sábado, 17 de dezembro de 2016

"A morte é a curva da estrada"



Foi ontem a enterrar. O frio era lancinante e enquanto as rajadas trespassavam os passos lentos e compassados dos que dela se foram despedir, vi descer à cova a pessoa que me amou incondicionalmente, como poucas o fazem.
Durante longos anos, pôs-me a salvo do sofrimento imerecido e injusto a que nenhuma criança jamais deveria ser submetida.
Apesar de tudo quanto sofreu, a minha tia viveu plenamente. Poucas terão sido as vezes que não pôde escolher o seu próprio caminho. Talvez o maior óbice que enfrentou tenha sido o analfabetismo de que nunca se haveria de libertar. Mas soube compensar esta desvantagem com a sua inteligência prática, o seu enorme sentido de oportunidade e o seu empreendedorismo. E não fosse o destino lhe ter arrebatado o marido bem cedo, teria decerto triunfado ainda mais. O que teria sido esta mulher, caso tivesse tido acesso ao precioso bem da aprendizagem escolar?
Decidida e teimosa, a minha tia encarou os mais variados desafios com denodo e coragem. Jamais a vi voltar as costas às dificuldades. Afrontava-as e resolvia de forma perspicaz as limitações que lhe queriam impor. Às vezes, parecia cruel. Sobretudo quando confrontava as pessoas com as próprias tolices. Gabava-se de dizer o que tinha de ser dito, como se tivéssemos o direito de educar o mundo com a audácia, por vezes impertinente, do nosso discurso. Decerto não deixava para amanhã o que podia dizer hoje. Outras vezes (a maior parte das ocasiões), revelava-se compassiva com o sofrimento alheio e pronta a dar a mão a quem havia tropeçado no chão acidentado do destino.
Não posso deixar de estar eternamente grato a esta mulher. Não tanto pelos bens que me deu, mas muito mais pela educação e pelos valores éticos que a sua ação e as suas palavras (de uma forma geral, bastante alinhadas com as atitudes) me mostravam. Não seria quem sou hoje se o meu percurso vital não tivesse passado por ela. Em vez disso, estou-lhe grato por me ter acolhido na intimidade do seu lar e ter feito de mim a pessoa que sou. E se alguma coisa construí na vida, em larga medida o devo à ação desta mulher analfabeta que sabia melhor que ninguém ler as páginas da vida.
Enquanto o caixão descia ao coração da Terra, lembrei-me que só um deus nos poderia salvar desse vazio absoluto sobre o qual nos debruçamos logo ao nascer, à beira do qual crescemos e junto ao qual havemos de morrer. E porque a amei sempre, apesar de alguns desaguisados que tivemos, jamais serei convencido a prescindir dessa infinita misericórdia que nos promete tudo restabelecer, mesmo depois de a morte ter tragado a pequena chama que deu significado à vida de todos os que amámos.

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