus é o senhor de tudo. Que lhe poderíamos nós oferecer que não fosse já dele? Deus ama-nos desde toda a eternidade. Como nos atrevemos, pois, a considerar que lhe podemos comprar, a baixo preço, algum favor especial? Na verdade, aquilo que ele tem para nos oferecer não tem preço. E apenas porque é pura dádiva, estará ao nosso alcance. Por outro lado, de que precisaria Deus para ser mais do que já é realmente? A única oferta que Deus espera de nós é a oferta de cada um em prol de todos os seus semelhantes. A única oferta que Deus espera de nós é a decisão de amar os outros como nos amamos a nós mesmos. E neste ponto, Francisco não se cansou de referir a urgência de negarmos a indiferença do olhar e encontrarmos no bem dos outros a nossa própria realização pessoal. “Cada um dos deserdados e infelizes a quem roubaram o presente”, “os excluídos e abandonados a quem negam o futuro”, exigem uma “mobilização geral contra esta indiferença que nos gela o coração e agrava a miopia do olhar”. E conclui: “a vida sobrevive com a generosidade de outra vida”. Por isso, rezar a Deus é procurar que a humanidade escute as nossas súplicas e que não fique indiferente às privações que diante de Deus desfiamos. Cada ser humano é uma acendalha de esperança para os outros.
Também o papel de Maria terá de ser reconsiderado. O excessivo centralismo mariano do catolicismo deverá ceder o passo a uma visão mais equilibrada, na qual Maria existe em função de Jesus e este em função de Deus. É Cristo que é o centro da fé cristã. Ele é a esperança da humanidade divinizada. E se Maria introduziu os pastores no mar imenso da luz de Deus, foi para o adorarem. O centro da mensagem de Fátima terá, pois, de ser a presença divina na vida de cada crente como fonte de esperança e de coragem para enfrentar as adversidades.
E para todos os que pensam que Deus exige algum tipo de sofrimento voluntário, deliberadamente procurado, o papa refere que não é preciso subir à cruz para encontrar Jesus. Foi ele que se humilhou para nos encontrar. Não estamos sozinhos. Vivemos nele e com ele. Porque por piores que sejamos, não é ele quem nos abandona. Somos nós próprios que o rejeitamos no irmão doente, esquecido ou humilhado.

Por último, Francisco apela a que se descubra “novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica no amor”. Que belo programa para a Igreja de Cristo! Depois de décadas de apagamento gradual na sociedade moderna e contemporânea, talvez possamos agora esperar que esta comunidade de pecadores escancare os seus braços não apenas ao que supostamente cumprem leis, ritos e prescrições, mas sobretudo aos que os não cumprem e, ainda assim, ou talvez exatamente por isso, sentem que precisam de um ponto de orientação absoluto ao qual entregar a própria vulnerabilidade. Talvez possamos esperar, sob influência da proposta de Francisco, ver a Igreja virar as costas definitivamente àquele farisaísmo contra o qual Jesus falou e agiu. Assim bispos, padres, religiosos e leigos assumam este lado luminoso da vida que o Evangelho testemunha desde que Jesus o propôs.

domingo, 30 de abril de 2017

Amarra-os num saco!

