sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Em Londres



Enquanto estivemos em Londres, fomos visitar o British Museum. É de uma riqueza colossal. Acho espantosa a forma como a Europa se tem interessado pelos fantásticos testemunhos das culturas que povoam o mundo e tem recolhido sistematicamente objetos eloquentes desses tesouros de valor incalculável. Indica que a Europa se abriu ao mundo, não tanto como sua mentora, como pretendeu nos velhos tempos coloniais em que mantinha os outros povos sob tutela, mas como seu zelador. E assim, enquanto assistimos, sem poder fazer muito, à destruição, no Médio Oriente, de tesouros antigos de valor inestimável, às mãos de fanáticos religiosos que julgam assim poder salvaguardar a verdade de Deus (que Deus e que verdade?), podemos alegremente observar testemunhos desse património nos museus europeus.
A Europa tem sido, embora nem sempre se forma consistente, guardiã das civilizações que a história e a geografia humana nos têm legado. É por isso (e por outras razões que aqui não explano) que julgo ser de lamentar o desmantelamento da Europa que os seus atuais líderes têm tentado com fervor quase macabro. Bastaria talvez que cada um reconhecesse o contributo de cada nação europeia para o enriquecimento da civilização humana, para o incremento de relações salutares entre os povos do mundo, bem como para o reconhecimento do valor da diferença. Se o fizéssemos, porventura haveríamos de considerar-nos parceiros do mesmo itinerário, rumo a uma cultura planetária onde ninguém seja diminuído na sua condição de ser humano e onde se reconheça o que cada um tem a oferecer à pluralidade cultural que enxameia a nossa casa comum.
Mas para quem permite que as razões económicas e, sobretudo, financeiras tomem a dianteira, não há razões de ordem cultural ou espiritual que possam determinar a ação. A permanecermos neste estranho caminho, estaremos, muito provavelmente, condenados a perder aquelas qualidades que verdadeiramente nos diferenciam no vasto mundo do reino animal. Seremos simplesmente lobos para o homem, como vaticinava Hobbes.
Creio, porém, que, sendo nós mais do que cadáveres adiados, haveremos de dar razão ao apelo essencial da condição humana na qual todos estamos inscritos. Na verdade, as conceções políticas e o rejuvenescimento das utopias são movimentos cíclicos. Se as antigas utopias, centradas no poder discricionário e despótico de poucos sobre a massa informe dos povos, soçobraram, exatamente por não responderem à pulsão central da autonomia individual, isso não significa que outras utopias, mais flexíveis e dispostas a reorientar as suas convicções originais por força do contacto com a realidade, não possam vir a preencher de novo o coração humano, tão vazio de sentido, tão ressequido pelo pragmatismo imediatista, sem qualquer horizonte de largo espetro. Decerto que tem de haver uma alternativa ao atual estado de coisas, humanamente miserável e falacioso. Mas, ao observar o brilhantismo da cultura dos povos, espelhado admiravelmente neste museu, não posso senão acreditar profundamente nas capacidades do ser humano para se regenerar espiritualmente e encontrar sentido onde outros reduzem a cinzas tudo aquilo em que tocam.
Não perdemos também a oportunidade de visitar com tempo e atenção a National Gallery e a Igreja de St. Martin-in-the-fields. Já havíamos visitado, há alguns anos, a National Gallery, mas com os miúdos ainda pequenos, que nos atrapalharam a observação das obras expostas. Como é de esperar naquelas idades, ora lhes doíam os pés, ora as costas, ora queriam ir à casa de banho, ora imploravam que deles tivéssemos piedade e zarpássemos daquele inferno inabitável, cujas pinturas nada lhes diziam. Agora foi substancialmente diferente. Eles insistiam na necessidade de se levantarem a desoras e nós desejávamos ardentemente usufruir do pouco tempo que a nossa estadia nos possibilitava. Assim, estabelecemos um acordo satisfatório para ambas as partes: nós iríamos à nossa aventura diária e eles visitariam os seus lugares de eleição sem a nossa perturbadora presença. De gustibus non est disputandum. E, já agora, amigo não empata amigo! Todos saímos realmente satisfeitos desta aliança sem escritura lavrada.
Pudemos, pois, visitar calmamente a National Gallery e a sua espantosa coleção de pinturas, patente gratuitamente a todos os interessados pela cultura (e são muitos, a julgar pela quantidade de gente que percorria as amplas salas de exposição). Ali está representada uma das melhores amostras do alcance sublime do espírito humano. Desde a Idade Média até à Idade Moderna, as grandes correntes, os grandes pintores, as grandes obras de arte, as representações pictóricas de maior densidade humana estão ali exibidas perante o olhar atónito de quem se consegue ainda, na era fria e mecânica da tecnologia, admirar com a longitude e a latitude dos sentimentos humanos, quer se reconheçam numa pietà, que retém eternamente nos seus braços de mãe o cadáver exangue do filho, quer se manifestem numa cena campestre qualquer, onde o quotidiano fútil é elevado à condição de todos os seres humanos que partilham o mesmo vínculo à terra e aos elementos do universo de que todos somos reminiscências permanentes. E não é apenas o artista que se eleva acima da sua condição efémera quando representa no objeto produzido o mais alto grau de beleza, é também o observador atento que vê na obra o poder derradeiro de dizer o humano enquanto balbucia o divino, o eterno, o intemporal naquele sistema concreto de signos cuja matéria é infelizmente perecível. Torna-nos, portanto, algo mais do que meros expectadores da obra alheia. A simples observação cuidada é a encarnação daquela palavra indizível, primordial e derradeira, que nos fez ser e no ser nos retém a despeito das ínfimas probabilidades de existência pessoal. O mistério é o pano de fundo em que nos movemos. O indizível é a língua de que é feita o universo e, inscrita nele até ao tutano, a excelência de toda a obra de arte suprema. Balbuciamos apenas turbulências sonoras que têm a pretensão de ser aproximações a esta palavra original que não dominamos, nem jamais haveremos de decifrar inteiramente. A arte é a nossa melhor forma de o dizer, porque revela enquanto oculta e oculta na medida em que revela. É que o mistério dista de nós, por força da sua própria natureza, o que o céu dista da Terra.

