sábado, 21 de junho de 2014

«Passos da Cruz»



Hoje doeu-me ouvir o desabafo dolente e magoado de uma mãe a quem o filho morreu há já alguns anos, cavando uma chaga que continua aberta naquele coração inconsolável. A veemência com que falava, a catadupa de palavras jorrando sem freio até onde alguém as pudesse ouvir, o tom atormentado com que disse o indizível foram para mim mais uma página na paixão do mundo, cuja história iniciou em Abel e nunca mais teve tréguas.
O filho mergulhara no submundo da droga. E quando quis de lá escapar tudo se conciliava para que permanecesse amarrado àquele vício mortal. O pai parecia odiá-lo. Não perdia nenhuma oportunidade para lhe dizer, por palavras rancorosas ou ignóbeis gestos, o quanto era indesejado. A filha, pequena ainda, achava que a mãe dava demasiada atenção ao irmão, apesar de a não merecer. E a mãe reforçava que não podia abandonar o irmão, agora que ele precisava mais do que ela do seu gesto de compreensão, do seu amor sem limites. O filho queixava-se do comportamento dos médicos. Quando se sentava naquele consultório, parecia um condenado em cuja inocência não acreditavam, um inútil a quem tinham de oferecer um pouco do seu tempo por força de ineficazes programas oficiais. Pelo menos era assim que o rapaz se sentia, quando ali se dirigia à procura de solução para o seu problema. E ele queria libertar-se definitivamente. Mas tudo se compaginava para que permanecesse naquele estado letárgico, prisioneiro de si mesmo e subjugado à sua incapacidade.
Um dia, quando a mãe chegou a casa, estava morto no sofá da sala. A seguir, foi o calvário das investigações que em nada redundaram, por não haver provas de que tivesse sido assassinado. Mas para aquela mãe, havia sido, de facto. E mesmo que o não tivesse sido diretamente, giravam em torno dele os seus algozes, como abutres à espera que o cadáver apodrecesse. Porque é disto que se alimenta o submundo da droga. Desta desumanidade lancinante que rouba a cada um a sua liberdade e lhe fornece enganosamente, sob a forma de paraísos artificiais, a felicidade inteira, contanto que venda a alma e o corpo a quem enriquece à custa da desgraça alheia.
Depois, contou-me como lhe custara, no dia do enterro, o coveiro ter aberto o esquife e haver despejado sobre o corpo umas pazadas de cale, para que os vestígios da sua existência se sumissem no tempo breve que outros corpos reclamavam. Mas aquele era o seu filho, não era um qualquer. O que o coveiro fizera fora para ela a segunda morte do filho nos sinais que a memória guarda.
Por fim, contou-me a luta que teve consigo mesma até conseguir abrir a pequena urna onde os ossos do filho haviam sido guardados. Era confrontar-se com o inevitável, com a crueza da vida, talvez com a realidade mais contranatura que possa existir.
E agora, por outros motivos, era a tristeza da filha, que pareceria ter perdido a esperança.
Que pode uma pessoa dizer a uma mãe assim? Chorar com ela? Dizer-lhe que o futuro talvez guarde melhores dias? Fico sempre paralisado, apesar das breves frases que ainda ouso pronunciar. E é nestes momentos que me zango com Deus, que lhe lanço à cara o facto de não estar onde era esperado que estivesse, de abandonar à própria sorte a criança que todos somos e seremos até ao último dia. Pode ser que ele me oiça. Pode ser…

