sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Deus: ideia ou realidade?








À hora da refeição, as conversas fluem com os meus filhos. Adentramo-nos por caminhos que vão desde a ciência, até à condição humana ou à religião. Num desses dias, colocou-se, mais uma vez, a questão de Deus. Fiquei a saber que, para um deles, os rituais religiosos eram destituídos de significado, pelo que constituíam uma perda de tempo a que não queria realmente submeter-se.
Procurei justificar a existência de tais rituais, lembrando-lhe que o ser humano precisa deles para assinalar momentos fundamentais da vida. Muitos são seculares ou extrarreligiosos. Outros encontram-se no espaço onde a relação entre a história e a eternidade se quer impor, respondendo aos anseios dos que acreditam existir uma transcendência infinita para lá do universo físico.
Contudo, a minha tentativa parece não ter resultado. E o problema é ainda mais fundo do que parecia. A própria existência de Deus parece-lhe destituída de qualquer significado. A crença na sua existência ― o primeiro grau de toda a fé religiosa ― parece ter por base uma necessidade humana. Desde o advento da racionalidade na história da Terra, o ser humano tomou consciência da sua vulnerabilidade e da sua efemeridade. Precisava, por isso, de uma entidade que lhe garantisse a salvação. Terá sido essa a origem de toda a fé religiosa. Deus seria o garante da sua segurança e proteção face ao perigo de todas as ameaças à estabilidade e permanência da saúde e da vida humana. Resulta, portanto, de uma necessidade humana, seja ela a necessidade de projetar no além aquilo que desejaríamos ser e nos escapa por entre os dedos do destino, seja ela o desejo de eternidade, face à finitude que tudo consome, seja ela o desejo de perfeição ética assombrado pela falta moral, ou o desejo de perdão e de misericórdia, seja ainda a vontade de perceber a razão de fenómenos cuja causa lhe era inteiramente estranha ou a razão da própria orgânica do universo. Tudo quanto resultasse de alguma falha humana, de alguma incapacidade ou ignorância era rapidamente transposto para o plano divino. Na verdade, o desconhecimento das causas dos fenómenos é assustador. Não sabendo a sua origem, tais fenómenos parecem incontroláveis, imprevisíveis, destituídos de significado. Era necessário domá-los, atribuindo-lhes um rosto ao qual seria possível suplicar ou cuja vontade caprichosa tinha de ser aplacada, controlando assim os eventuais efeitos devastadores da sua suposta ira.
Tanto é verdade que a origem da ideia de Deus está na necessidade humana, que os deuses são, na forma como as religiões os descreveram, meras projeções das virtudes e dos defeitos do ser humano. Tal como os mitos os narram, estas entidades superiores amam, apiedam-se, revoltam-se, perdoam, desferem a sua vingança e o seu ciúme sobre os infratores, são legisladores e juízes, etc. Tudo atividades humanas que nada têm de transcendente ou divino.
De certa maneira, o meu filho tem razão. A excessiva antropomorfização de Deus levanta a suspeita de que esta entidade mais não é do que uma ideia criada pela mente humana com determinados fins. Por outro lado, mesmo que prescindíssemos da excessiva forma humana atribuída à divindade, esta continuaria a ser uma limitação intrínseca à nossa linguagem. Ou calamos Deus, porque indizível, porque mistério absoluto, porque fora dos parâmetros do universo no qual nos movemos e, assim, para lá de tudo quanto dissermos a seu respeito, ou ousamos dizer sobre ele alguma coisa, ainda que tenhamos consciência de que tudo quanto dissermos exprime apenas a “sua sombra”, como o meu filho acabou por dizer.
Lembrei-lhe o quanto interessante era essa imagem. Também Moisés teve essa experiência mística de encontro com o absoluto no Sinai. Mas só pôde ver as costas de Deus. O seu rosto estava-lhe velado, porque simplesmente não nos é possível jamais ver o seu rosto. A esfera real à qual pertence é inteiramente transcendente em relação à história humana e à história do universo.
Mas estaremos nós condenados a calar Deus por causa da indigência da nossa linguagem? Não me parece uma boa solução. Calá-lo é esquecê-lo. Se precisamos dele, temos obrigatoriamente de exprimir o que quer que seja a seu respeito, certos de que estaremos sempre bem longe de lhe desvelar o sentido. E será tão necessário falar dele como afirmar a sua absoluta impenetrabilidade. A dimensão na qual habita a sua glória transborda para lá dos limites do mundo material. Nele não haverá tempo ou espaço. Tudo é, simplesmente. Tudo lhe basta. Tudo nele sobrevive, mas ele é infinitamente mais do que tudo quanto veio a acontecer nas coordenadas espácio-temporais à qual a nossa existência se circunscreve.