Sábado passado, remexemos nas entranhas da casa da minha infância. Agora que a venda parece apressar-se temos de limpar o espaço de tudo quanto é pessoal e de tudo quanto nos convém guardar. E nesta constante azáfama, demos com objetos que dizem muito acerca das crenças da tia Lucília.
Os nossos antepassados, sobretudo analfabetos (que eram a esmagadora maioria), mantinham crenças ancestrais e, de algum modo, primitivas acerca de uma certa dimensão espiritual da vida. Muitos olhavam com indiferença para as instituições religiosas oficiais. Mas acolhiam acriticamente práticas fetichistas para saírem vencedores de alguma desconsiderada malapata ou para furtar o destino rumo a paragens que o livro da vida não havia registado. A minha tia não embarcava em todas as crendices, mas… pelo sim pelo não… convém não importunarmos os espíritos com o nosso ceticismo. Podem irritar-se pela desconsideração a que os votamos e exercer o seu direito oculto à vingança.
E Deus? Não seria suficiente para derrotar todas as pretensões destes perturbadores da ordem cósmica? Talvez. Se pensarmos um pouco mais profundamente, sem dúvida que sim. A sua omnipotência, a sua omnisciência e a sua bondade infinita garantem o sucesso do bem sobre as emboscadas do mal. Porém, Deus está lá no seu reino eterno, longe das nossas preocupações comezinhas. Pelo contrário, os espíritos (benignos ou malignos), aparentemente, sitiam a nossa existência. Vagueiam pelas ruas onde moramos, pelos becos onde o medo nos assalta, assediam impiedosamente as nossas almas, expostas que estão à fluidez do tempo e à insignificância da própria condição. Deus parece demorar a intervir. Quando o chamamos, raramente nos responde. E quando o faz, é tarde e às más horas. Entretanto já esses paladinos do mal se instalaram no coração da nossa vida tão precária. E o pior é que não nos libertam facilmente. Primeiro, sob a forma de mero receio, motivado por qualquer infortúnio ocorrido. Segundo, sob a veste do medo e, finalmente, sob os grilhões do pânico, gerador de avultada ansiedade. Mesmo que não haja espírito algum que nos possa incomodar, já estamos cativos da imagem deles que para nós engendrámos.
Que fazer então? Enquanto os evangelhos apelam à força da oração contínua, ou seja, à confiança no Deus de misericórdia que nos amou desde toda a eternidade, os nossos medos impelem-nos para os braços dos profissionais do além. Por convicção ou por mera conveniência financeira, tais pessoas cobram, a preço de ouro, as suas inúteis intervenções, visando desfazer a penosa condição a que estamos sujeitos por força desses supostos espíritos mundanos ou de alguém que os usou para nos algemar aos grilhões da morte.
No que me toca, não creio na existência de seres celestes, sejam eles benignos ou malignos, chamemos-lhes anjos, arcanjos, querubins ou demónios, diabos e satanás. Com uma única exceção: Deus. E se nos tempos que correm é já bastante difícil acreditar numa divindade, julgo dever ser ainda mais crer numa multidão de espíritos errantes que parecem não ter mais nada que fazer do que infernizar o juízo aos pobres humanos enquanto percorrem os acidentados trilhos da vida terrena. Mas a mente humana tem destas coisas inexplicáveis. No tempo em que a ciência reduz todas as explicações a causas meramente internas ao mundo, muitos lançam-se nas mãos de vigaristas e charlatães. Querem apenas recuperar a harmonia que perderam. Mas precisamos mesmo de recorrer a seres ultramundanos para explicar essa desarmonia que entretanto se instalou na nossa mente? Creio que nos bastam as tantas dificuldades da vida que a todos, mais cedo ou mais tarde, nos assolam.
Regressemos à perturbadora tarefa de esvaziar a casa da tia Lucília. Digo esvaziar no seu duplo sentido. Também eu saio um pouco mais vazio desta ingrata tarefa. Uma parte do que sou já se afundou com a sua morte. E resgatar aqueles objetos à casa que vamos abandonar é reviver essa perda indescritível. Porém, tudo isto tem de ser feito. Não há como escapar!
De forma sistemática, fomos avançando pelas várias divisões, esquadrinhando gavetas, armários e outros móveis. Quando chegámos à cozinha, abrimos as gavetas da mesa onde partilhámos tantas refeições e passámos a pente fino os vários objetos que lá se achavam. No fundo de uma das gavetas, bem embrulhados, estavam os enferrujados talheres dos meus bisavós. Nunca quis desfazer-se destes artefactos tão antigos quanto inúteis. Já ninguém come com talheres de ferro. Mas naquele embrulho não estavam apenas as facas, os garfos ou as colheres, estava também, e particularmente, a memória dos seus pais.
Parecia que havíamos retirado tudo dessa gaveta. Dei ainda uma vista de olhos pelo fundo sombrio, não tivesse ficado esquecido algum objeto pessoal. E de facto, lá bem no fundo, a um canto quase impercetível, estava ainda um objeto que por mero acaso nos tinha passado despercebido. Retirei-o. Era um pequeno saco de serapilheira amarrado com um atilho específico ao qual estava ligado um pequeno cilindro de madeira com formas esculpidas. Desatei o saquito e verifiquei se tinha alguma coisa lá dentro. Não. Estava vazio. Não tive a menor sombra de dúvida de que se tratava de uma qualquer bruxaria. Talvez o saco atado tivesse dentro, aprisionados, os espíritos que a haviam apoquentado e eu, imprudente como os companheiros de Ulisses, acabei por lhes dar carta de alforria. Não sei ao certo que significado tinha para ela, mas era decerto um sinal do seu respeito (e medo?) por tudo quanto não vemos nem ouvimos mas pode lá estar nesse misterioso mundo onde não nos é dado aceder.

