quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Amor e preconceito




Terminei a leitura da melhor tragédia moderna que até agora li. Raduan Nassar recebeu merecidamente, este ano, o prestigiado prémio Camões. “Lavoura arcaica” é simplesmente uma obra-prima da literatura em língua portuguesa. De um lirismo comovente e sensível, que não prejudica as estruturas narrativas, as suas páginas revelam o retorno atormentado de André ao seio da sua família primordial, após a fuga que intentou por considerar impossível achar nela a felicidade sonhada.
O diálogo do texto com outros textos de referência é profundo, evidente e abundante. Acima de todos, os textos bíblicos flutuam no discurso das personagens, na interpretação que fazem das circunstâncias em que vivem ou viveram e nas estruturas narrativas. E mais do que todos, a parábola do filho pródigo domina o esquema narrativo a que a ação obedece.
Não julguemos, porém, que é uma mera transposição do belíssimo texto bíblico para uma história ocorrida noutro contexto cultural, temporal e geográfico. Não é assim de facto. A personagem paterna, que ameaça, como uma sombra disforme e permanente pairando sobre o tempo, o decurso dos eventos, é tudo menos o pai misericordioso da parábola neotestamentária. É até a sua completa inversão. Enquanto este se não perde em inquéritos, processos ou interrogatórios, mas corre desatinadamente ao encontro do filho esfarrapado no corpo e na alma, incluindo-o no contexto salvífico de onde se havia extraviado, aquele pede explicações, acusa, denuncia a suposta arrogância do filho, derrotado pelos acontecimentos hostis que lhe subverteram a esperança, investe contra tudo quanto o filho pode representar de ameaça à sua autoridade incontestável, reduzindo-o ao silêncio… Nada que se possa confundir com o acolhimento sem reservas que a personagem evangélica dedica ao destroço humano em que o seu filho se transformara. E é exatamente esta atitude inaudível do pai que constitui uma revolução e um escândalo em relação à religião judaica dominante, amarrada ao mérito e à lei, inflexível e cega, que lhe dava sustentação. Apesar de tudo quanto se possa dizer, não é o amor absoluto que preside à ação desse Deus das estruturas dominantes da religião judaica, encarcerado no presídio da sua própria lei, mas as normas jurídicas que preconceitos seculares foram gravando em tábuas inertes que um céu suposto havia ditado. E é exatamente este Deus servilmente submisso aos preceitos da tradição corroída pela ferrugem do tempo que o pai da “Lavoura arcaica” representa.
Se há personagem que mais se aproxima do texto bíblico é o filho mais velho. No relato evangélico, é ele quem se acha vinculado à religião do mérito, ao binómio pecado-castigo, ao esquecimento do amor desinteressado e inclusivo, ao deus menor que a religião tradicional tanto propalara… No valioso romance de Nassar, é também Pedro, o filho mais velho, que renuncia ao amor face à omnipotência da lei daninha e da vontade paterna que com ela se identifica.
Apenas num aspeto, se li bem o texto, André, o “filho pródigo”, se aproxima do seu congénere: a fuga da casa paterna e tudo quanto ela para si representava. Mas há diferenças substanciais entre os dois protagonistas. No romance, André não vai à procura da sua felicidade alhures, ainda que se engane a respeito do que o possa ou não fazer feliz. Ele sabe que é na casa do pai que poderia ter sido feliz, se a sua irmã o não tivesse rejeitado. E é por isso que ele tem consciência de que nem ali nem em qualquer outro lugar terá descanso, porque lhe foi negada a única via da sua salvação: o trágico e impossível amor incestuoso.
A história é, por isso, simples, mas levanta questões de vária ordem, desde problemas éticos a questões que se prendem com os valores socialmente partilhados e, em muitas situações, carecidos de fundamento racional, à espinhosa oposição entre liberdade individual e coação social, felicidade pessoal e obediência a preceitos e costumes, a emancipação individual e a autoridade heterónoma, etc.
Pode uma sociedade impor aos seus membros condutas calibradas, supostamente indiscutíveis, que lhes neguem o direito à felicidade? Durante séculos, a humanidade viveu sob o jugo de estruturas sociais, religiosas e políticas que não hesitariam em responder afirmativamente a esta pergunta. Tais reguladores do comportamento moral achavam-se no direito de impor aos outros poderosos e sufocantes fardos. Era a prevalência absoluta das estruturas sociais sobre a ténue e irreconhecível liberdade individual. Foi o advento da modernidade que veio subverter esta relação tida agora como um insustentável apagamento do sujeito às mãos das classes dominantes, fazedoras das regras e das leis que os próprios legisladores, em muitas situações, não praticavam. E é esta dicotomia entre o tempo pré-moderno, que a fazenda rural do pai de André representa, e o tempo moderno onde o valor dominante é a liberdade individual e o seu cumprimento cabal nas várias situações em que a vida se desenrola.
