sexta-feira, 18 de abril de 2014

Procurar a paz interior

Pode o ser humano encontrar a paz que tanto procura? Não é fácil responder a esta questão, sobretudo se se tiver em conta que o caminho pode ser diferente para cada pessoa, enquadrada que está num ambiente cultural específico e tendo uma personalidade com desejos e necessidades que podem não se confundir com os dos outros.
Talvez este seja um objetivo que está sempre para lá de todas as possibilidades humanas. Poderemos, decerto, aproximar-nos da sua realização, mas nunca alcançá-lo plena e permanentemente. Vivemos num mundo agitado pela precariedade do tempo, pela derrocada das nossas esperanças, pela avalanche de acontecimentos que, mesmo fora do nosso âmbito territorial, nos entra pela casa dentro, sem pedir permissão, e nos fere a alma… Somos seres plantados no tempo e, enquanto tal, somos tocados pela passagem inexorável do que amamos e pela chegada ineludível do que aborrecemos. Quanto a isto, não há muito a fazer. Alguns procuraram fora do mundo a paz por que ansiavam. E isolaram-se da vida para encontrarem no mais íntimo da sua consciência a eternidade pacificadora. Mas essa atitude tem um preço. Somos seres de relação e vivermos como se tudo o que acontece no mundo não nos dissesse respeito é afundarmos a nossa humanidade solidária nas trevas da própria solidão.
Há certamente ambientes onde é possível que a ansiedade não toque o indivíduo, pelo menos com tanta violência como o faz no chamado mundo desenvolvido e citadino. Não fomos feitos para trabalhar à velocidade com que o fazemos, para perdermos boa parte do nosso tempo em transportes públicos apinhados de gente, para somarmos as obrigações laborais às tantas obrigações pessoais e familiares, impostas em boa parte pelo Estado e pelas condições de bem-estar a que não renunciamos. Levar o barco a bom porto, sufocados por tanta obrigação, não é fácil e exige de nós um autocontrolo que nem sempre somos capazes de assumir.
Há uma maneira de sairmos fora deste vórtice onde nos debatemos. É preciso, contudo, que a nossa mente esteja preparada para se deixar tomar por esta experiência vital. Cristo já tinha chamado a atenção para esta via espiritual: «não deveis andar preocupados com o dia de amanhã, porque o dia de amanhã já terá as suas preocupações. Basta a cada dia a sua dificuldade» (Mt 6, 34). Grande parte da nossa ansiedade não se relaciona com factos ou acontecimentos que estejamos a viver, mas com factos ou acontecimentos futuros que invadem a nossa mente, como uma bactéria invade o corpo, causando danos incontroláveis ao equilíbrio espiritual de cada indivíduo. Infelizmente, a tendência da nossa mente é agigantar os males futuros de tal forma que se tornam a fonte de toda a nossa infelicidade. Mas se formos capazes de suster esta tendência autodestrutiva e de viver sobretudo no presente, tudo muda de figura. Afinal, os males não são assim tão colossais e catastróficos como a mente os tinha figurado e os bens, de uma forma geral, são em muito maior número do que imaginávamos.
Mas há ainda uma segunda maneira de aquietar a ansiedade que nos perturba a vida: olhar para o presente e centrar-se sobretudo nos aspetos positivos que aquele dia nos vai oferecer, varrendo da mente tudo o que a possa ensombrar ou minorando a importância dos aspetos negativos face à sua transitoriedade e aos momentos benignos de cada dia nos tem para oferecer.
Talvez não seja fácil domar a mente, que busca incessantemente prever o mal e centrar-se nele. É certo que foi assim que a humanidade sobreviveu durante milénios. Sem esta capacidade para prever os perigos, os nossos antepassados teriam sucumbido aos ataques de uma natureza que lhes era essencialmente hostil. Hoje, contudo, vivemos mergulhados em tantas preocupações, algumas delas meramente aparentes, que se torna urgente frenar a tendência natural da mente para prever tormentas, mesmo que nenhuma nuvem apareça no horizonte.
Abandonar a preocupação pelas dificuldades futuras e abrir a mente aos momentos aprazíveis que todos os dias nos proporcionam é, em meu entender, uma boa maneira de encontrarmos a paz que tanto desejamos.

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