sábado, 20 de junho de 2015

João XXIII -- um homem para o nosso tempo



Há seres humanos cuja existência nos faz acreditar na bondade global do mundo, apesar de todos os factos que a negam. São pequenos ou gigantescos sinais da presença incomensurável do divino na história humana. A sua existência torna razoável a fé numa transcendência que tenha estado na origem do mundo, tenha plantado sementes de bondade e justiça nos interstícios do tempo e avoque a totalidade do universo, até ao ponto em que tudo quanto existe realize plenamente o seu próprio destino.
Um destes homens é, sem dúvida, João XXIII, o bom papa, como lhe chamava o povo carinhosamente. Ao contrário de muitos dos seus antecessores, não usou a cátedra onde o haviam sentado como poder discricionário e absoluto sobre os outros, mas como oportunidade para implementar, na finitude onde nos inscrevemos e na medida das suas capacidades, o Reino que Jesus pregara ao longo do seu curto, mas decisivo percurso na Palestina do século primeiro. Jesus fora um visionário. Não se contentara com o mundo tal como ele se lhe mostrava, maculado de incongruências e brutalidades. Queria moldá-lo àquilo que ele acreditava ser a vontade de Deus. Um mundo liberto da injustiça, da exclusão, da pobreza, da fome, da miséria, da imprópria desigualdade que ergue muros entre os seres humanos, todos igualmente filhos do mesmo Deus. Era a esse sonho que ele chamava o Reino de Deus, a soberania de Deus sobre o mundo, o triunfo da vontade de Deus sobre a tirania, a vontade de poder, o egoísmo, a luta pela própria supremacia individual, sem cuidar dos interesses dos outros, a desfiguração do ser humano como uma espécie de «cadáver adiado», como lhe chamava Pessoa, a renúncia a todos os princípios morais para elevar, no centro do mundo, o próprio eu à condição de absoluto. Em vez disso, Jesus pregara a humildade do ser humano e a sua consciência de que no ponto focal de todos os valores está a vontade amorosa e benigna do Pai e de que o bem do ser humano, de todo o ser humano, qualquer que seja a sua condição, coincide com a própria vontade divina. É por isso que no cerne de todo o edifício espiritual de Jesus se encontra o princípio do amor, que decorre da única fonte de onde tudo brota e a partir da qual a dádiva de si mesmo se derrama sobre todos os homens e mulheres de boa vontade que a ela abram o próprio coração. Afinal, todos provimos da mesma origem. A nossa raiz primordial comum lança sobre a consciência um repto que a surdez do vazio moral pode recusar: faz do outro o teu próximo, seja ele quem for, tenha ele a condição que tiver.
Foi este programa simples mas profundamente humanizador que João XXIII assumiu durante toda a sua vida. É certo que, do ponto de vista estritamente doutrinal, Angelo Giuseppe Roncalli era um conservador. Mas não era no campo das teorias teológicas que ele focava a sua atenção. Era no campo da ação concreta, da ortopráxis, do programa de revolução espiritual, humana e social não violenta que Jesus preconizara. Os seus princípios de vida assentavam exatamente neste programa: a unidade fundamental da humanidade; o ecumenismo como ação geradora de consensos capazes de ultrapassar as diferenças e até de as integrar como centros polarizadores de novos sentidos; o estabelecimento de pontes diplomáticas entre os povos, resolvendo os conflitos por via do diálogo e da renúncia à violência; a construção da paz universal, autêntica e duradoura, porque fundada no reconhecimento dos direitos fundamentais de todos os seres humanos.
A sua ação em prol dos judeus perseguidos pelo nazismo e pelo fascismo, ainda no tempo em que exercia o cargo de núncio apostólico, foi um dos seus feitos com maior densidade humana, o qual ilustra bem a visão que ele tinha da humanidade como um todo inseparável e da conexão profunda que liga inevitavelmente todas as pessoas, quaisquer que sejam as suas convicções ou a sua proveniência geoétnica.
