sábado, 1 de fevereiro de 2014

O mundo da Lua

Acabou de sair uma nova antologia de textos na qual está inserido um poema meu que aqui deixo. A antologia chama-se «O mundo da Lua» e tem a chancela da Lua de Marfim.



O deserto sobre o silêncio desmedido.
Ali me achei por não saber que a Terra
fora o chão sagrado onde todos os passos se estendem.
Ao longe, era a calma prontidão das noites.
Mas agora que percorro o terreno inóspito da Lua,
lembro que longe é a distância onde acontece a vida
e aqui o parco destino que não quero.
E mesmo a face que regressa à Terra
segrega, clandestina, a fria luz da noite.
Do outro lado, é o silêncio impresso no corpo dos instantes.
Talvez aqui me diga eu mesmo
ou me encontre no desterro a que pertenço.
Talvez aqui me aconteça o que serei,
depois da luz trémula da vida se esgueirar pela encosta do tempo.
Talvez aqui se dispa a ilusão do ser
sobre a poeira gasta do chão amortecido.
Ninguém caminha no terreno angusto.
Sou eu apenas, fremente e lapidar,
esquecendo-me de ser ou haver sido,
quando outros se cruzavam à esquina de todos os instantes.
E que sou eu senão essa inquieta solidão da noite
que a parca luz coada não desmente?
Que sou eu senão esse clamor no corpo do tempo?
No chão da Lua me desdobro
através das horas que me fazem.
E quando me leio, manuscrito desdobrado em mim,
nenhuma palavra reabre a vida.
Que serei, pois, senão um mero engano
que a vida, por lapso, consentiu?
Ao longo do deserto me faço acontecer,
poeira pisada apodrecendo o cio.
Salvo da noite o momento em que aconteço,
resgatando-me ao silêncio da morte,
corpo disforme na cósmica lassidão da Lua.

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