Torna-se claro, portanto, que o sistema arcaico sobre o qual a lavoura quotidiana se efetua não admite nem pode admitir desvios à regra. É que uma pedra no terreno agrícola que cada indivíduo é pode pôr em causa a fertilidade da colheita. Só removendo as pedras recalcitrantes se poderá arar o todo com a relha dos valores antigos. Não resta dúvida que André é essa pedra importuna que a ordem paterna terá de aniquilar. E, contudo, é Ana que sofre até ao martírio a indignação odiosa do pai! Porquê? Porque nesse sistema de valores não é ao homem que é atribuída a última responsabilidade pelo pecado sexual. É da sua própria natureza ser atraído pelo prazer. Ainda que não corrobore, o sistema axial vigente tolera um certo grau de “perversão” masculina. Mas é absolutamente intolerante à lascívia feminina que sobre o macho exerce a sua imperdoável atração. É a narrativa mítica do paraíso terrestre, na qual Eva se deixa levar no canto da serpente, arrastando consigo o homem. Contra tudo aquilo que possamos defender, nós, homens e mulheres filhos da modernidade, paira sobre muitos discursos esta sombra antiga que atribui à mulher um poder ilimitado sobre o homem “desvalido” e incapaz de resistir ao apelo demoníaco da fêmea. Tal visão não passaria um atestado de menoridade ao homem, face a uma mulher todo-poderosa e adulta? Sem dúvida que sim, mas o objetivo era redimir o homem da responsabilidade moral e até legal, ao mesmo tempo que a fazia recair implacavelmente sobre a cabeça da mulher. E é assim que vemos, atónitos, a ira do pai desferir sobre a “lasciva” Ana o seu golpe de morte!
Mas antes da tragédia se consumar, quando André ainda não abalara da fazenda, havia proposto a Ana contentarem-se “com as ferramentas espontâneas que podem ser usadas para forjar nossa união: o segredo contumaz, mesclado pela mentira sorrateira e pelos laivos de um subtil cinismo”. Não lhes sendo dada, no seio de uma tal ordem das coisas, a possibilidade de assumirem o seu amor publicamente, outra alternativa não lhes resta se não o cinismo que lhes pode assegurar simultaneamente a felicidade e a sobrevivência. Para André é claro que, neste amor proibido (porque incestuoso), não há “manifestação de egoísmo, conspurcação dos costumes ou ameaça à espécie”, as três pechas de que poderiam ser acusados. Tem consciência de que o “curador impertinente das virtudes coletivas” (o pai e o irmão mais velho) vive também de aparências, incapaz de confessar (talvez até para si mesmo) que “aprumado na postura, é fácil surpreendê-lo piscando o olho com malícia”, como outrora os fariseus faziam quando atavam fardos pesados e insuportáveis e os colocavam sobre os ombros dos outros, mas eles não os deslocavam sequer com um dedo (cf. Mt 23, 4).
Esse sustentáculo da ordem instituída é, também para André, um deus “discriminador, piolhento e vingativo” que não passa “de um vassalo, de um subalterno, de um promulgador de tábuas insuficientes, incapaz de perceber que suas leis são a lenha resinosa que alimenta a constância do Fogo Eterno!” Trata-se, pois, de um deus desumano, anti-humano, adverso aos queixumes e súplicas dos que pretendem apenas partilhar da exuberância da vida, amarfanhando as suas pretensões de comer à mesa do banquete servido aos que a vida bafejou com a sua sorte. Em suma: um deus que é, ele próprio, o pórtico voraz do inferno. E é por isso mesmo que André sente “ímpetos de empalar teus santos, de varar teus anjos tenros, de dar uma dentada no coração de Cristo!”
Não pensemos, todavia, que o único sagrado de André é esta desfiguração da vida. Ele vê o seu amor como um “ritual desse calor antigo, inscrito sempre em ouro na lombada dos livros sacros”. Há portanto um outro sagrado que se não perde em condenações espúrias, que não vê na sexualidade e na feminilidade um embrutecimento do humano, mas, bem pelo contrário, assume o amor, bem como a sua manifestação erótica, qualquer que seja o destinatário, como a grande celebração da vida.
