segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nascer para a vida



O que significa comemorar o dia do próprio nascimento? Antes do nosso nascimento, se alguma forma de existência tínhamos, era decerto alheia ao mundo. Quando irrompemos do útero da nossa mãe, nascemos para o mundo. E como o mundo é composto por todos os inumeráveis e diversos seres que nele têm a sua habitação, o nosso nascimento foi uma dádiva de nós mesmos para os outros e uma dádiva dos outros (quaisquer que sejam, animados ou inanimados, humanos ou não humanos) para nós mesmos. O nascimento é a abertura do mundo para o nosso ser e a inscrição do que somos no ser do mundo.

Algumas perspetivas filosóficas ou religiosas interpretam o mundo como algo de que devemos precaver-nos, porque conteria em si os germes no nosso afastamento da verdade absoluta. Que se pense nele como uma prisão, um encarceramento, uma queda ou um enclausuramento na precariedade dos fenómenos, na fugacidade dos acontecimentos, marcados pela passagem irreparável do tempo, é sempre como circunstância disruptiva que se encara o universo no qual o nascimento nos engastou.

Que há armadilhas no mundo, não é preciso ter dúvidas. Quem não as experimentou já? Quem não resvalou ainda no pântano da mentira ou na secura do ódio e da traição? Mas o mundo é, fundamentalmente, um manancial de oportunidades a que não podemos nem devemos escapar. E é quando nos confrontamos com elas que desconstruímos a nossa humanidade ou, pelo contrário, alicerçamos a vida nas raízes da alma. Somos seres livres, ainda que limitadamente livres, aos quais nos foi outorgada esta avalanche de ocasiões e circunstâncias, perante as quais somos chamados a agir, modificando-as, reconstruindo muros onde as intempéries os derrubaram, projetando o futuro num presente cheio de promessas, ou simplesmente vivendo cada instante como se fosse o último. E é de facto, porque depois de passar, já não é possível recuperá-lo. Amar a vida, beber cada golo de esperança que por nós se entorna, fruir dos instantes, mesmo quando somos constrangidos pela circunstâncias sociais a fazer o que não escolheríamos, é talvez a única forma de suportarmos as agruras que nos espreitam ainda que delas queiramos fugir. E fazer tudo isto também em benefício dos outros que reconhecemos serem nossos irmãos, quer sejam da nossa religião, da nossa nação, da nossa etnia ou de quaisquer outras, quer partilhem connosco os mesmos valores ou se afastem da nossa visão do mundo, é subir a uma escala de humanidade que só pode dar sentido às nossas complexas vidas.

E que dizer ainda de todos os outros seres que, não sendo humanos, estão, em certa medida, à mercê do nosso poder indiscriminado? Nascemos dotados de razão e inteligência, uma mais-valia que outros não têm. Porque haveremos de utilizar esta dimensão, dizimando tudo quanto se interpõe nos nossos caminhos? Impõe-se que adotemos um outro paradigma de relação com o universo. Somos mais dotados do que os outros seres, logo o grau de responsabilidade é também maior. Cuidar da Terra é um dever que não devemos enjeitar, porque, quando nascemos, foi nela que nascemos e tudo quanto a povoa é naturalmente nosso irmão e nossa irmã. Somos feitos de terra e de céu, como sugere o Génesis (o primeiro livro da Bíblia). Enquanto seres da Terra, somos irmãos de tudo quanto a povoa, enquanto seres do céu, temos a responsabilidade de cuidar da Terra como Deus dela cuida, penetrando incessantemente em cada instante do tempo, como fundamento ontológico de tudo quanto existe.

Por isso, comemorar o dia do meu nascimento é partilhar com os outros a alegria de estar vivo neste mundo surpreendente e nele plantar as sementes do amor que nada exclui, por mais bizarras que possam parecer as circunstâncias da vida ou os seres que deambulam pelo itinerário da nossa existência.

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