segunda-feira, 25 de maio de 2015

A loucura, a doença e o fanatismo



O que leva alguém a cometer loucuras? Há com certeza muitas razões, sendo que a maior parte talvez esteja enraizada no húmus emocional de cada indivíduo. Vivemos num equilíbrio precário, instável, e sem nos apercebermos podemos ultrapassar a linha divisória entre a sensatez e o desalinho mental. Ninguém sabe exatamente onde se encontra essa fronteira. E, sobretudo, talvez ninguém seja capaz de se autoanalisar de forma tão lúcida e profunda que preveja o momento em que uma queda no abismo possa ocorrer. Há pessoas que estão profundamente deprimidas e não aceitam tratar-se, uma vez que nem sequer reconhecem os sinais da doença. Há um mal-estar difuso, uma tristeza constante, mas tudo pode ser assacado aos desaires da vida, a causas externas, ou a aspetos idiossincráticos da própria personalidade. Quando tudo isto perdura ao longo de meses ou mesmo anos, habituamo-nos a este estado de infelicidade permanente. É quase um traço inalienável do nosso caráter. Sempre fomos assim, para quê mudar? Desconfiamos igualmente dos efeitos da medicação. É um artifício que altera a nossa relação connosco próprios e com os outros, tal como as drogas, mas não mudam, julgamos nós, aquilo que realmente somos. Tornam-nos dependentes e impedem que demos a volta à nossa circunstância pessoal através da reflexão e do esforço pessoal. Temos de aprender a viver connosco próprios, na solidão da intimidade pessoal, julgam eles, e a resolver os nossos problemas sem o recurso a terapias que nos oferecem de mão beijada o próprio paraíso. Na verdade, este mundo não é nem nunca foi um paraíso. Quando cessarmos de tomar a medicação, seremos capazes de enfrentar os contratempos sem nos deixarmos derribar por eles, ou teremos novamente de nos refugiar no mundo irreal dos artifícios farmacológicos? Esses e outros medos impedem as pessoas gravemente doentes de recorrer a ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Há pouco tempo, um homem de vinte e sete anos, copiloto de uma aeronave comercial, decidiu, quando o piloto se ausentou da cabine de pilotagem, despenhar o avião contra os maciços rochosos dos Alpes a setecentos quilómetros por hora, arrastando consigo cento e quarenta e nove pessoas. O avião pulverizou-se e os corpos são agora pedaços indefiníveis a olho nu. A depressão profunda de que sofria alheou-o da realidade. Aquelas cento e quarenta e nove pessoas não lhe tinham feito qualquer espécie de mal, não o tinham prejudicado de maneira alguma, não tinham sido para ele causa de sofrimento. Decerto que não se queria vingar delas. Não tinha simplesmente motivos para o fazer. Mas a doença de que padecia arrastava-o para aquela fronteira perigosa que separa a lucidez da demência, do refúgio mental em mundos ficcionais, longe do olhar concreto da vida, onde pessoas reais, com vidas reais e famílias reais partilhavam com ele o mesmo espaço e dele dependiam para percorrer o itinerário vital que o tempo lhes haveria de reservar, não fosse o caso de terem embarcado despreocupada e confiantemente naquele avião. Este homem é culpado do que fez? Não sei. Quem sou eu para julgar até que ponto chega o grau de responsabilidade de uma mente patológica?

Há também os que cometem loucuras por outros motivos. A vingança, a ira, a aversão ou o ódio são emoções que tendem a produzir comportamentos destrutivos. Deixar-se guiar por elas, sem as racionalizar, sem refletir sobre as razões do seu aparecimento e ajudar a mente a reorientar-se para o amor, a empatia ou a compaixão, pode ser o princípio do fim. Também o ciúme doentio é causa de muitas insanidades, sobretudo no plano da violência doméstica. O ciumento quer controlar a vida da pessoa com quem vive, quer reduzi-la a um animal de estimação que está ali ao seu dispor, ou, se quisermos ser um pouco mais benevolentes, quer transformar o outro adulto numa criança que ainda se não emancipou, nem lhe é lícito conduzir a vida a partir de opções pessoais e livres. O número de mulheres vítimas de companheiros que sofrem desta patologia é assustador!

Também há quem considere lícito reduzir os outros seres humanos a meros instrumentos dos próprios ideais exacerbados, como se as ideias fossem mais importantes do que as pessoas. Em geral, estes tendem a dividir o mundo em duas metades irremediavelmente distintas e inconciliáveis: os bons e os maus. Para eles não há meio-termo, nem uma escala onde as pessoas se situem: ou são dos nossos (os bons) ou nos são adversos (os maus). Não admira que, ao transformarem os outros numa espécie de alienígenas, estes fanáticos das ideias (sejam elas religiosas ou políticas) assassinem indiscriminadamente homens, mulheres e crianças para afirmarem a sua presença omnipotente no mundo. E neste campo inserem-se, por exemplo, os fundamentalistas islâmicos e os grupos terroristas que lutam pela independência de uma região ou que pretendem dominar um determinado espaço, recusando partilhá-lo com aqueles que consideram diferentes, ou seja, sem direitos nem dignidade. Inserem-se também neste grupo os homofóbicos violentos, os racistas, os xenófobos, etc. No fundo, lutam por um mundo onde a diferença deve ser banida por não lhe ser reconhecido direito de cidadania. Para eles, é pessoa de pleno direito apenas quem se identifica com a sua visão do mundo. Não serão estes tão doentes quanto as vítimas da depressão? Eu creio que sim. Mas as causas de tais comportamentos doentios podem ser de vária ordem.