Quando eleito papa, não renunciou à promoção do diálogo entre as religiões e entre as Igrejas cristãs desavindas, com vista à convivência pacífica, à cooperação em função da construção de um mundo mais humano e à eventual unidade entre todos os cristãos, segundo a vontade de Cristo expressa na oração do adeus no evangelho de João. E tudo isto, apesar das pressões que a Cúria romana sobre ele exercia. Foi porque houve este papa-charneira que todos os que se lhe seguiram puderam avançar nos caminhos do diálogo e da aproximação mútua. Neste ponto, João XXIII estabeleceu realmente uma rutura na prática da Igreja católica, alterando o ponto de vista e abrindo perspetivas que o futuro encarnou.
João XXIII estava ciente de que a Igreja tinha de encontrar um novo paradigma sobre o qual fundar a sua ação, que não podia permanecer de costas voltadas para o mundo contemporâneo, como desde o século XIX se havia colocado, encarando a modernidade e o seu universo de valores como realidades hostis à Igreja e a Deus. Era preciso converter urgentemente a Igreja! Era decisivo reorientá-la para uma nova visão do ser humano e do mundo. Era necessário regressar às fontes bíblicas originais, sobretudo ao Novo Testamento e ao programa de Jesus, para redescobrir uma outra forma de ser comunidade, ao arrepio de uma Igreja triunfalista, imperial e poderosa que Roma representava. Sabendo que a sua idade avançada não lhe permitiria perder tempo, convocou, pouco depois da sua eleição, um concílio ecuménico onde tudo pudesse ser discutido com verdade e transparência, onde nenhum tabu coagisse a discussão franca e aberta, nem fossem desferidas ameaças e sanções sobre quem ousasse emitir opiniões diferentes das do centro do poder eclesial (sobretudo da Cúria romana). Era imperioso atualizar a linguagem, as práticas, as relações com o exterior, a visão que a Igreja tinha de si mesma, etc.
Quando o Concílio iniciou os seus trabalhos, em 1962, ficou claro que o papa não se queria intrometer diretamente nas discussões, para não influenciar a orientação das mesmas. Com o avançar dos trabalhos, ficou também claro que não concordava com os métodos de trabalho (obscuros e cavilosos), nem com as ideias da Cúria romana que, através de vários expedientes, pretendiam impor ao Concílio o rumo a seguir: a mera continuidade em relação a todos os outros concílios anteriores, sobretudo ao Concílio Vaticano I, no qual o poder papal fora declarado absoluto e infalível. João XXIII queria uma revolução na forma e nos métodos. Este não seria um Concílio de condenações e impropérios, mas uma serena proposta do ponto de vista do Evangelho de Jesus e de um olhar benigno e tolerante sobre tudo quanto se não identificasse com a Igreja. Na verdade, Roncalli tinha uma outra conceção de Igreja, muito mais colegial e mito menos autoritária ou hierárquica. Acreditava que era necessário transformar as comunidades cristãs espalhadas pelo mundo em comunidades fraternas, onde todos poderiam ter lugar e a sua palavra pudesse ser levada em conta.
Na primeira sessão, entram em colisão duas visões claramente opostas: uma conservadora, imperial, hierárquica, clerical, comandada pelo cardeal Ottaviani; outra, constituída pela maioria progressista, à procura de soluções inovadoras que não esquecessem o essencial da fé cristã, antes pelo contrário, que reassumissem esse núcleo fundamental, de que o Novo Testamento era testemunha autorizada. A mensagem cristã originária fora obnubilada pela acumulação constante da tralha que os séculos haviam acumulado, adulterando, assim, o rosto da Igreja que se transformara numa instituição focada no poder, aleada ao poder e alinhada com os poderosos.