Rejeitado por Ana, antes de se fazer à estrada, André sente pela primeira vez a solidão inquietante. Vive no mundo sem o afago do amor, sem a presença da única que lhe traria o consolo da sua companhia. Abandonado por ela e pelo Deus que esse amor representa, só lhe resta vaguear pelo mundo, preenchendo o tempo com devaneios que o hão de distrair do núcleo da própria existência.
O regresso de André é ambíguo. Não se trata, de modo algum, do retorno esperançoso do filho pródigo da parábola evangélica. É mera condescendência na derrota face a qualquer orientação vital, uma vez que a única com sentido se esvaiu na recusa de Ana.
A mãe é uma personagem curiosa. Apagada e obediente, submete-se, em tudo, à vontade do marido, como se espera nesse acanhado sistema de valores. Mas o seu silêncio não significa acatamento do comportamento masculino. Ela é a única que, inscrita nesse coletivo anquilosado, dá prioridade ao amor sobre a lei, cuida desmesuradamente até ao limite, sofre no seu coração subjugado o sofrimento do filho atribulado. Se para o pai, não é o filho que conta, mas o sistema global onde se move cada um, para a mãe não há dúvida de que o cerne do seu desvelo é a pessoa concreta e não os códigos abstratos a que todos devem obedecer. No entanto, para o sistema de valores vigente, a mãe e os seus rebentos mais diretos (André, Ana e Lula) eram “uma anomalia, uma protuberância mórbida, um enxerto junto ao tronco talvez funesto, pela carga do afeto”. A mãe é o afeto, o pai a lei; a mãe é o amor, o pai a ordem que não cede. E é por isso que, após o confronto com a pertinácia do pai, André se entregou “feito menino à pressão daqueles dedos grossos que lhe apertavam uma das faces contra o repouso antigo do seio materno”.
A colisão entre os dois sistemas de valores é inevitável. A saúde de que fala o pai é, para André, “uma semente de enfermidade”, tal como na doença de André “existe uma poderosa semente de saúde”. Não há dúvida de que a letra da lei mata, mas do amor brota abundantemente a saúde e a vida. André, portanto, já não reconhece os valores que o esmagam e considera “um triste fazer de conta viver na pele de terceiros”. A família é o ambiente hostil de que se queixa André. Mas o pai não o compreende. Como poderia compreendê-lo? A união familiar é, para este, o encontro diário com a salvação. E também o seria para André, não fosse o caso de tal união lhe impor restrições que ele acha insustentáveis, sobretudo porque anulam a mais poderosa força que impulsiona todo o indivíduo: o amor. O direito à vida que André reivindica não é simplesmente o direito a viver fisicamente. Pode-se deambular pelo mundo sem, de facto, existir no mais profundo sentido. Porque existir é poder cumprir-se, assumindo, no exercício da liberdade autoconstrutora, tudo quanto exalta a alegria e a celebração festiva de cada instante.
Numa tão grande afronta ao poder, o pai vê-se na obrigação de reduzir André ao silêncio e de o acusar de soberba, orgulho, desprezo e egoísmo. André teria intenção de “demolir agora o que levou milénios para se construir”. A tradição é, no referencial paterno, incontestável e nenhum ser humano pode ter a pretensão de estabelecer qualquer tipo de rutura no tecido secular que o passado foi urdindo.
André reclama, contudo, a sua humilde condição de ser submisso, pois todas as ilusões se escoaram na recusa de Ana. Tudo quanto faça ou não faça tem exatamente o mesmo valor, face à solidão em que vive. Só encontrará um pouco de refrigério no espaço erótico do seu quarto quando corre a mão pelo “peito liso” de Lula, no qual a “pele branda, morna, tinha a textura de um lírio”. Também Lula, tal como André e Ana, pertence àquele ramo sensível que o pai considerava fraco e insalubre! E mais não é do que a representação do amor e da vida.
O auge da narrativa é a festa para celebrar o regresso do filho pródigo. Surpreendentemente, Ana mostra-se bela, deslumbrante e perigosamente sedutora, ao arrepio daquela travessia no deserto a que a sua piedade a condenara. Fica por explicar como terá conseguido desembaraçar-se das peias despóticas que a religião sustentava.
Sob o olhar mortal da delação de Pedro, o pai “ferido nos seus preceitos” e “possuído de cólera divina” desfere o golpe letal sobre a mulher que se engalanara para celebrar o regresso do amado à alcova escondida na sua imaginação. A morte trágica é a única saída para o inferno castrador de uma moral angustiada. Como infelizmente a realidade bem denota.