Em primeiro lugar, há que procurar as causas no interior da própria pessoa. É preciso que o doente esteja em condições de refletir acuradamente sobre o seu mundo íntimo, as ideias que o comandam, as emoções que prevalecem, etc. O objetivo será remodelar o seu universo pessoal. Muitos não serão capazes de o fazer sozinhos. Terão de ser auxiliados por profissionais de saúde. Mas sem dúvida que, se não estivermos despertos para os desequilíbrios espirituais que em nós ganham raízes, não poderemos modificar a nossa arriscada situação pessoal, podendo vir a resvalar para a tal perigosa fronteira entre a lucidez e o abismo patológico.

No entanto, nós não somos mónadas encerradas em nós mesmas. Somos seres sociais. Estabelecemos conexões com o mundo que nos rodeia e partilhamos com ele alguns valores que nos foram sendo transmitidos das mais variadas maneiras ao longo do complexo processo do nosso crescimento. Somos em larga medida (mas não totalmente) um produto da cultura onde crescemos. Assim, uma sociedade doente arrasta para a doença os indivíduos que têm a pouca sorte de lá ter calhado. Por exemplo, nos Estados do sul dos Estados Unidos da América, o racismo e a discriminação com base na cor da pele eram atitudes consideradas normais pela população branca até aos anos sessenta do século vinte (e talvez ainda permaneçam no subconsciente de muita gente). Nascer branco naquela sociedade era, quase inevitavelmente, partilhar desse universo de “valores” e deixar-se guiar pelos comportamentos que dele haveriam de decorrer. Era urgente mudar as mentalidades, alterar as crenças partilhadas por um grupo social, por forma a conquistar para os negros a mesma dignidade de que os brancos gozavam. Mas alterar mentalidades enraizadas não é nada fácil: exige muito esforço, resistência e perseverança, bem como um líder que mobilize as massas para essa finalidade. Martin Luther King foi esse líder e o seu assassinato foi o custo que teve de pagar por querer modificar o status quo.

E as sociedades atuais são geradoras de saúde ou de doença? Depende da sociedade e dos aspetos que se têm em consideração. As sociedades ocidentais, defensoras da democracia, da participação dos cidadãos, da liberdade e da afirmação da dignidade humana, bem como dos direitos que lhe são inerentes, conseguiram claros progressos em relação ao passado. Mas os conflitos que se geram nos bairros mais pobres, para onde são expulsos os indigentes, os desempregados e os estrangeiros imigrantes, revelam que não é reconhecida a todos a mesma dignidade. E tal discriminação, enquanto subsistir, será geradora de situações patológicas que se manifestam em depressões, mas também em violência e revolta contra a sociedade que não oferece a todos as mesmas oportunidades nem trata todos como seres humanos.

Mas as democracias ocidentais, sendo de todos os sistemas políticos o mais aceitável, não é de modo nenhum a perfeição. Precisa, sem dúvida alguma, de reformas constantes que o aproximem desse ideal de humanidade que todos temos o dever de desejar. A burocracia desmesurada, o mau funcionamento da justiça, o aumento do fosso entre ricos e pobres, as desigualdades a vários níveis, a corrupção, o compadrio, o nepotismo, a perigosa ligação entre o poder político e o poder económico, a defesa e implementação, nos últimos anos, de políticas liberais sem qualquer preocupação social são apenas alguns dos problemas que agravam a distância entre o povo e a classe política, degradam a imagem do poder e podem fazer perigar o sistema. Tais graves anomalias provocam patologias sociais e individuais que estão longe de poder ser menosprezadas. Se olharmos para as ditaduras que ainda subsistem no mundo contemporâneo, vemos que cerceiam as liberdades individuais e não reconhecem ao indivíduo aquele grau de emancipação a que tem direito. Teremos de somar estes problemas aos que foram acima mencionados, mas agora a uma escala bem mais preocupante.

Por último, recuso-me a dividir o mundo em doentes e saudáveis, tal como o não podemos dividir em bons a maus. Todos nós temos desequilíbrios que necessitam de uma autoanálise constante. A perfeição e o equilíbrio irrepreensível estão sempre além das nossas capacidades. Enquanto eu sentir uma ponta de ódio, de inveja ou de raiva, decerto que preciso de refletir sobre as causas de tais emoções e reorientar a minha mente para a empatia, a compaixão e a compreensão do outro, por mais incompreensível que possa parecer o seu comportamento. Isso não significa, de modo nenhum, resignação ou passividade. Tenho o dever de construir, em conjunto com os outros e na medida das minhas possibilidades, um mundo mais fraterno e humano, usando os meios adequados que toda a consciência educada eticamente reconhece como bons e válidos.

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