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Ética e exercício do poder



O governo prepara-se para furtar o subsídio de férias a alguns funcionários públicos: aos que o receberam antes de 31 de maio. Numa interpretação tacanha e enviesada do acórdão do Tribunal Constitucional, que o governo acusa constantemente de servir de bloqueio aos seus desmandos políticos, entende que quem já recebeu o subsídio não tem direito a recebê-lo por inteiro, sem os cortes que o TC declarou inconstitucionais. Contudo, tal interpretação é também ela inconstitucional, uma vez que fere novamente o princípio da igualdade. Na verdade, apenas uma parte dos funcionários teria direito a receber o subsídio por inteiro neste ano fiscal, enquanto uma outra parte ficaria privada da parte remanescente do seu subsídio pelo simples facto de já o ter recebido, ainda que incompleto. A desigualdade é gritante e a injustiça clama aos céus. Mas o governo continua, impávido e sereno a seguir o seu caminho cujo traçado se resume a cortes ou aumento de impostos, sem nenhuma outra visão estratégica para o país que vá além do equilíbrio das contas públicas. As finanças têm sido tão endeusadas que se pode bem afirmar que o povo está ao serviço delas e não o contrário, como seria de esperar num Estado de direito, democrático fundado na dignidade da pessoa humana.
O governo gostaria de exercer as suas funções sem nenhuma força de bloqueio que interviesse sempre que princípios essenciais do ordenamento jurídico português estão postos em causa. Já o disse por diversas vezes — se não diretamente, pelo menos indiretamente, quando tem criticado as decisões do TC e posto em causa a competência do juízes, lamentando-se da pouca consistência na escolha dos mesmos! No fundo, este governo gostaria de dirigir o país sem atropelos às suas políticas antidemocráticas, ou seja, governar sob a autoridade indiscutível de um ditador que determina paternalisticamente tudo, sem admitir a mais pequena crítica ou oposição às suas opções.
No que me toca, um governo deve exercer as suas funções em benefício do povo e não contra o povo. E mesmo quando tem de tomar algumas medidas menos agradáveis, deve fazê-lo com equilíbrio, sem extorquir sempre aos mesmos aquilo que, em princípio, lhes pertence (se não jurídica, pelo menos eticamente). Em vez disso, os grandes centros financeiros continuam intocáveis, as grandes riquezas continuam a aumentar despudoradamente o seu património, enquanto os menos abastados e a classe média têm de pagar a crise à custa do seu lastimável e injusto empobrecimento.
Infelizmente, não se vê neste governo nenhuma linha de orientação económica que dê esperança ao país. Não se investe em coisa nenhuma. Corta-se onde se pode (sem tocar nos intocáveis). Desmembram-se os setores que estavam sob a alçada do Estado e pretende-se entregar a educação, a saúde e a segurança social — que gerem bens de valor incalculável do ponto de vista cultural, humano e financeiro — à iniciativa privada, cujo único objetivo é o lucro. Assim, bens que deveriam estar ao alcance de todos e, por isso mesmo, deveriam ser geridos pelo Estado para benefício da comunidade estão pouco a pouco a ser entregues a grupos privados que deles se apoderam não para servir melhor mas para gerar lucros que o povo terá de pagar, se não diretamente, pelo menos através da carga fiscal (ou combinando as duas modalidades).
Os índices são claros. As desigualdades aumentaram brutalmente, promovendo uma sociedade esquizofrénica onde poucos têm acesso a tudo e a maior parte vê-se privada de bens essenciais, sejam eles do foro alimentar ou cultural. E nem por isso a dívida diminuiu! Devemos agora mais do que quando iniciámos o plano de resgate, porque ao cortar a eito, o governo não contava com a diminuição drástica do consumo, a falência de muitíssimas empresas e, portanto, um brutal aumento do desemprego e das despesas com a segurança social. A receita mostrou-se letal para o paciente. Cabe a um novo governo recuperar a esperança através de políticas conducentes ao aumento da riqueza global e a uma justa distribuição dos bens pelos cidadãos.
Não sei se o próximo governo terá estaleca para o fazer, mas seria bom que a luta pelo poder no interior do PS não se ficasse por aí e que os dois contendores pusessem mãos à obra no sentido de mostrarem as políticas concretas que pretendem pôr em prática quando estiverem no poder. Estamos todos fartos de campanhas eleitorais em que se oferecem generalidades ou mentiras. É preciso dizer a verdade e propor honestamente aquilo que é possível fazer. Mas sem cair nas generalidades habituais que não esclarecem nada e tornam o voto uma assinatura num programa em branco que os novos políticos ainda desconhecem ou, caso conheçam, escondem do povo.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Nascer para a vida