Cá por mim, fico-me pela confiança nesse Deus que dá sentido à vida. Tudo o resto parecem-me simplesmente ficções geradas pelo medo de tudo quanto desconhecemos e nos pode ser hostil. Dir-me-ão que não sou tão radical como deveria, incluindo Deus também no rol de todas essas ficções. Talvez tenham razão. Mas não vejo como pode o universo e a vida humana fazerem sentido sem uma última explicação que não necessite ela própria de qualquer outra explicação.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Eleições à beira do abismo

Depois do desastre americano, também a França foi a votos. E esteve por um triz, quase a resvalar para a área tenebrosa da extrema-direita e do seu discurso racista, xenófobo e nacionalista. Há alguns anos, julgava que as nações estavam em vias de extinção. O futuro era o mundo como casa comum de todos os seres humanos. Hoje, sei que ainda não. Se aquilo a que assistimos não for apenas o seu canto de cisne, as nações afirmam-se como autoridades supremas.
Não me interpretem mal. Amo a minha pátria. Gosto de ter nascido no país em que nasci, ainda que lhe veja os defeitos colados ao meu destino. Mas esse fator emocional não me impede de saber que nenhum povo é filho de um deus menor. Sou inteiramente português, mas tal condição não faz de mim menos europeu ou menos cidadão do mundo. Sempre que penso nisto, relembro o poema de António Gedeão:
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
E nesta quintilha está tudo dito. De uma forma tão deslumbrante, que outras palavras apenas ofuscariam a sua luminosa mensagem. Como se pode compaginar tal visão universalista com a mesquinha afirmação do próprio eu ― seja ele pessoal, regional ou nacional ―, como valor supremo a que tudo deve vergar-se?
A globalização trouxe, sem dúvida, problemas à ordem estabelecida. Levou ao enriquecimento de alguns e ao empobrecimento de outros. Talvez tenha sido o Ocidente desenvolvido a sofrer de forma mais significativa o embate da necessária abertura das economias e das culturas e a consequente ascensão de outras civilizações. Mas essa não será razão suficiente para nos trancarmos no nosso egoísmo, enquanto expulsamos do nosso jardim todos os intrusos que não se inscreveram ou não puderam inscrever-se no nosso clube.
Podemos e devemos assegurar a integridade da vida humana nos limites das nossas fronteiras. Porém, não há nenhuma contradição entre esse esforço securitário, sobretudo face ao terrorismo dilacerante, e o reconhecimento efetivo dos direitos daqueles que ― não tendo nascido no espaço confinado das nossas fronteiras ou não partilhando connosco os mesmos valores religiosos ou não ostentando a mesma cor de pele ― têm exatamente a mesma dignidade que nós reivindicamos para os nossos filhos. É esta visão universal da vida humana, humanista até ao limite, que deve presidir, segundo creio, à relação entre pessoas e povos, sob pena de nos despenharmos na barbárie que outrora infestou as nossas sociedades.
Com as eleições em França, todos trememos. O que virá aí depois da saída anunciada do Reino Unido da União Europeia? Se já será penoso tal êxodo, como sobreviverá a União à fuga de uma das nações mais estruturais para o edifício europeu, como é o caso da França? Todos nos lembramos o que era a Europa das nações isoladas. As guerras, os interesses nacionais sobrepostos aos interesses dos povos, a insaciável avidez pelo poder, o egoísmo sem margem para a solidariedade entre cidadãos, entre povos e entre nações… O elenco dos crimes, das catástrofes e das mortes é demasiado extenso para caber em tão poucas linhas. Mas os volumes de historiografia estão repletos dessas narrativas sinistras para que fomos arrastados durante séculos de imaturidade civilizacional.
O medo é o pior conselheiro. Sempre que nos deixamos dominar por este sentimento tão necessário quanto arrasador, transformamo-nos em monstros, prontos a afiar as garras na pedra dos nossos ódios mesquinhos. Infelizmente, Marine Le Pen, com a sua despudorada demagogia, apela a esse fundo irracional que, de um modo geral, mantemos sob guarda nos calabouços da nossa mente. Contudo, despertado o monstro, não há barco que nos faça dobrar o cabo das tormentas. Somos arrastados para o abismo oceânico pela violência dos ventos que libertámos. Quem dera fôssemos realmente poupados a tal experiência abominável!

