segunda-feira, 26 de maio de 2014

No rescaldo das eleições europeias



A Europa foi a votos. E a história repete-se, sem que os seres humanos aprendam verdadeiramente com os erros cometidos. Parece até que se deleitam em debater-se na lama onde os seus antepassados já haviam chafurdado. Em momentos de crise, quando os cidadãos se veem preteridos em favor de outros valores, quando as desigualdades são gritantes e poucos acumulam a maior parte da riqueza produzida, quando a pobreza grassa e as necessidades básicas se tornam a preocupação diária, quando a dignidade humana nada diz aos políticos que nos governam, os partidos de extrema-direita ganham fôlego e as bases da democracia são abaladas. A verdade é que, nessa altura, a democracia já só parece ser uma realidade formal. Quando soçobra sob ideologias sinistras, que advogam o ódio aos estrangeiros ou aos partidários de religiões ou etnias minoritárias, é tão-só o seu esqueleto que tomba sob o peso do ódio.
A democracia é um bem inestimável. Porque inclui a liberdade, a igualdade de todos perante a lei e a identificação de todos os povos e pessoas com a mesma família humana, aspetos essenciais a qualquer consciência bem formada que assuma fazer parte de uma humanidade na qual a diversidade não apaga os pontos de contacto que nos irmanam.
Mas os atuais dirigentes políticos insistem em desenvolver políticas castradoras do bem comum, que concentram a riqueza, em vez de a distribuírem justamente, que exigem a uma classe média já depauperada sacrifícios insustentáveis. O desânimo da população revela-se depois na abstenção de cerca de dois terços dos votantes e no voto de protesto em partidos extremistas. Enquanto a classe política não souber ler os sinais dos tempos, não teremos grandes alternativas. Para a consciência comum dos cidadãos, todos os políticos são a mesma farsa, a mesma mentira contada e recontada para ganhar votos na urna. E mesmo sabendo que assim não é, as campanhas políticas confrontadas com as políticas concretas dos que chegam ao poder parecem dar razão ao senso comum.
Sou, por isso apologista de alterações significativas na forma de fazer política:
– Promover uma política fundada na verdade, que não prometa nas campanhas o que não pode dar.
– Direcionar as políticas concretas para o bem da população e não essencialmente para a defesa de interesses económicos particulares.
– Aplicar políticas de redistribuição da riqueza por todos, sobretudo pela população mais carenciada, não permitindo que a fome alastre, que as necessidades básicas se tornem a primeira prioridade da vida dos cidadãos.
– Criar políticas de promoção do emprego.
– Promover uma luta sem tréguas contra a corrupção e a evasão fiscal, por forma a que o Estado não onere pesadamente quem já paga os seus impostos.
É claro que tais políticas não dependem apenas das nações individuais, mas implicam uma mudança nas decisões das instâncias europeias, sobretudo (mas não só) no que se refere à política monetária. É por isso que as eleições para o parlamento europeu se revestem de tão grande importância. Infelizmente, o desencanto das pessoas não as deixa acreditar que o seu voto pode efetivamente mudar a realidade. E voltam as costas ao seu dever cívico como se uma espécie de destino dirigisse do alto as suas vidas em direção à catástrofe final. Hoje, mais do que nunca, é preciso acreditar que o nosso destino é gizado e realizado pelas decisões que tomarmos. Somos nós os fautores da vida. Virar as costas significa permitir que outros tomem decisões que nós não haveríamos de subscrever, caso nos pedissem a nossa opinião. Sejamos, pois, sujeitos do nosso destino e não releguemos a nossa existência aos subúrbios da vida, onde tudo o que acontece é ditado pelo grande irmão.