O que significa comemorar o dia do próprio nascimento? Antes do nosso nascimento, se alguma forma de existência tínhamos, era decerto alheia ao mundo. Quando irrompemos do útero da nossa mãe, nascemos para o mundo. E como o mundo é composto por todos os inumeráveis e diversos seres que nele têm a sua habitação, o nosso nascimento foi uma dádiva de nós mesmos para os outros e uma dádiva dos outros (quaisquer que sejam, animados ou inanimados, humanos ou não humanos) para nós mesmos. O nascimento é a abertura do mundo para o nosso ser e a inscrição do que somos no ser do mundo.

Algumas perspetivas filosóficas ou religiosas interpretam o mundo como algo de que devemos precaver-nos, porque conteria em si os germes no nosso afastamento da verdade absoluta. Que se pense nele como uma prisão, um encarceramento, uma queda ou um enclausuramento na precariedade dos fenómenos, na fugacidade dos acontecimentos, marcados pela passagem irreparável do tempo, é sempre como circunstância disruptiva que se encara o universo no qual o nascimento nos engastou.

Que há armadilhas no mundo, não é preciso ter dúvidas. Quem não as experimentou já? Quem não resvalou ainda no pântano da mentira ou na secura do ódio e da traição? Mas o mundo é, fundamentalmente, um manancial de oportunidades a que não podemos nem devemos escapar. E é quando nos confrontamos com elas que desconstruímos a nossa humanidade ou, pelo contrário, alicerçamos a vida nas raízes da alma. Somos seres livres, ainda que limitadamente livres, aos quais nos foi outorgada esta avalanche de ocasiões e circunstâncias, perante as quais somos chamados a agir, modificando-as, reconstruindo muros onde as intempéries os derrubaram, projetando o futuro num presente cheio de promessas, ou simplesmente vivendo cada instante como se fosse o último. E é de facto, porque depois de passar, já não é possível recuperá-lo. Amar a vida, beber cada golo de esperança que por nós se entorna, fruir dos instantes, mesmo quando somos constrangidos pela circunstâncias sociais a fazer o que não escolheríamos, é talvez a única forma de suportarmos as agruras que nos espreitam ainda que delas queiramos fugir. E fazer tudo isto também em benefício dos outros que reconhecemos serem nossos irmãos, quer sejam da nossa religião, da nossa nação, da nossa etnia ou de quaisquer outras, quer partilhem connosco os mesmos valores ou se afastem da nossa visão do mundo, é subir a uma escala de humanidade que só pode dar sentido às nossas complexas vidas.

E que dizer ainda de todos os outros seres que, não sendo humanos, estão, em certa medida, à mercê do nosso poder indiscriminado? Nascemos dotados de razão e inteligência, uma mais-valia que outros não têm. Porque haveremos de utilizar esta dimensão, dizimando tudo quanto se interpõe nos nossos caminhos? Impõe-se que adotemos um outro paradigma de relação com o universo. Somos mais dotados do que os outros seres, logo o grau de responsabilidade é também maior. Cuidar da Terra é um dever que não devemos enjeitar, porque, quando nascemos, foi nela que nascemos e tudo quanto a povoa é naturalmente nosso irmão e nossa irmã. Somos feitos de terra e de céu, como sugere o Génesis (o primeiro livro da Bíblia). Enquanto seres da Terra, somos irmãos de tudo quanto a povoa, enquanto seres do céu, temos a responsabilidade de cuidar da Terra como Deus dela cuida, penetrando incessantemente em cada instante do tempo, como fundamento ontológico de tudo quanto existe.

Por isso, comemorar o dia do meu nascimento é partilhar com os outros a alegria de estar vivo neste mundo surpreendente e nele plantar as sementes do amor que nada exclui, por mais bizarras que possam parecer as circunstâncias da vida ou os seres que deambulam pelo itinerário da nossa existência.