sexta-feira, 3 de junho de 2016

Lamento de um órfão



No tempo em que ninguém festejava o dia dos meus anos,
Eu era infeliz e todos estavam mortos.
Na casa estranha onde cresci,
Até eu fazer anos era uma maldição de há séculos,
E a tristeza de todos, e a minha, enchia a malga no refeitório das manhãs.

No tempo em que ninguém festejava o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande doença de perceber tudo quanto me acontecera,
De ser excessivamente lúcido entre paredes desertas,
E de ter perdido as esperanças que talvez outros houvessem tido por mim.
Nunca tive esperanças, que as não sabia ter.
Quando olhava para a vida, não lhe reconhecia sentido.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de lágrimas e esquecimento.
O que fui de serões na solidão do quarto,
O que fui de ninguém me amar e eu não ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
Tão perto do que sou!…
(E o eco disso todos os dias…)
O tempo em que ninguém festejava o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é essa humidade nos corredores do fim das casas,
Pondo verdume nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa que nunca tive treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é nunca ter havido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que ninguém festejava o dia dos meus anos…
Como uma pessoa sem sonho nem destino, esse tempo!
Desejo físico da alma de jamais se achar ali outra vez,
E, contudo, moram comigo todos os minutos que fui
Numa viagem metafísica e infernal,
Com uma unidade medonha de eu para mim…
Ah! Comer o passado que nunca foi
Como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com muitos lugares, louça com desenhos sumidos, quebrada nos rebordos,
No refeitório onde comia a sopa da minha angústia.
Os aparadores com as loiças do costume e nenhuma das que ousara querer.
As senhoras velhas, que mães nunca seriam.
Os gritos das crianças… e nada era por minha causa,
Mesmo no dia dos meus anos,
No tempo em que não era para os outros coisa alguma…

Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Nunca fiz anos.
Duro apenas.
Somam-se-me dias.
Serei velho desde sempre.
Mais nada.
Raiva de nunca haver guardado
um passado qualquer na algibeira da vida:
Talvez o tempo em que alguém me houvesse amado
Enquanto punha sobre a mesa do carinho
A memória das minhas tropelias,
No dia infinito dos meus anos perdidos!

Jorge Paulo. Pastiche de Álvaro de Campos, Aniversário.

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