sexta-feira, 3 de junho de 2016

Ascensor




Íamos os dois no mesmo exíguo espaço,
subindo, andar após andar.
Um escasso “bom dia” marcou o encontro
e a pequena fresta que nos franqueia o mundo
se encerrou ali, na palidez monótona do instante.
Atentamente, fitámos as paredes cor de cinza,
como se levassem inscritas as memórias da vida
e eram apenas a evasão possível
no fugaz encontro que um mero “bom dia” entardeceu.

Que dirá para si mesmo a minha ocasional companhia
que comigo carrega o desconforto do momento?
Talvez pense de mim que guardo no silêncio
o ódio suposto que lhe não tenho.
Fixo dentro o arrepio das muralhas erguidas,
a lucidez dos gestos que não tive,
a maresia das palavras indizíveis.
(Somos segredos inefáveis que o tempo murmurou
e assim ficamos no espaço acanhado
onde o abismo nos devora.)

Parámos, então, no piso que eu não soube.
― Não é aqui que sai? ― inquiriu.
― Ah! É aqui mesmo! ― e um sorriso
levou, no erro, a penúria do silêncio desconforme.
Fechou-se a porta sobre o futuro que não houve.
Eu aqui e ela do outro lado da falésia
onde o mundo fervilha para cada ser.
Pus a chave à porta e renasci quotidiano
num dia qualquer do tempo desigual,
onde uma estranha turbulência nos fez acontecer.

Jorge Paulo

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