sábado, 20 de dezembro de 2014

Sobressaltos



A vida é este cordão de experiências com ruturas e sobressaltos pelo meio. Como é difícil viver na alegria desta dádiva indizível, ao mesmo tempo que os ventos frios sopram na alma! Mas é assim mesmo. Não há outro caminho que não seja o da persistência, da paciência e da esperança. Porque há de haver sempre uma fuga no terreno sombrio onde por vezes nos vemos envolvidos.
E o pior de tudo seria esmorecer, abrir mão da única qualidade que faz do ser humano aquilo que ele é: a liberdade que tudo reconstrói com os materiais que nos são dados pela mão invisível do infinito. Infelizmente, nem sempre estamos em condições de reagir assim. Olhamos e vemos apenas a penumbra, cobrindo de nada todos os horizontes. Ouvimos e as vozes clamam desventuras sucessivas e tudo parece recobrir-se de enganos e mentiras. Palpamos e a rugosidade do tempo nada nos diz senão aquela escorrência sem sentido nem orientação. E então, renunciamos a tudo porque nenhum caminho se nos abre na vertente inclinada da nossa mente apagada.
Que fazer, pois, numa tal desalento? Procurar nos outros aquela frincha de luz que em nós mesmos não se acende. E em vez de nos encerrarmos nessa vertigem onde caímos, olharmos, se ainda estivermos em condições de o fazer, para a infinita esperança que o mundo nos oferece, em miríades de possibilidades, todas as manhãs. E ouvir a voz do amor que ressoa na palavra fecunda, no gesto meigo, na profecia do poente onde o sol se inclina sobre o nosso corpo.
E Deus, que tudo nos serviu, há de brotar, como uma flor na primavera, no chão ressequido da nossa tristeza. E o futuro há de escancarar-se sobre a ilusão do nada, como um roteiro de viagens que ainda não fizemos.