Também não há dúvida de que a fé em Deus resulta das necessidades humanas de salvaguarda da sua integridade, de salvação face à finitude que ameaça o ser, de proteção face a uma pluralidade de perigos que o ser humano não consegue controlar. Mas esta evidência nada diz a respeito da existência desse ser. Esta é independente das necessidades humanas. Por outro lado, o facto de derivar historicamente delas, a ideia de Deus parece ser apenas uma projeção mental sem referência à realidade.
O meu filho está profundamente marcado pelo espírito moderno e científico. Não o censuro por isso. No fundo, também eu sou um filho deste tempo e sempre quis que eles crescessem familiarizados com os valores científicos. Que seria da sociedade atual sem esse precioso conhecimento? Porém, tal mundivisão vem colocar entraves significativos à visão religiosa tradicional do mundo. Em ciência, cada afirmação tem de se fundar em factos, em dados concretos que brotam da realidade e não em meras especulações sustentadas em opiniões sem âncora no mundo material. Alguém que esteja familiarizado com esta forma de pensamento alargá-la-á a todos os âmbitos (ou a muitos âmbitos) da vida pessoal. Quem afirma algo tem a obrigação moral de alicerçar as suas asserções em evidências ancoradas nos fenómenos empíricos. O critério da verdade é a relação do que dizemos com a realidade dos factos. É certo que a linguagem científica vai muito para lá da mera descrição dos fenómenos observados. Mas todo o aparato teórico e explicativo para ser válido tem de prever fenómenos que possam ser controlados pela experiência.
Ora o discurso sobre Deus não se funda na experiência empírica. Não há vestígios de Deus no mundo material onde habitamos. Pelo menos não os há de forma clara e distinta, como diria Descartes, ou evidente, ou incontestável. Por isso, tudo quanto se refere a Deus é especulação sem fundamento na realidade dos factos. Quais os fenómenos que apontam para a ação de Deus no mundo? A ciência veio sistematicamente retirar a Deus o seu poder explicativo. Aquilo que outrora era coisa divina ou resultava da sua ação é hoje atribuído a causas meramente naturais. Deus tornou-se, do ponto de vista da explicação dos fenómenos naturais, uma hipótese inútil.
E se assim é, para quê mantermo-nos leais a esse fantasma que outrora dominava a nossa conceção da vida?
Decerto que não encontraremos razões determinantes para permanecermos sob o olhar benevolente de Deus. Todas as supostas provas sucumbiram à erosão do tempo, ao avanço da reflexão filosófica e à inclemência da ciência. Já não temos âncoras às quais nos agarrarmos para não nos afundarmos no oceano das nossas descrenças (ou da nossa lucidez, como diriam outros).
E apesar disso, ainda é possível, creio eu, manter Deus no jogo da vida. Não porque ele explique o que a nossa ignorância não pode explicar, não porque ele nos mantenha afastados dos perigos do mundo, não porque ele nos acuda ― como nos acode outro ser humano ― em momentos de aflição… Deus não é uma palavra vazia ou uma ideia sem referente porque só a sua presença poderá trazer à existência humana e ao universo um sentido pleno. Se Deus existir, poderemos esperar que a verdade, a justiça e a bondade tenham a palavra definitiva. De outro modo, que sentido teve a vida de todos quantos sucumbiram vítimas da maldade alheia? Quem fará justiça aos deserdados da Terra que morreram antes de lhes ser reconhecida plenamente a sua condição de seres humanos?
Face à falência de tudo quanto se inscreve nos limites do nosso universo, somos convidados a confiar na existência de alguém que tudo sustente, que tudo recupere da poeira inóspita do esquecimento. Por que razão haveria o nosso desejo de eternidade ser apenas o maior equívoco que a nossa mente coletiva forjou? Pode ser qua assim seja. Não tenho qualquer tipo de certeza. Mas seria desolador se esta ideia que a evolução natural determinou fosse tão-somente um engano cruel.

2 comentários:

  1. Se bem percebi, queres dizer, então, que Deus é útil. Rousseau estaria de acordo contigo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Não é só isso que quero dizer, mas sim, Deus é útil ao ser humano.

      Eliminar