segunda-feira, 6 de abril de 2015

O poder da loucura



O mundo parece alheio ao que se passa no Médio Oriente. Em nome da fé islâmica, como se a fé islâmica o permitisse, um grupo organizado de fanáticos devasta toda a região, incutindo terror nas populações e matando cruelmente todos os que afastam, ainda que ligeiramente, da sua linha ideológica ou do sistema de «valores» que tão eficazmente defendem. As notícias sucedem-se. Um ódio terrível ao Ocidente e seus aliados alimenta aqueles corações empedernidos. E o pior é que avançam no terreno sem que forças internacionais devidamente mandatadas os detenham. E os EUA, tão solícitos em guerras unilaterais que têm destabilizado a região, estão agora silenciosos perante o massacre e o horror que por ali imperam.
Não sou partidário da guerra. Acho sempre preferível o diálogo e a negociação diplomática ao uso da força. Mas quando o outro lado se recusa a dialogar e os seus crimes hediondos derramam sangue inocente sobre a terra ultrajada, não há outra forma de agir que não seja a utilização da força para pôr cobro a tão relapsa insanidade. Lembremo-nos que muitos viraram o rosto para o lado, como se não desejassem ver o óbvio, quando Hitler rasgou as obrigações a que a Alemanha se comprometera depois da primeira guerra mundial, iniciou o seu feroz processo de armamento e anexou territórios que lhe não pertenciam. Os resultados são por demais conhecidos. Agora, os EUA, a União Europeia, a Rússia, a China e outras potências parecem considerar que o autoproclamado Estado islâmico é uma diversão de grupos locais que não abalarão o equilíbrio internacional, como se isso fosse verdade ou as vidas de milhares de pessoas que por ali são sacrificadas não estivessem à altura da sua própria dignidade e pudessem, portanto, ser sumariamente sacrificadas para que o supremo valor da paz (podre) pudesse imperar.
É por isso absolutamente urgente que a desumanidade de tais grupos seja rapidamente desmobilizada, ainda que através da força e da violência. Baixar os braços perante o ódio, a discriminação, o racismo, o fanatismo religioso e a intolerância dos inimigos da humanidade é abdicar de um mundo onde a todos seja possível viver, independentemente das suas origens ou crenças. A Terra é o nosso lar. Foi nele que nascemos, foi nele que crescemos, é nele que vivemos. A criação de condições fraternas de vida é dever de todos. Quem se nega a fazê-lo, usurpando o direito a existir pela negação do mesmo aos outros, tem de ser impedido com absoluta determinação e sem tergiversações por parte da comunidade internacional e dos seus órgãos globalmente aceites. Será preciso esperar até quando para que tal aconteça? Iremos também neste caso, como em muitos outros sobejamente conhecidos, apenas desenterrar os cadáveres das valas comuns para que os sobreviventes os reconheçam ou os assassinos possam ser julgados, ou acorreremos em auxílio das vítimas antes que o terror se erga sobre o horizonte em perigo de cada uma daquelas vidas humanas?

