sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A tarde perdida


Aqui fica um poema meu agora publicado numa coletânea de um concurso literário que decorreu no Brasil (VII CLIPP).



A tarde perdida



A tarde perdida que cavalga os dias

entre mansidão e turbulência,

como quem pede ao tempo o sossego tresmalhado.

A tarde perdida, como eu também,

porque deixei à porta de mim mesmo o que nunca fui.

E é melhor assim,

essa completa e exasperada coincidência

da tarde comigo,

como quem semeia no tempo a sua própria condição.

Ah quem dera a limpidez da vida

se desse inteira nos canteiros onde me exponho.

Talvez as flores estranhamente nascessem,

talvez eu próprio fosse nascido

flor ausente, porque sonhada apenas,

flor de tudo quanto existe,

enquanto na orla do universo um desejo se fizesse.

Vou e venho, como quem nada espera,

destino que se perde na planura da vontade indistinta,

quando a tarde que cavalga os dias se torna aqui.

Vou e venho,

sem finalidade que possa ser dita,

apenas o vaivém longínquo e perturbado

do corpo enxuto sob a aluvião da tarde.

Talvez um dia, meu amor, talvez um dia,

serenes o chão desta agonia,

quieta e muda, como a perversão do tempo.

Talvez um dia, a tarde se faça no lado certo das coisas

e já não cavalgue de tédio os dias consumidos.



30/04/2013