Parece que desta vez vamos sobreviver. Mas seria bom que os políticos do sistema tirassem as ilações necessárias e desta ameaça assustadora renascesse, autêntico e lúcido, um outro rosto da democracia. A Europa também tem de aprender com a lição. Não é por acaso que muitos franceses já não se sentem assim tão enlevados com a União a que pertencem. Não é por acaso!

sábado, 1 de abril de 2017

«A mancha humana»



Terminei hoje a leitura de uma das obras mais excecionais de toda a literatura que conheço: “A mancha humana” de Philip Roth. Este americano genial escreve com a mesma naturalidade deslumbrante com que se respira. Não há palavras a mais, não há palavras a menos. Tudo quanto escreve já estava gravado, desde sempre, no livro intemporal da vida. Bastava que alguém o revelasse. Por isso, na sua obra, nada sobeja. E de nada carece aquele palco de personagens consistentes, que se confundem com a própria realidade. Uma obra a não perder, para quem queira estar a par do que melhor se escreve no tempo que vivemos.
Eu diria que há um tema omnipresente: a mentira como sossego inquieto, como lenitivo irrecusável para a doença da vida num mundo “sadio” onde a negritude é o asco a evitar, o morbo a recusar.
Não havia grande alternativa de sobrevivência no arco de um tempo em que ser negro era simplesmente não ser, ou ser menor, ou não ter, aos olhos dos outros, a completude necessária dos construtores da história. Por mais inteligente que fosse, por mais nobre que fosse, como o fora o pai do protagonista.
Só havia, portanto, uma alternativa ao desastre de se perder no injusto esquecimento dos povos. Sim, de se perder na vacuidade do que não pode ser tido em conta, do que não existe, ainda que viva e se mova num quotidiano, por vezes heroico. É certo que o pai escolhera essoutro caminho: o da honesta assunção da própria condição de negro, arrostando assim com toda a humilhação que lhe estava colada à pele. Que ganhara ele com isso? Culto como fora, muito para lá da grande maioria dos que ostentavam a cor como privilégio indiscutível, acabara os seus dias a servir à mesa na carruagem-restaurante dos comboios onde se empregara, enquanto lhe bailavam na mente os versos geniais de Shakespeare. Que ganhara então ele?
Não. Não era essa a decisão certa. Se a mentira pairava sobre os valores de uma sociedade caduca (e não há maior mentira do que o preconceito feito carne), na qual o autor de Hamlet definhava enquanto servia à mesa de um comboio suburbano e muitos dos que eram servidos jamais tinham lido uma tragédia grega, quaisquer que fossem os meios usados decerto que estariam justificados. Teria de mentir? Mentiria. Teria de ocultar da mulher e dos filhos a sua verdadeira origem? Fá-lo-ia. Afinal, o que é realmente a verdade? Qual é a natureza específica da mentira? Conquistar com o suor do próprio rosto o lugar a que se tem direito não será mais autêntico e verdadeiro do que propagar a sete ventos, por orgulho ou valentia, a própria negritude?
É a história de uma tragédia humana vivida na América racista e segregacionista, na qual uma franja de cidadãos de pele clara, mas com ascendentes negros, decide renunciar às próprias origens familiares (e até ao contacto com a sua família alargada) para poder usufruir dos benefícios que a inteligência e as aptidões pessoais lhes podem proporcionar.
Parafraseando Martin Luther King, era uma sociedade onde se julgavam as pessoas ― e se distribuíam por gavetas sociais incomunicáveis ― a partir do critério da cor da pele e não da grandeza de caráter, do comportamento e dos méritos efetivos. E foi esta a grande tragédia humana que durante séculos assolou a história da humanidade, mantendo no estado de servidão, total ou parcial, uma fatia significativa de seres humanos. E ainda se não resolveu inteiramente, apesar de se terem dado passos consideráveis no reconhecimento da igualdade fundamental entre todos os seres humanos, independentemente da cor ou da raça.
Mais do que a tragédia pessoal da mentira em que laborou Coleman, o protagonista, este romance é o testemunho da tragédia infame de uma tal sociedade. Ele não é o herói negro típico que se assume portador de direitos, encabeçando, na sua condição efetiva, a luta pelos direitos cívicos, como Luther King fará até que o ódio e o preconceito vilmente o abatam. Coleman é o anti-herói que prefere renunciar a ser o que o nascimento dele fizera, condenando-se à expulsão voluntária do grupo sociorracial a que pertence, por forma a deslocar a fronteira da sua identidade para um terreno onde a coragem dos heróis não é necessária para alcançar o que antes lhe estava vedado.
Também ele terá de pagar um preço elevado. A negação de si mesmo é a negação do berço onde fora plasmado, a rutura com o passado onde se fizera homem e, simultaneamente, a construção da nebulosa relação, despida daquela intimidade que só a verdade pode outorgar, com a família nuclear que se escolhera, inteiramente destituída de passado.
Por último, terá de pagar com a própria vida. De alguma forma, o seu comportamento libertino ameaçara o malsão veterano de guerra que deixara no Vietname a sua sanidade. E assim, este romance é também um grito de revolta face a decisões políticas que tornam a vida de milhares de cidadãos perfeitamente insuportável. Ninguém que tenha passado junto ao ódio devorador da morte poderá sair incólume.
Lester, o veterano do Vietname, vive uma existência sem rumo nem significado. Já se extinguiu nos campos de morte por onde passara. É o seu cadáver que todos os dias se levanta, porque a alma, essa dissipou-a junto aos despojos, no inferno asiático para onde o governo o empurrara. E é assim que salpica de morte tudo quanto toca. Lester está para lá do bem e do mal. Só quem vive pode ter padrões éticos ou balizas morais. Lester morreu algures no passado e aí deixou esses limites a que a consciência outrora o obrigara. O que sobra agora é a secura mortal que o deserto da vida lhe serve, indiferente ao sofrimento. E quando este se ergue acima do suportável, o espetro ambulante desse homem esboroa-se numa espécie de serena insanidade que tudo arrasta para o fundo do precipício. E foi assim que Coleman e a sua amante sucumbiram às intrigas do desespero letal.
E novamente é obrigatório perguntarmo-nos o que é a verdade. Essa interrogação eterna cuja resposta cabal não está de modo algum ao nosso alcance. Mas podemos entrever, no meio do bulício das palavras enfadonhas, desertas ou mesmo difamatórias, um minúsculo atalho para o rosto disso a que chamamos verdade. Decerto lhe não descobriremos o corpo inteiro. Mas pequenas franjas do manto cerrado da noite hão de pender perante os nossos olhos.
A morte do protagonista é ensombrada por calúnias e vil difamação. Só o seu amigo sabe a verdade dos factos. Não que esteja nele a posse das provas ou que se veja na iminência de as restituir à luz do dia. Sabe com a clareza luminescente com que o coração conhece, sem o avisado consentimento da razão. Por isso, luta pela sua desocultação, pela derrota dessa torrente de maledicência tenebrosa que enlameia a memória do seu amigo. Sabe que não havia nele essa perversidade que outros insistem em atribuir-lhe, esse ódio visceral, esse desejo irresistível de vingança. Estava simplesmente na vida como quem a ama. E pretendia gozá-la até ao fim. Apenas isso!
E talvez fosse isso mesmo que tornara a vida desse homem tão odiosa. Despertava, na sua sadia postura perante as coisas, inveja e ciúme. Não há nada pior para um invejoso do que ver a felicidade dos outros desdobrar-se sobre a miséria da sua incapacidade para usufruir da vida.

