sexta-feira, 25 de abril de 2014

A liberdade de cada dia nos dai hoje

A liberdade não é uma conquista definitiva. É um processo que todos os dias tem de ser conquistado, assumindo cada qual nas próprias mãos o destino pessoal e organizando-se com outros para poder ser ouvido a respeito do destino coletivo. Decerto que a inação é simplesmente o contrário da liberdade. É permitir que outros tomem as decisões que entenderem, apesar de tais decisões terem consequências sobre a nossa própria existência.
A democracia representativa é o terreno político onde se exerce a liberdade. Mas quando tal sistema político entra em crise, provocando na maioria dos cidadãos a desconfiança, é preciso proceder à sua reforma e resolver os principais problemas que o assolam. Há, sobretudo, aquela ideia generalizada de que os políticos se servem do sistema para seu próprio ganho, em vez de servirem os interesses do povo para serviço dos quais foram eleitos. É preciso maior transparência no exercício da política e menor conluio entre os poderes político e económico. Tal conluio há de persistir enquanto os políticos que deixaram de estar no ativo passarem, através de um jogo de influências, para os conselhos de administração dos grandes grupos económicos. Esta permeabilidade dos dois sistemas de poder pode gerar tráfico de influências e corrupção.
Os partidos terão também de se reformar, se quiserem ser depositários da confiança do povo. O carreirismo político que parte das juventudes partidárias e, sem sequer entrar no exigente mundo do trabalho, sobe imediatamente a cargos políticos de grande responsabilidade é coisa que não serve os interesses da nação.
Mas a democracia não é apenas o formalismo de um voto na urna de quatro ou de cinco em cinco anos. É também a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação. E tudo isto para todos, não apenas para um punhado de privilegiados muitos dos quais já nasceram em famílias que os catapultaram ao deslumbrante mundo da riqueza e do bem-estar adquirido. Enquanto houver portugueses que ganham pensões de miséria que não chegam para manter com dignidade a própria vida, a nossa democracia estará doente. Enquanto o número de desempregados for tão grande como o que temos agora, decerto que não poderemos falar numa democracia plenamente realizada. E é para tal objetivo ambicioso que devemos olhar, não para a mediocridade, a mesquinhez e a pobreza em que a política atual nos tem afundado. A política e as suas decisões devem ter em vista os interesses do povo, sobretudo daqueles que foram menos bafejados pela sorte, e não tanto os interesses dos grandes grupos económicos nacionais ou estrangeiros.
Um dos aspetos que mais me aflige é o facto de a crise da democracia provocar o desinteresse das pessoas pela coisa pública, entregando aos outros o próprio destino. Percebo que o desencanto que o comportamento dos políticos tem gerado a isso conduz. Mas quanto menos condições tivermos para vivermos dignamente, maior deve ser a intervenção pública de todos, influenciado as políticas públicas e levando os políticos a encontrarem soluções autenticamente humanas. A demissão da vida pode ser confundida com resignação e esta atitude é absolutamente o contrário da democracia, da liberdade e da dignidade do ser humano.
Não estou contente com as políticas assumidas pelo atual governo. Considero-as, em larga medida, uma violência sobre o povo. Falta-nos, por isso, a paz, para além do pão, da habitação, etc. Mas recuso-me a considerar que seria melhor regressar a um sistema autoritário em que um qualquer messias viria pôr ordem na casa. Os messias autocráticos que as sociedades têm gerado têm sistematicamente levado à falência humana, à submissão dos cidadãos, reduzindo-os a um estado de menoridade infantil, e à violência sobre todos os que se oponham aos seus desígnios iluminados e divinos. Não, não é disso que precisamos. Precisamos desesperadamente de políticos humanos, que assumam os seus erros e que procurem o bem comum com a mesma tenacidade com que muitos procuram os seus próprios interesses pessoais. E assim fazendo, estaremos a realizar abril, «o dia inicial inteiro e limpo», que precisa todos os dias de se tornar realidade, com a ação comprometida de todos os portugueses.

1 comentário:

  1. Parabéns pelo artigo. Fabuloso e muito necessário nos dias de hoje e, sobretudo, para os jovens e gerações vindouras.

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