Sempre que foi necessário ultrapassar algum impasse, o bom papa interveio pontualmente no sentido de dar razão à maioria e impedir a poderosa minoria de minar os alicerces do trabalho que se estava, lenta mas consistentemente, a construir. Infelizmente, um cancro no estômago não lhe permitiu levar a cabo a direção dos trabalhos nas sessões seguintes. Teve de ser Montini (Paulo VI), um homem muito menos ousado do que João XXIII, a prosseguir esse caminho. Mas Roncalli tinha dado o tom aos trabalhos. Os bispos puderam, durante a primeira sessão, provar o doce sabor da liberdade de expressão e de decisão. O novo papa não podia, nem queria, alterar a orientação básica dada ao Concílio pelo seu mentor.
Como foi possível mudar tanta coisa em tão pouco tempo? João XXIII sabia bem qual era o rumo a seguir. Era um homem determinado, embora tolerante. Conhecia bem que obstáculos as forças conservadoras iriam erguer às suas propostas reformistas. Conhecedor de tais agendas paralelas, pôde fazer face às estruturas que lutavam por manter o statu quo e, se possível, promover a própria liderança. Livre de todas as amarras, este papa rasgou caminhos insuspeitados na vertigem do tempo moderno e inscreveu o Evangelho, de novo, no coração de tantas pessoas.
Curiosamente, há hoje alguma semelhança com o início dos anos sessenta. A Igreja precisa também agora de se desembaraçar de empecilhos que foi acumulando nos anos de obstrução das reformas e até de um certo retrocesso, sobretudo na perspetiva das orientações morais. Assumiu a liderança da Igreja um homem igualmente destemido que não receia as mudanças. Tenho, contudo, algumas dúvidas se entre os bispos há novamente aquela maioria arrojada que no início dos anos sessenta se atreveu a transformar tradições tão arreigadas quanto anacrónicas. Sobretudo com o papa João Paulo II, houve uma clara viragem na orientação da Igreja. Os bispos eleitos ao longo de várias décadas foram escolhidos de entre os mais alinhados com o poder central. E o lançamento de uma nova evangelização mais não foi do que a reproposição das práticas proselitistas revestidas dos novos meios eletrónicos que o avanço tecnológico entretanto proporcionara. Mas o conteúdo continua bafiento. Se os europeus e, de uma forma geral, o mundo mais desenvolvido, não veem na Igreja aquela instância moral que deveria ser é, sobretudo, por culpa da própria instituição, enquistada nos seus pequenos ou grandes poderes, onde o carreirismo parece fazer o seu caminho, nas suas cerimónias pomposas, mas destituídas de autenticidade espiritual, nas suas exclusões morais (ou imorais?). É preciso um novo abanão na Igreja. Estaremos à altura do bom papa para procedermos, cada um no campo onde trabalha, no sentido de uma reforma estrutural da instituição?
Homens e mulheres como João XXIII são para mim os verdadeiros santos. O martirológio romano está pejado de gente incomum que foi elevada às honras dos altares sobretudo por estar perfeitamente alinhada com o sistema. Para mim, todavia, não é santo quem tem visões do além (anjos ou demónios, santos ou deuses), quem vive experiências extáticas ou transpira sangue, quem tem na própria carne os estigmas que Cristo não procurou para si, quem vergasta o corpo para domar o espírito, como se as forças adversas do espírito pudessem ser dominadas pelo desgaste e ruína do corpo. Não, para mim, ser santo é viver alegremente o evangelho de Jesus, o seu programa vital, quaisquer que sejam as circunstâncias em que venhamos a percorrer a acidentada estrada da vida. Essa é a santidade por que anseio, a que procuro viver, decerto aos supetões, porque não sou perfeito, como ninguém o é senão Deus. Mas ao olhar para João XXIII, vejo crescer em mim um desejo ardente de me autossuperar, de vencer a banalidade da minha existência, tantas vezes mesquinha, de acreditar que Deus está, ainda que de forma misteriosa, em ação na vida de cada ser humano. Não será o prestígio, nem o poder, mas o Reino de Deus com que Cristo sonhou que se erguerá como alvo na vida de todos os seres humanos até que o mundo se transforme naquela sociedade fraterna que a todos há de incluir.

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