sábado, 11 de março de 2017

«O segredo que os corvos guardam»

         Hoje foi a apresentação do romance do João Gil. Eis aqui o texto que serviu de apresentação do mesmo:




É costume dizer-se que uma pessoa só está realmente completa depois de ter escrito um livro, ter plantado uma árvore e ter tido um filho. De filhos, o meu amigo João já tem dois, pelo que já está duplamente completo. Quanto a árvores, desconheço se já plantou alguma, mas está sempre a tempo de o fazer. Julgo que o adágio se aplica também a simples bonsais, pelo que pode fazê-lo na pacatez do seu lar. Entretanto, brindou-nos com este romance. Pode finalmente suspirar de alívio por ter ultrapassado a barreira que todo o ser humano tem diante de si e só um pequeno punhado consegue alcançar.
Com isto não estou a propor que goze os seus dias à sombra do que já concluiu, como se a sua missão estivesse realizada em toda a sua plenitude. Na verdade, a missão de cada ser humano só se cumpre realmente no último momento da vida. Assim, o meu amigo João não tem de decretar a reforma e deixar que a preguiça tome conta do seu tempo. Bem pelo contrário, dado que o primeiro ensaio superou as expectativas, há que continuar recorrendo ao tesouro inesgotável da criatividade humana e dar à luz novos textos que possam iluminar e dar alento à triste monotonia do quotidiano.

