quarta-feira, 23 de setembro de 2015

De novo, o arame farpado da nossa indiferença



Observo, num misto de incredulidade e indignação, tudo quanto está a acontecer na Hungria. Constitui, sem dúvida, uma reviravolta inaudita no caminho que a Europa tem percorrido desde a sua fundação. Uma viragem jurídica, mas também, e sobretudo, no universo de valores que a tem guiado desses os seus alvores. Pergunto-me até quando os restantes países da União suportarão a atitude unilateral, em oposição inadmissível a todas as cartas de direitos humanos, que a Hungria tem assumido, como protagonista de ações xenófobas, vincadas pela indiferença e pela intransigência desumana.
Em 1989, foram derrubados os muros físicos que separavam a Europa, símbolos inequívocos das muralhas ideológicas que se haviam interposto impiedosamente na relação entre os dois blocos político-militares mundiais. Na verdade, tratava-se de duas Europas distintas e inconciliáveis. De um lado, a utopia da justiça e da igualdade, do outro, a utopia da liberdade. A Oriente, os cidadãos amordaçados ansiavam pela libertação individual e social; a Ocidente, as desigualdades sociais mais ou menos acentuadas e o desinteresse dos Estados pelo cuidado das margens, que todo o sistema competitivo comporta, provocavam tensões sociais de médio ou grande alcance. Porém, 1989 ficou para a história como o tempo da unidade europeia e da libertação definitiva do Oriente oprimido. Foi a vitória da liberdade sobre a igualdade, da propriedade privada sobre o destino universal dos bens, da competição aguerrida sobre a cooperação. Tal revolução não sangrenta não conduziu, como muitos vaticinaram, ao desabar das ideologias, mas antes ao triunfo de uma delas sobre todas as alternativas. Muitos quiseram mesmo acreditar que se tratava do fim da história, da vitória de um modelo incontornável de organização social, económica e política. Se hoje permanecemos nesta ilusão de sentido único, segundo a qual não há alternativa ao paradigma vigente, as contradições internas do capitalismo têm abalado vigorosamente as fundações do sistema internacional, sobretudo na sua vertente económica e financeira. Novas barreiras foram erguidas entre países ricos e países pobres, entre vítimas das crises do sistema financeiro global e os que, em tais circunstâncias, engordam os seus proventos, entre uma classe média agónica e uma elite minoritária, mas altamente poderosa, de bem-sucedidos, entre gentes que tiveram a sorte de ter nascido em determinadas zonas do globo e gentes a quem calhou o infortúnio de ter vindo ao mundo exatamente em áreas fustigadas pela pobreza degradante, por epidemias brutais ou por guerras sinistras, também alimentadas, voluntária ou involuntariamente, pelo Ocidente abastado.
Os muros que a Hungria ergue são símbolos das grandes cisões no interior da humanidade. E se a Europa se perfilava ― desde a sua fundação, passando pelo derrube dos muros que a dividiam até 1989 ― como espaço onde vingava a unidade sobre todas as barreiras que outrora haviam oposto os povos, a situação atual parece encaminhar-se para a reposição das muralhas seculares que, desde tempos remotos, têm atormentado as culturas humanas, incluindo o espaço europeu. É que não basta derrubar as trincheiras físicas, é preciso, sobretudo, derribar as muralhas psicológicas e afetivas que infetam o coração humano desde que a humanidade despontou na aurora do tempo, há cerca de cento e cinquenta mil anos. E as principais trincheiras serão talvez, segundo creio, o egoísmo ― que centra o indivíduo ou o grupo sobre si próprio, lutando pela manutenção exclusiva dos seus interesses, sem atender minimamente aos interesses do outro, que se pode apresentar sob a forma de um nacionalismo ideológico ou de um qualquer tradicionalismo fundamentalista encerrado nos seus próprios limites ― e a resistência em assumir a posição do outro ― que pode assumir as roupagens de uma indiferença fria e letal, incapaz de gerar o mais ténue sentimento de compaixão, ou mesmo de uma visão ostensivamente discriminatória. Parecem-me ser essencialmente estes dois movimentos que ferem a relação entre pessoas e povos: o fechamento sobre si próprio e a renúncia a qualquer identificação com a condição do outro, com as circunstâncias em que vive ou com o destino que o espera. A longo prazo, tais atitudes desmoronam o edifício humano até a sua própria agonia!
E o que parece ser ainda mais atroz é a desfaçatez com que se erigem tais muros em nome da defesa dos valores cristãos! Não consiste a essência do cristianismo exatamente nesta dinâmica de identificação com todo o ser humano que, na estrada de Jerusalém para Jericó, jaz na berma do caminho, espancado, coberto de chagas e ferido na sua dignidade, independentemente de professar uma religião estrangeira, falar uma outra língua ou ostentar na sua pele uma cor diferente? Quem, pois, em nome da defesa do cristianismo, erige muros que o resguardam da presença indesejada do outro há de aceitar, se for honesto, que no altar da sua consciência se manifeste a inconsistência em que labora a sua ação. Ou será a alusão ao cristianismo, afinal, um mero artifício linguístico de contornos xenófobos para consumo de política interna? Porém, a política exige verdade. Não é, pois, compatível com estratégias ardilosas de obtenção de apoio popular, escarafunchando no lodaçal antigo e primário do medo do outro ou do ódio à diferença. Numa tal visão distorcida do mundo, os nossos interesses sobrepõem-se inexoravelmente às necessidades dos outros. Mesmo enfronhados nas consequências danosas das crises financeiras geradas pela desregulação capitalista, não somos tão indigentes que não possamos abrigar quem se viu privado de um lugar onde reclinar a cabeça. Prescindindo até da responsabilidade da Europa em relação às guerras que assolam os países de origem da maior parte dos migrantes, toda a conceção humana orientada eticamente exige da União (e de qualquer outro país ou pessoa que tenha a vantagem de viver num ambiente de paz e de conforto) um olhar compassivo para com aqueles que a procuram, vergastados pelo próprio desespero.
Se insistirmos, no entanto, em muralhar a nossa casa com o vil arame farpado da indiferença é porque, muito antes de o termos erguido fisicamente, já o havíamos urdido no âmago do nosso coração glacial, como as inclementes tempestades do Ártico.

