domingo, 5 de julho de 2015

Por ocasião da apresentação do livro «A vida conta... branco no preto»

Ontem, fui a Aveiro para participar nas comemorações dos quinze anos da ADAV-Aveiro, uma associação que apoia raparigas e mulheres que, estando grávidas, não têm condições financeiras para ter os seus filhos, mas também não querem abortar. É uma associação que não luta contra ninguém, qualquer que seja o seu ponto de vista sobre o aborto. A sua finalidade é exercer uma solidariedade concreta em relação a quem mais necessita da ajuda dos outros, num momento crucial da vida. Para assinalarem os seus quinze anos de existência em prol da vida, quiseram publicar um livro de contos que pusesse a tónica no valor e na dignidade da vida humana. Foram convidados vários autores, entre os quais me encontro, e o livro foi lançado ontem, por ocasião das comemorações. Chama-se «A vida conta... branco no preto» e é, também do ponto de vista gráfico, um belo livro, com a chancela da Tempo Novo Editora.
Deixo aqui a mensagem que escrevi para a ocasião:

Parafraseando Teilhard de Chardin, poderíamos afirmar, sem receio de nos apartarmos muito da verdade, que a vida «é a mais universal, a mais formidável e a mais misteriosa das energias cósmicas». Preservá-la e acalentá-la é função de todo o ser humano na sua expressão simultaneamente racional e cordial. Descurar a sua salvaguarda é condenar a humanidade a um futuro sinistro e tempestuoso. Lamentavelmente, temos dedicado boa parte das nossas energias à devastação da vida!

Os meios de comunicação social, mesmo tendo em conta o exagero consternador com que é feita a seleção das notícias, preenchem as páginas informativas com profusas narrativas de infames ataques à mais misteriosa de todas as energias cósmicas. Não sabe, contudo, o ser humano, ou simplesmente não lhe interessa saber, que ao fazê-lo se condena à autodestruição e ao esquecimento cósmico do que foi e do que é chamado a ser, se ouvir atentamente a voz incómoda da sua própria consciência.

Só para citar alguns exemplos ― para além dos corriqueiros, mas nem por isso menos ruinosos, assassinatos, difamações, ou mero desinteresse pela sorte do outro ―, gostaria de chamar a atenção para a fuga em massa de inteiras populações, aterrorizadas pela insensatez da guerra no Próximo Oriente, ou para a deslocação de milhares de pessoas, em demanda do eldorado na margem norte do Mediterrâneo, procurando, assim, escapar à miséria que lhes assola a esperança, ou ainda para o desprezo soez pelo valor inalienável da vida a que o terrorismo se dedica. A Europa, a braços com as suas crises autênticas ou fictícias, parece indiferente à sorte desses povos. Num processo de autocontemplação narcísica, tem uma visão parcelar do fenómeno humano, como se o mundo se reduzisse aos problemas que a globalização lhe impôs.

Na verdade, essa indiferença pelo estatuto irredutível da vida é clamorosa, numa Europa de clivagens entre ricos e pobres, entre povos de primeira e povos de segunda, entre quem prescreve e quem tem de obedecer à inflexível vontade dos mais fortes, num total alheamento dos princípios que nortearam a sua fundação: a solidariedade, a cooperação, a igualdade entre os povos ou a coesão social. Assistimos agora à libertação das mais terríficas forças centrífugas que se manifestam em decisões autodemolidoras. Tal estado de coisas poderá conduzir, a médio ou longo prazo, à perigosíssima fragmentação da União Europeia. E todos sabemos o que foi a Europa num tempo não muito longínquo, no qual poderes guiados por um insano nacionalismo de vistas curtas erguiam barricadas, ameaçavam ou procuravam mesmo, recorrendo ao uso ignóbil da força bruta, a subjugação dos seus parceiros de destino, em nome de mesquinhos interesses próprios.

Mas a vida é bem mais do que a humanidade. A atual encíclica do papa Francisco veio recordar-nos isso mesmo. E aí está a urgência de atendermos ao todo que a vida constitui e do qual fazemos parte integrante. Rasurar o paradigma da natureza como fonte de recursos para a nossa insaciável voracidade constitui um dever ético de alcance universal. E nessa linha, torna-se urgente a conversão do coração ao paradigma da natureza como espaço vital que nos integra como seus modestos habitantes e simultaneamente seus zeladores.