Para quê perder tempo a conceber um texto literário? Terá algum valor humano a arte de transferir para a língua escrita os sonhos que vamos tendo? Na minha opinião, escrever um livro é enriquecer o património imaterial da humanidade com um pequeno ou grande contributo, consoante a valia do que se escreve. Para lá do interesse financeiro que o escritor possa ter (na verdade, muito dificilmente o seu trabalho será realmente recompensado financeiramente), o ser humano vive de histórias. As grandes narrativas da humanidade propõem valores (e não falo apenas de valores éticos, mas também de outros valores), expõem o melhor e o pior do ser humano, estimulam o leitor a pensar sobre comportamentos e atitudes, exibem o caos e a desordem moral que se propagam pelas sociedades e pode igualmente propor uma nova ordem social, política, económica, etc. A literatura sempre foi uma arma potente nas mãos de quem a usa. As ditaduras bem o sabem quando proíbem e censuram textos libertários ou quando condenam ao exílio, ao cárcere ou à morte os que ousam pensar e escrever livremente.
Não se julgue que a literatura serve apenas para entreter ou para passar o tempo. É certo que há literatura que tem como primordial objetivo o entretenimento, mas mesmo essa, ao capacitar as pessoas para a leitura, torna-as mais competentes no acesso à cultura e ao pensamento crítico. Sou testemunha de que o livro do meu amigo João também faz pensar, para além de ser uma divertida história de mistério.
Enfim, sem literatura, o mundo ficaria mais pobre, mais triste e menos belo.

O que dizer de «O segredo que os corvos guardaram»? Antes de mais nada, gostaria de o recomendar a todos. Não é um livro complexo. Escrito numa linguagem cuidada mas claramente acessível ao grande público, este romance tem ingredientes que o tornam atrativo. Desde logo, a ideia de um mistério a desvendar. Um mistério que se adensa e cujo véu se vai momentaneamente erguendo para deixar passar certos vislumbres através de pequenas pistas. Mas até deste ponto de vista, a história é surpreendente. Evidentemente não vou expor aqui o seu final, mas direi apenas que o mistério se revela ao mesmo tempo que se esconde do olhar do leitor. E mais não digo sobre o assunto.

Nota-se também uma clara preocupação do autor em inserir na parte descritiva do texto uma série de referências históricas e culturais importantes. O texto assume-se como transmissor de cultura histórica. Mas ao mesmo tempo que pretende ser veículo cultural, fá-lo aligeirando o peso do conhecimento académico. No fundo, transforma uma pesada feijoada numa espécie de objeto gastronómico bastante mais digerível.
Até mesmo numa situação algo hilariante, o narrador não perde oportunidade para desfiar alguns dados histórico-culturais. Enquanto os protagonistas são perseguidos por criminosos, todos os acontecimentos se desenrolam a grande velocidade. Na pressa da fuga, os fugitivos entram numa dada pastelaria bem conhecida de Lisboa, colidindo com os empregados. E enquanto voam pastéis de nata e bandejas se estatelam no chão, no meio de uma azáfama inconformada de clientes e empregados, o narrador não perde oportunidade para atrasar a cena dando oportunas informações históricas sobre a restauração da independência, ocorrida a 1 de dezembro de 1640.
Esta preocupação pela informação histórico-cultural é já um motivo válido para agradecermos ao autor o seu esforço como escritor.

