sábado, 12 de março de 2016

Dois poemas publicados na revista dos Pupilos do Exército



Sangue nos ombros das cidades

Paris, 13/11/2015

A infâmia, como um fio de vento sobre a mentira…
Um grito de morte invocando a vida,
na trémula inconsciência da tarde!
Como toalhas dobradas no mofo das gavetas,
há propósitos que se não estendem sobre a mesa dos dias.
Secretos e vis, removem a clareza do tempo
como um disfarce de terror nas ruas da cidade tranquila.
Há sombras que se não dispersam, ainda que a manhã regresse
e o ódio varrido com o sangue dos cadáveres.
E eu e tu, habitantes serenos de todas as cidades,
que faremos de nós mesmos, acossados pelo medo?
Estar aqui é resistir
como árvores de raiz na vida
que o temporal severo não deliu.
E assim permaneçamos onde a cidade não esquece,
onde o sangue nos umbrais das portas relembra e afugenta a morte,
onde o ódio arrefece sob o frio da noite,
onde a vasta solidão de cada ser se foi no punhal do tempo.
E tu, amigo, que trazes nos olhos a cor dos vendavais,
depõe as armas aos pés dessa lonjura onde tudo se recolhe
e tudo quanto existe foi amado
e amado permanece!



Aquela lâmpada mortiça

Há ainda luz onde a luz não toca.
Um pequeno pincel de vertigens
sobre a tela escancarada.
E o mundo inteiro e fértil nas cores do momento.
Tudo remete para a fronteira do impossível
e apesar disso
há ainda luz onde a luz se retrai.

E tu ― alça no corpo do mundo ―
resgatado ao esquecimento a que foste votado,
reabre ainda as fraturas em que a noite
profunda, eterna, intemporal
se abriga no teu nome esquivo.
Desdobra silêncios sobre a nódoa que deixamos
como pegadas de ciúme
na toalha ruidosa dos dias ressumados.

E talvez assim
ressurja, na ocultação da vida,
aquela lâmpada mortiça que a noite não apaga.

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