quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A tarde perdida


Aqui fica um poema meu que foi publicado em 2013, numa coletânea de textos selecionados no Concurso Literário de Presidente Prudente (Brasil):


A tarde perdida


A tarde perdida que cavalga os dias
entre mansidão e turbulência,
como quem pede ao tempo o sossego tresmalhado.
A tarde perdida, como eu também,
porque deixei à porta de mim mesmo o que nunca fui.
E é melhor assim,
essa completa e exasperada coincidência
da tarde comigo,
como quem semeia no tempo a sua própria condição.
Ah quem dera a limpidez da vida
se desse inteira nos canteiros onde me exponho.
Talvez as flores estranhamente nascessem,
talvez eu próprio fosse nascido
flor ausente, porque sonhada apenas,
flor de tudo quanto existe,
enquanto na orla do universo um desejo se fizesse.
Vou e venho, como quem nada espera,
destino que se perde na planura da vontade indistinta,
quando a tarde que cavalga os dias se torna aqui.
Vou e venho,
sem finalidade que possa ser dita,
apenas o vaivém longínquo e perturbado
do corpo enxuto sob a aluvião da tarde.
Talvez um dia, meu amor, talvez um dia,
serenes o chão desta agonia,
quieta e muda, como a perversão do tempo.
Talvez um dia, a tarde se faça no lado certo das coisas
e já não cavalgue de tédio os dias consumidos.

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