sexta-feira, 3 de abril de 2015

In Passione Domini



Sexta-feira Santa. Acho sempre um tanto desajustada a forma como na Igreja se reflete sobre a morte de Cristo. Terá mesmo sido a sua morte um ato voluntário? Se lermos atentamente os textos do Novo Testamento poderemos facilmente observar o desejo de Jesus de ser poupado a semelhante prova («Pai, afasta de mim este cálice»), ou o sentimento de total abandono tanto por parte do círculo mais chegado dos seus discípulos como de Deus. «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» Este grito lancinante manifesta a incompreensão humana pelo sofrimento do justo que morre violentamente sem haver razões que sustentem tal condenação. E porque Deus, na forma como Jesus o experienciou, não deseja o sofrimento do homem justo, é totalmente incompreensível que o abandone à sua sorte no mais amargo momento da sua vida, no qual se torna vítima dos seus algozes. O grito de Jesus é uma queixa, o sinal de uma incompreensão, um lamento pela ausência de qualquer sentido para os acontecimentos que vive. A esta luz, a entrega à morte terá sido, pois, um ato voluntário? É evidente que não.
Mas a Igreja tende a sublinhar a assunção livre deste evento porque pretende salvaguardar a ideia de que a morte de Cristo foi um sacrifício expiatório para a redenção de toda a humanidade e, nesse sentido, foi uma entrega total à vontade de Deus para o bem supremo da humanidade. Contudo, ao fazer coincidir a vontade de Deus com a morte violenta de Jesus, afasta-se claramente da ideia de Deus que o próprio Jesus histórico pregara, transformando-o, como haviam feito de modo consequente as teologias medievais, numa espécie de «carrasco» do Filho para a salvação da humanidade pecadora. E por que razão não poderia Deus salvar a humanidade, prescindindo do cruel sacrifício do Filho? Não é ele omnipotente e bom? Que sentido tem necessitar do derramamento de sangue como condição de possibilidade da oferta gratuita do seu amor salvífico?
Não. Esta teologia não tem, na verdade, nenhuma relação com a ideia de Deus tal como Jesus a anunciou durante a sua vida. Ele foi simplesmente vítima da maldade humana, do poder (religioso e político) indiscriminado, impiedoso e totalitário que pretendia perpetuar-se e interpretava a revolução de Jesus, proposta através das suas palavras e da sua forma de vida, uma ameaça à sua continuidade. A morte de Cristo é o símbolo da paixão de todos os justos que durante milénios foram vítimas dos que viam neles um atentado aos seus interesses mesquinhos. Não tem, portanto, nada que ver com a vontade de Deus, nem pode ser interpretada como sacrifício expiatório ou algo semelhante. Bem sei que tal interpretação já fora ensaiada pelas comunidades primitivas judeo-cristãs, como se depreende de várias passagens neotestamentárias; todavia, teremos de a interpretar à luz do seu contexto histórico concreto. Num tempo em que havia sacrifícios no templo de Jerusalém, nada melhor do que estabelecer uma conexão metafórica entre os sacrifícios existentes e a morte de Cristo como salvação do mundo. Além disso, as primeiras comunidades sentiram necessidade de dar sentido àquilo que não tinha, em si mesmo, qualquer espécie de sentido. A morte de Cristo era o fracasso do seu projeto de vida, como fora o fracasso de muitos outros projetos religiosos e políticos próximos da época de Jesus. Era, portanto, urgente iluminar este evento demolidor, dando-lhe um sentido positivo que pudesse servir de base à perpetuação da mensagem cristã, sem o impedimento de um tal aparente fracasso. Digo aparente porque os projetos não morrem necessariamente com a morte violenta dos seus promotores. Veja-se, por exemplo, o assassinato de Martin Luther King e de muitos outros que lutaram destemidamente por ideias de paz e de fraternidade entre os homens e cujas mortes não foram, de modo algum, impedimento a que os movimentos por eles criados tivessem permanecido e continuado a sua obra para além da morte dos seus mentores originários.
É a esta luz que eu vejo também o anúncio da ressurreição de Jesus. Deus não permitiu que o seu Cristo fosse tragado pelas trevas do nada, mas entronizou-o no lugar sagrado do seu coração infinito. Só assim poderia o cristianismo continuar a fazer sentido na mente e no coração das primeiras comunidades. E se Jesus não tivesse realmente ressuscitado? Se não houvesse ressurreição ou vida para lá do limite da morte? Eu creio que, mesmo numa tal situação, a vida de Jesus, a sua mensagem de fraternidade e de paz continuaria a fazer sentido, porque dela carecia e carece uma humanidade conduzida pela violência, pela voracidade, pela inveja, pelo ódio ou pela discriminação. Mas em tais circunstâncias teríamos de renunciar à justiça para todos os que foram vítimas desses sentimentos e comportamentos devastadores. Só a existência de um Deus que sustenta e vida, mesmo para lá do curto intervalo de tempo que por aqui andamos, pode ser garantia de justiça absoluta e definitiva para todas as vítimas da história humana. E eu quero ser um otimista. Quero crer no desfecho luminoso do mundo e da história que nele se desenrola.