Fazendo uso de um narrador que não intervém na história (heterodiegético), quase tudo se passa no plano das ações e dos comportamentos visíveis. A narrativa assume uma perspetiva quase cinematográfica. Tudo o que acontece é posto diante do leitor como realidade acessível à visão. De uma forma geral, as personagens não discorrem acerca do mundo interior onde proliferam e se digladiam pensamentos, crenças ou sentimentos. É em larga medida através dos seus comportamentos e das achegas do narrador que nós ingressamos no universo subjetivo de cada personagem.
Uma vez por outra, o autor recorre à técnica da analepse (flashback) para caracterizar as personagens que entretanto surgem em cena. E a forma como elas vão surgindo é igualmente digno de nota. As vicissitudes das personagens são narradas de forma alternada. Inicialmente, desconhecemos a relação que elas terão umas com as outras. Só mais à frente se há de perceber em que moldes se relacionam e de que maneira essa relação vai ser fundamental para o evoluir dos acontecimentos. A técnica narrativa usada é interessante, uma vez que deixa o leitor na expectativa de ulterior informação que até ali não lhe é dada. O autor termina muitos capítulos no auge da ação, deixando para ulteriores desenvolvimentos a conclusão dos acontecimentos, aumentando assim o interesse do destinatário do texto em prosseguir a leitura. Aliás, um outro aspeto bastante interessante é o facto de os capítulos serem, em geral, de dimensão reduzida. Nunca percebi efetivamente qual o interesse de prolongar um capítulo desmesuradamente. Sem dúvida que dificulta a leitura.
O estatuto social e profissional das personagens evidencia o momento histórico em que vivemos. Gente que alcançou altos níveis de capacitação académica vê-se a braços com a impossibilidade de integrar uma profissão adequada ao nível cultural e aos conhecimentos adquiridos. É o problema do desemprego jovem, é o problema da desadequação dos cursos ao mercado de trabalho, é o problema do desinvestimento das sociedades atuais em saídas profissionais nas vertentes do conhecimento humanístico e das ciências sociais. Inevitavelmente, perguntamo-nos se não estamos a condenar as sociedades a um afunilamento de perspetivas e, portanto, a um empobrecimento de pontos de vista.

Sem dó nem piedade, o autor põe a nu problemas da sociedade portuguesa que afetam largamente o seu funcionamento. Desde logo, a questão do subfinanciamento da investigação científica e os problemas com que se debate este setor crucial para o desenvolvimento do país e para a sua projeção mundial. Também se alude aos problemas do financiamento bancário a projetos económicos com alguma margem de risco. Se os bancos acodem rapidamente a projetos cujo risco é quase nulo, retraem-se no financiamento de projetos inovadores com margens de risco mais elevadas, atirando assim para a vala do esquecimento comum ideias empreendedoras que poderiam contribuir para a renovação económica de uma sociedade.

Também há personagens que procuram noutros campos profissionais a sua realização porque não reconhecem nos seus atuais empregos o ambiente onde possam ser felizes. Ainda que os salários possam ser tentadores, há aspetos éticos que se levantam na atividade profissional que podem tornar difíceis, senão insuportáveis, as relações laborais. Consciências eticamente sensíveis dificilmente estão disponíveis para recorrer a toda e qualquer estratégia que vise conseguir níveis sempre mais elevados de lucro, sem atender à violência desumana que se exerce sub-repticiamente sobre os clientes. Se procurar o lucro é legítimo, já não o será fazê-lo de qualquer forma e feitio. Os fins não justificam os meios. Infelizmente, podemos assistir todos os dias, através das notícias diárias que irrompem pela paz dos nossos lares, ao triunfo do mais soez maquiavelismo. Quando o que está em jogo é avultado, parece não haver limites ao comportamento humano. Para quê dar ao cliente a informação toda de que necessita para poder decidir, se posso ocultar a parte menos favorável dessa informação e levar o cliente a embarcar em negócios que podem revelar-se ruinosos?
Neste ponto, coloca-se também o inevitável problema da obediência. A quem devemos nós obedecer em primeira instância, quando os conflitos éticos se agudizam? Ao superior hierárquico ou à própria consciência? Podemos hipotecar a própria liberdade em nome da mera obediência cega a uma autoridade exterior que impõe uma dada conduta? Por outro lado, estaremos dispostos a suportar as danosas consequências de preferirmos seguir os ditames da consciência moral às ordens superiores? Podemos delegar no outro a decisão final sobre o que está bem e o que está mal? A história diz-nos que não. Jamais seremos justificados se nos deixarmos conduzir pelas instâncias de poder, abdicando de todo o espírito crítico e autonomia moral. Os únicos verdadeiramente responsáveis pelos atos que praticamos, tenham sido eles realizados sob a égide da própria vontade ou sob a estrita ordem de uma autoridade exterior, seremos sempre nós mesmos.
Hoje vivemos em sociedades sofisticadíssimas, com as quais os nossos antepassados trogloditas nem podiam sequer sonhar. Mas do ponto de vista moral, continuamos a guiar-nos pela mesma ordem selvática. Com uma agravante, enquanto eles eram pressionados por uma forte vigilância social, nós hoje diluímos tanto os laços sociais que ninguém se sente impelido a buscar o bem da comunidade quando o interesse individual é posto em causa.
A crítica a comportamentos humanos sobressai também quando se observam os níveis de exploração económica a que estão sujeitos os trabalhadores do setor da hotelaria, sobretudo no que se refere ao prolongamento excessivo dos horários de trabalho. Noutra vertente bem diferente, o texto assume um papel crítico face à exposição pessoal nas redes sociais e à possibilidade de tais informações poderem ser usadas por pessoas sem escrúpulos e mal-intencionadas. E é o próprio que, por ingenuidade ou desconhecimento da natureza humana, expõe a sua intimidade em praça pública, enquanto espera que do outro lado ninguém que aceda a tais informações as use para fins tenebrosos.
De forma menos gravosa, mas igualmente reprovável, alude-se aos favores e cunhas para obtenção de empregos, em troca de vantagens específicas. Ou a obtenção de certos lugares cimeiros não por mérito ou competência, mas por outras razões menos dignas.

