quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A tarde perdida


Aqui fica um poema meu que foi publicado em 2013, numa coletânea de textos selecionados no Concurso Literário de Presidente Prudente (Brasil):


A tarde perdida


A tarde perdida que cavalga os dias
entre mansidão e turbulência,
como quem pede ao tempo o sossego tresmalhado.
A tarde perdida, como eu também,
porque deixei à porta de mim mesmo o que nunca fui.
E é melhor assim,
essa completa e exasperada coincidência
da tarde comigo,
como quem semeia no tempo a sua própria condição.
Ah quem dera a limpidez da vida
se desse inteira nos canteiros onde me exponho.
Talvez as flores estranhamente nascessem,
talvez eu próprio fosse nascido
flor ausente, porque sonhada apenas,
flor de tudo quanto existe,
enquanto na orla do universo um desejo se fizesse.
Vou e venho, como quem nada espera,
destino que se perde na planura da vontade indistinta,
quando a tarde que cavalga os dias se torna aqui.
Vou e venho,
sem finalidade que possa ser dita,
apenas o vaivém longínquo e perturbado
do corpo enxuto sob a aluvião da tarde.
Talvez um dia, meu amor, talvez um dia,
serenes o chão desta agonia,
quieta e muda, como a perversão do tempo.
Talvez um dia, a tarde se faça no lado certo das coisas
e já não cavalgue de tédio os dias consumidos.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

David e Golias


A Ucrânia está perante um gigante militar que a pretende esmagar sem complacências, para ganhar aquilo que já os nazis chamavam o seu «espaço vital». E esse espaço não se circunscrevia às fronteiras do seu próprio país, mas transbordava para os chamados países satélites, extorquindo-lhes o direito à sua autonomia e à condução do seu próprio destino.

Tal como nesse tempo, também agora a União Europeia, os estados europeus e os EUA abandonam David no campo de Golias. Bem vimos no que deu essa brandura ocidental face à vontade férrea dos tiranos. A Alemanha foi anexando e depois conquistando tudo o que se movia à sua volta. E só quando as fauces escancaradas do leão lhes batiam já à porta é que os países ameaçados (e com poder militar) se sentiram no dever patriótico de intervir numa guerra sangrenta e fratricida. A lição não terá valido a pena? Porque não agem vigorosamente os países europeus e os EUA face ao poderio despótico e megalómano dos governantes russos? «Depois de casa arrombada, trancas na porta»... De pouco vale, porque, entretanto, já estilhaçaram a porta e ocuparam o espaço que lhes não pertencia.

Mas não ficarão por aí. Quem assim pensa, quer sempre chegar mais longe, avassalar mais davides sob a colossal figura do seu gigantismo e progredir na conquista do mundo - o grande sonho dos maiores ditadores que foram espalhando terror em todos os tempos. Se os honestos permanecerem inertes, os tiranos avançarão sobre a presa como alcateias famintas. Há que agir com veemência. E já!