A vida é a mais formidável das energias cósmicas e um dom sem preço que nos foi oferecido antes mesmo de virmos à existência. O seu cuidado é um mero ato de gratidão para com o mistério absoluto de onde tudo provém, onde tudo habita e para onde tudo se encaminha.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O Panteão Nacional



O Panteão Nacional é um edifício que tem como finalidade homenagear e perpetuar «a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade» (artigo 2.º da lei 28/2000, de 29 de novembro). O mesmo documento legal vem estipular, no seu artigo 4.º, que «as honras do Panteão não poderão ser concedidas antes do decurso do prazo de um ano sobre a morte dos cidadãos distinguidos». Tal obrigação veio alterar as disposições anteriores que previam a existência de um lapso de quatro anos para a atribuição de tais honras.
Receberam, até ao momento, honras de Panteão (referimo-nos a Lisboa, uma vez que a Igreja de Santa Cruz de Coimbra também é legalmente Panteão Nacional) os seguintes cidadãos: a) no âmbito da produção literária: Luís de Camões, Almeida Garrett, João de Deus, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, Sophia de Mello Breyner Andresen; b) no âmbito da criação artística: Amália Rodrigues; c) no exercício de altos cargos públicos ou militares: Afonso de Albuquerque, infante D. Henrique, Nuno Álvares Pereira, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama, Teófilo Braga, Sidónio Pais, Óscar Carmona, Manuel de Arriaga; d) na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade: Humberto Delgado.
Hoje mesmo vai decorrer a transladação dos restos mortais de Eusébio da Silva Ferreira, um dos maiores futebolistas portugueses, que indubitavelmente teve o mérito de projetar o nome de Portugal no mundo. O valor de Eusébio como futebolista é, portanto, incontestável, bem como a sua relevância no que se refere à expansão do nome de Portugal no mundo. No entanto, é preciso perguntarmo-nos, sem medo, em qual das categorias estipuladas por lei se insere Eusébio. Não exerceu altos cargos públicos, nem se distinguiu pelos serviços militares prestados ao país, não foi um promotor da expansão da cultura portuguesa (só o será se assumirmos o conceito de cultura no seu sentido antropológico mais vasto), não se distinguiu na criação literária, científica ou artística, nem na defesa dos valores civilizacionais da dignidade da pessoa humana e da liberdade. Podemos, naturalmente, contestar os critérios legais em vigor, mas, quer o façamos quer não, temos de os aceitar tal como o diploma os prescreve e, nesse sentido, será bastante difícil e intrincado inscrever Eusébio no conteúdo do artigo 2.º da lei 28/2015.
É também de lamentar as ausências de cidadãos no Panteão que incontestavelmente se notabilizaram pelos serviços prestados ao país e cuja memória perdura no tempo. São, sem sombra de dúvida, marcos da cultura portuguesa que teriam merecido esse reconhecimento. Referimo-nos concretamente a pessoas como o padre António Vieira, a Eça de Queiroz, eventualmente a Antero de Quental e a Cesário Verde (cuja obra não é vasta, mas é muitíssimo original, constituindo um caso único na literatura do século XIX português) ou a Egas Moniz. Não referi, contudo, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa por estarem sepultados no Mosteiro dos Jerónimos (monumento que considero de valor superior ao do próprio Panteão). Também não menciono Aristides de Sousa Mendes ou José Saramago por não se inserirem ainda no critério temporal que adiante proporei. É de salientar, por fim, a total ausência de cidadãos que representem o contributo de Portugal no âmbito das artes plásticas, das ciências ou da criação musical erudita.
Todavia, há igualmente presenças que muitos de nós não subscreveriam. É o caso de João de Deus (um poeta menor), Sidónio Pais ou Óscar Carmona. É ainda de salientar os que levantam sérias dúvidas acerca da sua relevância: Manuel de Arriaga, Teófilo Braga, Guerra Junqueiro, Aquilino Ribeiro, Sophia de Mello Breyner Andresen. Em relação aos primeiros, porque a sua ação política não é de modo nenhum consensual na sociedade portuguesa; em relação aos escritores, porque a sua influência na literatura portuguesa não foi realmente decisiva ou porque não há, neste momento, distância temporal suficiente para podermos emitir um juízo avisado sobre o grau da sua distinção na cultura portuguesa.
Um clássico é aquele autor (ou aquela obra) que perdurou no tempo. Dizemos de um texto que é um clássico quando, após terem transcorrido várias gerações, ainda é lido, apreciado e estudado, continuando, por isso, a alimentar o imaginário cultural de um povo. Trata-se de um texto vivo, não de um texto encerrado em bafientos fólios de um alfarrábio guardado num qualquer arquivo, mesmo que tal arquivo tenha grande importância nacional. Ser lido, ser lembrado, ser interpretado como um marco cultural ou civilizacional, passadas várias gerações, é parte integrante da sua condição de clássico. E é assim que temos a certeza de que se trata realmente de uma obra ou de um autor que continuam a deixar um rasto indelével no património material ou imaterial do país. Lamentavelmente, não temos à mão outro critério que não seja a inderrogável passagem do tempo. Ser contemporâneo de alguém ou de alguma obra deforma a visão que deles temos, não nos permitindo emitir juízos desinteressados e justos sobre o seu valor. Basta atendermos ao exemplo de autores que, no seu tempo, foram muito aplaudidos, que receberam as maiores honras, mas cuja obra não perdurou à erosão dos anos. Ou, pelo contrário, àqueles que não foram devidamente apreciados e aos quais apenas o tempo veio fazer justiça. O ser humano é inegavelmente um ser histórico. Os seus juízos são, em maior ou menos medida, determinados pelas condições históricas e geográficas da sua existência. O fluir do tempo é, pois, condição sine qua non de uma justa decisão sobre tema tão polémico e complexo, na medida em que um juízo humano sobre tais questões pode ser justo. O tempo é a peneira de todas as construções humanas.
Que terá este discurso a ver com as honras do Panteão? A relação é evidente. Os juízos apressados sobre o mérito dos cidadãos que lá foram colocados deram azo a erros óbvios e a injustiças manifestas, por terem sido excluídos outros que se vieram a revelar bem mais merecedores de tais honras. É por isso que estou absolutamente contra a inclusão no Panteão de quem quer que seja antes de terem passado, pelo menos, três gerações sobre a sua morte (cerca de setenta anos). Estou, assim, em perfeito desacordo com o conteúdo do artigo 4.º da lei que regula as honras do Panteão. Em meu entender, o legislador em vez de ter diminuído de quatro para um ano o tempo mínimo para a atribuição de tal honra, deveria ter aumentado esse prazo muito para além do que estava já estipulado. Lamentavelmente, pouco aprendemos com os erros do passado. Julgamos sempre que, ao seguirmos os critérios pelos quais os nossos antepassados se orientaram, não cairemos nos mesmos erros! Mas não somos hoje mais inteligentes, mais sensatos ou mais justos do que eles foram. Se não modificarmos os critérios, incorreremos inevitavelmente nos mesmos desvios em que eles incorreram. Somos humanos apenas, como eles o foram.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Espírito crítico