O submundo do crime entra em ação como oponente em relação aos protagonistas. E não nos causa qualquer perplexidade que a criminalidade se guie por princípios que nada têm que ver com a ordem ética. Há outros interesses que impelem à ação, associados no romance à extensão da plataforma continental e à exploração económica dos fundos marinhos.
Os criminosos de grande calibre veem a sua identidade protegida dos olhares indiscretos do público porque habitam para lá de toda a suspeição. São os donos disto tudo: os que movem as pessoas como peças de xadrez, ao sabor discricionário da sua vontade omnipotente. Habitam espaços e tempos para lá do bem e do mal. Regem-se por obediências cuja identidade desconhecemos, embora possamos suspeitar. E afinal, o criminoso miúdo, aquele que salta para a liça de arma mão, aquele que rouba, maltrata, sequestra e assassina mais não é do que um mero peão no jogo do mundo, empurrado por forças realmente poderosas que escapam quase sempre ilesas. Também no crime, a arraia-miúda pode ser dispensada e, quando necessário, eliminada. A violência usada na relação com os outros virar-se-á, então, contra o homem violento, porque quem aceita o princípio da força no relacionamento interpessoal não pode esperar senão a aplicação do mesmo princípio em relação a si mesmo.

A história que este romance conta expõe igualmente uma série de relações afetivas atribuladas, mas recheadas de densidade humana. Desfiam-se relatos de relações desfeitas, de filhos desejados mas que se recusam a nascer, de conflitos interpessoais motivados por desentendimentos a que os problemas financeiros não são completamente alheios. Tudo isto é agravado ainda pelo eterno problema da incompreensão entre géneros, que aflora aqui ou ali na superfície do texto.
O conflito de valores e perspetivas de vida transparece também na narrativa. E aqui refiro-me ao conflito motivado por visões do mundo distintas: uma sob a orientação de valores morais bebidos no contexto do cristianismo de matriz católica e outra inteiramente alheia a tais constrangimentos. Uma das personagens, impelida por uma visão religiosa do mundo, concebe a legitimidade das relações sexuais apenas como manifestações do amor; a outra centra a sua atuação em torno do princípio do prazer inteiramente independente do amor.
No contexto do conflito de valores, o autor não se coibiu de expor no seu romance uma família tipologicamente alternativa, no sentido em que não se enquadra no esquema tradicional de família. Duas personagens femininas partilham a vida, sendo que uma está grávida. Trata-se, sem dúvida, de um tema escaldante. Mesmo as sociedades ocidentais, livres e democráticas, só agora estão a admitir alternativas aos modelos familiares que nos foram legados pela tradição judaico-cristã. Não admira que uma das personagens argumente desfavoravelmente com a ordem natural das coisas, supostamente quebrada em relações homoafetivas, e com a necessidade da criança ter também um pai, como se ter duas mães e nenhum pai fosse uma aberração da natureza.

O romance termina numa tonalidade enternecedoramente patriótica. É quase um apelo a que todos os que se reveem no país onde nasceram ou escolheram viver abandonem a letargia em que têm vivido e se lembrem de quem são, para projetar no futuro a sua própria identidade mais profunda.
Obrigado, João, pelo romance que aqui nos deixas.

Lisboa, 11/03/17

Jorge Paulo