A Igreja de St. Martin-in-the-Fiels veio ao meu conhecimento há já algum tempo. Tenho por hábito ouvir a Antena 2 enquanto viajo. Este canal de rádio, especializado em música erudita, tem difundido os concertos do coro desta Igreja. E foi esta circunstância que me revelou a elevadíssima qualidade do seu desempenho musical. Como a Igreja fica na vizinhança da National Gallery, fomos visitá-la e verificar se nos era possível assistir a algum concerto deste excelente agrupamento polifónico. Logo que entrámos no recinto interior da Igreja, fomos surpreendidos pela alta qualidade da música executada por uma flautista e um pianista que estavam a ensaiar uma peça musical. Pudemos deter-nos um pouco, enquanto nos deliciávamos com os sons que preenchiam a totalidade do espaço interior do local sagrado. E comprámos os bilhetes para um concerto do coro, no mesmo dia ao final da tarde. O desempenho do coro não nos desapontou. Demonstraram então o seu profissionalismo, a profunda claridade das vozes, a harmonia do conjunto, mesmo em peças de elevado grau de dificuldade.
Resolvemos descer à cripta e almoçar por lá. Não sem antes termos visitado uma exposição que aí se encontrava patente, sobre o trabalho que um padre (anglicano, segundo julgo) tem desenvolvido com os sem-abrigo que por ali vão matando os dias, sem nada esperar da vida para além de um mero recanto onde recostar a cabeça quando a noite cai sobre a cidade fria. A julgar pela informação disponibilizada, tem sido, de facto, notável o seu labor assíduo na recuperação destas pessoas. As fotografias, de uma beleza crua excecional, dizem muito do que são aquelas histórias de vida que atravessam várias gerações, desde jovens até velhos abandonados ou adultos que, por qualquer circunstância da vida, partiram para o exílio no exterior de todos os lares possíveis. Um traço frequente nesta gente: perturbações psíquicas que abalaram todas as oportunidades que o tempo lhes foi proporcionando. O próprio fotógrafo confessa, numa declaração de humildade, que também sofreu de perturbações psíquicas (quem as não teve alguma vez na vida?). Compreende, por isso, muito bem como é ténue a linha que separa aqueles homens e mulheres dos autoapelidados “normais”. A qualquer um é possível, em alguma fase da vida, ser exportado no comboio do destino para longe do espaço que julgava pertencer-lhe. Antes de mais, do espaço espiritual onde cada um habita, no centro profundo de si mesmo. Depois, no espaço material que nos deserda e expulsa, bem como da casa comunitária de que outrora fomos elementos úteis. Temos caminhado muito desde a barbárie, de que a Torre de Londres é testemunho eloquente, até à proclamação universal de que todos os indivíduos têm dignidade e direitos. Mas estamos ainda longe de efetivar estas belas declarações programáticas, em todos os lugares e para todos os indivíduos. Há muitos que ainda são “filhos de um deus menor”.
A questão da igual dignidade de todos ― se não quisermos que seja apenas uma mera declaração sem efeitos práticos ― terá de modificar inevitavelmente as mentalidades e os comportamentos concretos do mundo rico e abastado. A Europa vive hoje preocupada com a avalanche de emigrantes oriundos do norte de África. Mas a sua preocupação não é tanto com o bem-estar dessas pessoas que não encontram nos territórios onde lhes calhou nascer as mínimas condições para viverem com dignidade e poderem legar aos seus descendentes um futuro humano. A sua real preocupação é com a presença indesejada daquela gente que vem perturbar a ordem, o bem-estar e a organização de uma Europa abastada, mas em decadência espiritual. A contínua demanda do espaço europeu parece ser, para os que o procuram, a última possibilidade de libertação da miséria onde foram gerados. A resposta dos Estados europeus, impondo barreiras, erguendo muros (se não físicos, pelo menos aduaneiros), sem qualquer projeto de desenvolvimento dos locais de origem, é a mais eloquente manifestação de que há filhos de um deus menor, cuja pertença originária nas lhes permite, de modo algum, partilhar com os demais a tal dignidade de que reza a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Somos realmente iguais ou declaramos apenas sê-lo, sem daí deduzirmos a mais leve consequência? A Europa esqueceu-se de que se ergueu do caos e da destruição que ela própria tinha infligido a si mesma, durante a segunda guerra mundial, pelas mãos dos Estados Unidos da América que, com um plano de desenvolvimento e reconstrução bem delineado (e o respetivo apoio financeiro), ajudaram os Estados europeus a erguer-se da catástrofe em que viviam.
Em consonância com este estado de coisas, deparámo-nos com o fausto, a opulência e a ostentação do luxo das joias da coroa britânica, expostas na Torre de Londres. Não será isto um insulto aos milhões de pobres que enxameiam o mundo? Talvez seja, mas é sempre possível ver naquela beleza indescritível uma autêntica obra de arte, tão válida como uma das mais belas pinturas da National Gallery. E é neste contexto interpretativo que considero não dever ser simplesmente rejeitado como manifestação “pornográfica” de luxo e de ostentação de poder (embora também o seja).

1 comentário:

  1. Magnífica descrição de Londres. Saudades desses momentos por lá que tive o privilégio de partilhar contigo e os nossos filhos. beijinhos grandes.

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