Acho espantosa a ausência de espírito crítico. Mesmo entre pessoas inteligentes. Em muitos contextos da vida, mas sobretudo no âmbito da Igreja e, de uma forma geral, das religiões, o espírito crítico sempre foi visto com desconfiança ou mesmo maltratado, perseguido e banido por aqueles que ocupavam as estruturas de poder.
É certo que hoje as mentalidades mudaram. A ortodoxia e a subserviência milenar já não se elevam, pelo menos no mundo ocidental, como um valor em si mesmo. O desenvolvimento das ciências, onde abunda o espírito crítico, deu alento à mudança de paradigma. Outrora, sustentava-se que a obediência aos superiores hierárquicos era senão o valor supremo, pelo menos um dos principais orientadores da ação. Hoje, estimula-se o uso da razão crítica, da originalidade, da criatividade, em vez do mero seguidismo bacoco e pueril ou da repetição de fórmulas que perderam o seu vigor original, uma vez que nasceram num contexto que se alterou drasticamente. Mas ainda estamos longe de ter efetuado o salto de qualidade para o total respeito pela liberdade individual, quando usada pacificamente e para fins pacíficos.
Veem-se resquícios desta fatal repreensão da novidade em muitas atitudes e em muitos contextos. Na Igreja, é claro como a água. Os poderes, sejam eles exercidos pelas mais altas instâncias ou pelas instâncias locais, fogem da crítica racional como o diabo foge da cruz. Uma das formas de se manifestar este receio irracional é a desvalorização persistente do contributo de quem pretende alertar para aspetos que são, de uma forma geral, omitidos, porque incómodos, ou para posições que não se encaixam na ordem pré-estabelecida, como se esta sempre tivesse sido assim e sempre tivesse de se manter imóvel. Pouco a pouco, vão-se calando as vozes inconvenientes, afastando-as dos centros de decisão ou dos contextos em que poderiam influenciar a opinião pública.
Na verdade, a opinião pública na Igreja tem ainda um valor diminuto. Veja-se, por exemplo, quem tem assento no sínodo e se tais delegados podem mesmo ser representantes da opinião pública católica! De facto, os leigos são propositadamente excluídos de uma participação efetiva na partilha das decisões e com as mulheres acontece o mesmo. Num sínodo que se ocupa de assuntos tão prementes como os que se relacionam com a família, não é auscultada a voz dos jovens, cujo sentir é muito diferente do das gerações anteriores. E o trabalho de bastidores, que opera no secretismo através de jogos de poder informal, é ainda o principal motor das decisões e das intervenções locais e gerais. E é assim que se perpetua, mesmo quando já quase ninguém lhe dá ouvidos, o eterno retorno do sempre igual, com pequenas variações ao tema.
Para quando uma Igreja autenticamente democrática, na qual todos terão uma palavra a dizer e ninguém será excluído apenas porque defende um ponto de vista desconforme à posição oficial? Esta é talvez a grande reforma de que a Igreja necessita. E, no fundo, é o regresso às suas origens, às comunidades cristãs que o Novo Testamento testemunha. O papa Francisco tem feito o que pode para mudar a situação, mas estamos longe de ter motivos para acreditar que se possa chegar a resultados tão desejáveis como urgentes. Os poderes conservadores mobilizam-se, procurando a todo o custo travar o declínio das suas posições tão estáticas quanto surdas à voz dos tempos. Enquanto isso, assistimos impávidos à erosão da Igreja e, portanto, à erosão da sua mensagem autenticamente evangélica, porque os mecanismos internos da vida eclesial não vivem desligados do valor ético e humano da sua mensagem. Só não vê quem não quer ver.