domingo, 20 de março de 2016

Uma nota pessoal



Sempre senti em mim um apelo irreprimível pelo Sagrado. Deus (ou o que quer que lhe queiram chamar) foi e continua a ser, para mim, uma necessidade existencial inderrogável. Parece-me, desde que o uso da razão se instalou em mim, que o mundo humano onde habitamos e o universo onde esse mundo é apenas uma poalha indefinida não têm qualquer espécie de sentido sem a existência daquele Absoluto que lhes serve de suporte vital. Sem fundamento, que seria o mundo? Sem Esperança absoluta, como poderia alguma vez fazer sentido um mundo assombrado pelo mal, pela injustiça, pela mentira, pela vingança ou pelo ódio? Assim, creio que para lá dos confins inimagináveis, mas finitos, do universo em que surgimos como dádiva inteiramente gratuita, haverá o Destino transcendente e numinoso que há de dissipar as trevas que foram assolando a nossa efémera tristeza.
Ainda lembro nitidamente a minha primeira crise de fé. Debatia-me na altura com os dados da ciência sobre a origem das espécies e a origem do ser humano, no quadro do evolucionismo darwiniano. A colisão entre ciência e fé (pelo menos, de acordo com a interpretação que as Igrejas haviam feito no século XIX) era um facto histórico que merecia a minha maior preocupação. O cristianismo havia lido o relato do Génesis de forma historicista, como se tal relato houvesse sido escrito no âmbito do género historiográfico e não no âmbito do género mitológico. Estava eu no nono ano de escolaridade e disse para mim mesmo que abandonaria a Igreja (mas talvez não o sentimento religioso, demasiado necessário ao meu equilíbrio psicoespiritual) caso esta houvesse mantido, contra todas as evidências, a hipótese fixista sobre a origem das espécies. Não foi necessário. Pude confirmar que tinha havido uma evolução na posição da Igreja, pressionada pelos recentes estudos bíblicos que se haviam desenvolvido no quadro da teoria dos géneros literários (hoje amplamente aceite em todos os estudos de qualquer tipo de literatura) e da análise histórico-crítica dos textos bíblicos. Tais investigações valeram a muitos biblistas a sua condenação pela estrutura da Igreja. No seu dogmatismo serôdio, a Igreja recusava-se a aceitar a liberdade de pensamento, que é a condição de possibilidade de toda a investigação séria. Mas, paulatinamente, tais pesquisas foram surtindo o seu efeito. Algumas gerações depois do seu início, a instituição teve de capitular face às evidências recolhidas. Ao tomar conhecimento da posição atual da Igreja a respeito do problema que atormentava a minha relação com a Igreja, pude permanecer calmamente onde sempre estivera.
Nesse tempo, ainda não percebera que a realidade é demasiado complexa para se encaixar no sistema dualista onde o meu pensamento se movia. Há, sem dúvida, matizes diversificados. Ainda não havia entendido que podemos permanecer no seio de uma instituição, apesar de não subscrevermos tudo aquilo que afirma, defende ou faz. Basta que estejamos em sintonia com o essencial da sua visão do mundo. E, claro, tal visão, tal núcleo central da identidade de uma instituição está sujeito a múltiplas interpretações, como tudo o que é humano. Mais tarde, percebi que haviam feito mais pela fé cristã os grandes investigadores (biblistas e teólogos) que ousaram repensar as teorias tradicionais, tendo, por isso, sido vítimas da arrogância e da prepotência institucional, mantendo-se, contudo, no seio da Igreja, do que os que a abandonaram quando o mar encapelado fazia prever um perigoso naufrágio. É dentro das instituições que elas se reformam, resistindo à irracionalidade do mero comportamento gregário, enfrentando uma tradição supostamente inamovível ou passando pelo crivo da razão as ideias estabelecidas que outros consideram intocáveis.