domingo, 13 de setembro de 2015

A Europa enclausurada nos seus medos



A Europa vive, desde há algumas décadas, um período de decadência que se manifesta em diferentes planos. No plano económico, é evidente a sua incapacidade para concorrer com as economias emergentes. No plano social, observa-se um claríssimo retrocesso em matéria de direitos sociais, conquistados durante décadas de lutas pela humanização da vida de todos os cidadãos. No plano cultural, a Europa deixou de ser a única produtora de cultura ao mais alto nível. Primeiro os Estados Unidos e depois outros países, como a China ou o Japão, exportaram para todos os países criações que, em muitos casos, tiveram origem na Europa, tendo sido posteriormente assumidas por esses países e replicadas com adaptações culturais que tiveram grande aceitação no mundo globalizado. No plano científico, há décadas que a Europa perdeu a função de motor do mundo. Os Estados Unidos têm arrecadado os louros de grandes descobertas científicas e, atualmente, muitos estudos com enorme relevância científica centram-se no Oriente. No plano demográfico, a diminuição drástica dos nascimentos tem invertido perigosamente a pirâmide etária. O que pode a Europa fazer para não continuar neste processo de decadência contínuo a que parece condenada? Como poderá injetar sangue novo nas suas fileiras de modo a florescer de novo?
Quando ainda era o centro do mundo, a Europa explorou a seu favor os países e as populações que lhe não podiam fazer frente. O processo de colonização foi uma demonstração de poder e um aproveitamento dos recursos de outras zonas do planeta para benefício do poderio incontestável do Velho Continente. Sob a capa do seu papel civilizador (e cristianizador), a Europa extorquiu os povos conquistados da sua dignidade, do direito à sua autodeterminação e do direito a viverem de acordo com os seus parâmetros culturais. Se não quisermos ser parciais, teremos de reconhecer também que a ação europeia nas colónias não trouxe apenas aspetos negativos. O contacto com os europeus abriu aos outros povos possibilidades que eles desconheciam. E essas portas de acesso à modernidade foram sendo usados, mais por uns do que outros, após a descolonização. Mas a cobiça doentia, o poder predatório do colonizador e a divisão das fronteiras de forma inteiramente arbitrária produziram conflitos que se arrastaram durante décadas, muitos dos quais chegaram aos nossos dias. A Europa tem, portanto, responsabilidades éticas que não pode, nem deve, escamotear, em relação ao resto do mundo.
E é nesta linha que me parece incontornável o acolhimento dos milhares de migrantes que têm inundado a Europa e que vão continuar a pressionar as suas fronteiras. Muitos fogem de brutais cenários de guerra (alguns dos quais foram resultado direto ou indireto da ação europeia). Outros fogem da miséria a que se veem condenados. Querem para si, e sobretudo para os seus filhos, condições de paz, alimentação, habitação, saúde e educação que veem negadas nos seus países de origem. Teremos nós o direito, com todas as responsabilidades históricas que transportamos, de lhes negar a concretização desses sonhos tão básicos e tão humanos? Serão os europeus mais dignos do seu usufruto do que as gentes originárias de outros países? Do ponto de vista estritamente ético, não há fronteiras para a realização da dignidade humana. O planeta Terra ― que nós, humanos, retalhámos em nações, dividindo os povos como se não derivássemos todos do mesmo princípio, não tivéssemos todos a mesma origem e não pertencêssemos todos à mesma família ― é a casa comum onde habitamos. Também nós, portugueses, fomos e voltámos a ser recentemente migrantes, à procura de condições de bem-estar que o nosso país nos nega. E se reconhecemos para nós esse direito, porque não haveremos de o reconhecer aos outros que se encontram em situações bem mais difíceis do que as nossas?
Ao escrever estas palavras, relembro a passagem bíblica de Levítico 19, 33-34: «Se um estrangeiro vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque fostes estrangeiros na terra do Egipto.» É talvez uma das mais belas afirmações de acolhimento dos estrangeiros no texto veterotestamentário. Em relação ao Novo Testamento, basta recordar a belíssima parábola do Bom Samaritano em que o próprio estrangeiro se faz próximo daquele que precisa, sem atender a considerações de natureza nacional, étnica ou religiosa.
