quarta-feira, 1 de julho de 2015

Espírito crítico



Acho espantosa a ausência de espírito crítico. Mesmo entre pessoas inteligentes. Em muitos contextos da vida, mas sobretudo no âmbito da Igreja e, de uma forma geral, das religiões, o espírito crítico sempre foi visto com desconfiança ou mesmo maltratado, perseguido e banido por aqueles que ocupavam as estruturas de poder.
É certo que hoje as mentalidades mudaram. A ortodoxia e a subserviência milenar já não se elevam, pelo menos no mundo ocidental, como um valor em si mesmo. O desenvolvimento das ciências, onde abunda o espírito crítico, deu alento à mudança de paradigma. Outrora, sustentava-se que a obediência aos superiores hierárquicos era senão o valor supremo, pelo menos um dos principais orientadores da ação. Hoje, estimula-se o uso da razão crítica, da originalidade, da criatividade, em vez do mero seguidismo bacoco e pueril ou da repetição de fórmulas que perderam o seu vigor original, uma vez que nasceram num contexto que se alterou drasticamente. Mas ainda estamos longe de ter efetuado o salto de qualidade para o total respeito pela liberdade individual, quando usada pacificamente e para fins pacíficos.
Veem-se resquícios desta fatal repreensão da novidade em muitas atitudes e em muitos contextos. Na Igreja, é claro como a água. Os poderes, sejam eles exercidos pelas mais altas instâncias ou pelas instâncias locais, fogem da crítica racional como o diabo foge da cruz. Uma das formas de se manifestar este receio irracional é a desvalorização persistente do contributo de quem pretende alertar para aspetos que são, de uma forma geral, omitidos, porque incómodos, ou para posições que não se encaixam na ordem pré-estabelecida, como se esta sempre tivesse sido assim e sempre tivesse de se manter imóvel. Pouco a pouco, vão-se calando as vozes inconvenientes, afastando-as dos centros de decisão ou dos contextos em que poderiam influenciar a opinião pública.
Na verdade, a opinião pública na Igreja tem ainda um valor diminuto. Veja-se, por exemplo, quem tem assento no sínodo e se tais delegados podem mesmo ser representantes da opinião pública católica! De facto, os leigos são propositadamente excluídos de uma participação efetiva na partilha das decisões e com as mulheres acontece o mesmo. Num sínodo que se ocupa de assuntos tão prementes como os que se relacionam com a família, não é auscultada a voz dos jovens, cujo sentir é muito diferente do das gerações anteriores. E o trabalho de bastidores, que opera no secretismo através de jogos de poder informal, é ainda o principal motor das decisões e das intervenções locais e gerais. E é assim que se perpetua, mesmo quando já quase ninguém lhe dá ouvidos, o eterno retorno do sempre igual, com pequenas variações ao tema.
Para quando uma Igreja autenticamente democrática, na qual todos terão uma palavra a dizer e ninguém será excluído apenas porque defende um ponto de vista desconforme à posição oficial? Esta é talvez a grande reforma de que a Igreja necessita. E, no fundo, é o regresso às suas origens, às comunidades cristãs que o Novo Testamento testemunha. O papa Francisco tem feito o que pode para mudar a situação, mas estamos longe de ter motivos para acreditar que se possa chegar a resultados tão desejáveis como urgentes. Os poderes conservadores mobilizam-se, procurando a todo o custo travar o declínio das suas posições tão estáticas quanto surdas à voz dos tempos. Enquanto isso, assistimos impávidos à erosão da Igreja e, portanto, à erosão da sua mensagem autenticamente evangélica, porque os mecanismos internos da vida eclesial não vivem desligados do valor ético e humano da sua mensagem. Só não vê quem não quer ver.

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