Entretanto, achei que o apelo do Sagrado era, em mim, tão poderoso que merecia a total reorientação da minha vida. E foi assim que deliberei solicitar a uma congregação religiosa que me acolhesse, porque pretendia dedicar a totalidade da minha vida ao anúncio da mensagem cristã. Estive no seminário cerca de sete anos. Tempo suficiente para perceber que dificilmente a minha índole seria compatível com tal forma de vida. Por isso, com a mesma sinceridade com que entrei, achei por bem abandonar a vocação estritamente religiosa. Quais as motivações que estiveram na base da minha decisão?
De um modo geral, as pessoas acreditam que a única motivação suficientemente forte para justificar essa alteração de rumo se prende com a necessidade de constituir família e, o mais das vezes, com alguma situação de enamoramento que terá sitiado o mundo psicoafetivo do foragido. Não foi assim comigo.
Era demasiado livre para me sentir feliz no âmbito de uma instituição que coartava, nos pormenores quotidianos, a possibilidade de eu deliberar sobre situações da minha existência. Sob as fileiras de uma congregação religiosa, jurava obediência aos legítimos superiores, estando à mercê da vontade deles, mesmo quando tal vontade se opunha terminantemente ao meu temperamento pessoal. Teria de renunciar a uma boa parte de mim mesmo. E como o ser humano é essencialmente uma liberdade que se constrói todos os dias nas decisões que toma, teria de renunciar ao caráter plenamente humano da minha existência. Na verdade, todas as pessoas vivem sob tutela até se emanciparem dos pais ou educadores e construírem o próprio destino, a partir do uso difícil mas gratificante da autonomia racional. Ora, o que me pediam era a renúncia a esta libertação de toda a tutela. Era pedir o que eu não estava em condições de oferecer. Como suportaria eu viver sob o comando alheio, sem aquela margem de liberdade a que tinha direito?
Bem sei que a nossa liberdade está inegavelmente condicionada por muitos fatores e que, nas circunstâncias em que vivo, muitas das nossas opções são, em maior ou menor grau, motivadas por fatores externos. No entanto, a vivência numa comunidade religiosa, do meu ponto de vista necessariamente lacunar, produzia tão grandes impedimentos à minha liberdade, que se tornaria insuportável viver sob a batuta de outros maestros, abdicando do juízo da própria consciência soberana.
É verdade que ser livre tem os seus inconvenientes. Para muitos, é mais cómodo suportar as vicissitudes da vida sob tutela do que assumir total responsabilidade pela própria existência. Se tudo quanto nos acontece não depender da nossa vontade, nenhuma responsabilidade ética nos será assacada. O obediente estrito atribui ao comandante a responsabilidade pelos atos que pratica. Mas ao procurar libertar-se de tal responsabilidade, esmorece nele a plena condição humana. Kant falava de preguiça. E tinha razão. Os que se deixam vencer pela preguiça, acomodam-se à corrente do rio da vida e preferem que seja a sua força a levá-los para a foz do que serem eles próprios a navegar sobre as águas, ora calmas ora traiçoeiras, com um propósito nem sempre compatível com a direção que a corrente imprime. E ao sujeitarem-se globalmente à vontade alheia, tornam-se negligentes e submissos. Restringem, assim, a própria identidade, à mera condição de objetos e negam o percurso vital que cada um é chamado a trilhar, a partir da sua quase inesgotável originalidade criadora.
Assemelham-se ao homem insensato que escavou a terra para lá sepultar o seu talento no esquecimento da própria condição de ser humano. Embora tenha recebido menos que os outros (porque a condição de partida é diferente em cada ser humano), deveria ter posto a render o que lhe fora concedido. Em vez disso, assumiu o papel sombrio de um “servo inútil” que, tolhido pelo medo de tomar nas próprias mãos o seu destino, descansou à sombra da sua ociosidade perversa.
No que me toca, prefiro errar vivendo do que gozar daquela inerrância pacata e irresponsável que toda a subserviência experimenta.

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