É, por isso, com estranheza que oiço alguns políticos, secundados por grupos radicais, fanáticos e xenófobos, afirmarem, sem sentirem um pingo de vergonha, que as raízes cristãs da Europa podem soçobrar se abrirmos as nossas fronteiras aos migrantes muçulmanos. É certo que esta afirmação pode ter algum fundamento. Mas a alternativa que advogam é totalmente anticristã e desumana. Se o núcleo do cristianismo está no princípio do amor universal, não tem qualquer cabimento a exclusão do outro que de nós precisa para se poder realizar enquanto pessoa. É verdade que a Europa tem sofrido um longo processo de erosão religiosa. É verdade que a vinda de muçulmanos trará alterações significativas no panorama religioso do Velho Continente. Mas os nossos medos não podem tornar-nos frios e insensíveis à desgraça dos outros. Gostaríamos de ser tratados da mesma maneira, caso estivéssemos nas mesmas condições?
Poderá a Europa ficar descaracterizada com a vinda de migrantes em massa? Não creio. Sobretudo, se o processo for devidamente acompanhado por medidas de inclusão social. Porém, se não acautelarmos a sua integração, se os empurrarmos para guetos sociais, se os submetermos a processos de exclusão xenófoba, decerto que os fundamentos da sociedade europeia correrão sério perigo, porque ninguém, sobretudo em relação às segundas gerações, aceitará ser cidadão de segunda, privado de aceder, por mérito próprio, às mais prestigiadas classes sociais.
Se o cristianismo soçobrar face ao avanço do islamismo, será porque os europeus se desembaraçaram das suas raízes cristãs ou, provavelmente será esta a razão essencial, as igrejas cristãs não estarão à altura dos tempos nem do Evangelho que dizem anunciar. É, por isso, essencial que o cristianismo se dispa das roupagens medievais que ainda endossa para que a luminosidade do Evangelho de Cristo possa brilhar no mundo contemporâneo, sem os constrangimentos de um legalismo arcaico, nem a complexa doutrina que dois mil anos de história acumularam. Sem uma inculturação da fé cristã no mundo contemporâneo não será possível que o cristianismo resplandeça de novo no coração da Europa. Mais do que anticristã, ou não cristã, a Europa franze o sobrolho às roupagens envelhecidas e caducas com que as igrejas vestiram a mensagem cristã. Para se tornarem credíveis, as igrejas cristãs têm definitivamente de abandonar os velhos ódios, as velhas querelas, as anacrónicas desconfianças e reconhecerem-se umas às outras como autênticas formulações do cristianismo, diversas mas verdadeiras, porque a verdade não habita nos dogmas ou nas especulações teológicas que cada uma advoga, mas na pessoa de Cristo que foi, é e será um património espiritual de valor incalculável que as igrejas têm o dever de anunciar na radicalidade da sua serena limpidez.
A Europa só se descaracterizará se assim o quiser. Mas renunciar aos valores do humanismo e do cristianismo será já, decerto, uma forma intolerável de negar a sua identidade. Se acreditamos que o verdadeiro legado que deixamos ao mundo, enquanto europeus, é o legado da afirmação da dignidade da pessoa humana (qualquer que ela seja), dos direitos humanos e da fraternidade universal, fechar as fronteiras da Europa ― exatamente no momento em que gentes de outras latitudes nos procuram porque veem a sua dignidade arrastada pelo chão, os seus direitos espezinhados ― é renunciar aos valores que defendemos, é desmentir em ações o que sustentamos, quando nos dá jeito, em meras palavras desprovidas de conteúdo prático.
É possível que a vinda de gente nova para a Europa em decadência acelerada seja uma lufada de ar fresco que a revitalize. Pelo menos do ponto de vista demográfico precisamos deles. Tudo vai depender da forma como nos relacionamos com quem nos procura. Mas a alternativa não pode ser esconder-nos atrás dos nossos medos e renunciarmos ao património espiritual, cristão e humano, que dizemos ser a grande riqueza da Europa.