quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Do céu largo



Do céu largo um fragmento de poeira caiu sobre o solo ardente. Era o prenúncio do que se não dera ainda às circunstâncias da vida. E apesar disso, o futuro condensava-se naquela poeira cósmica que ao presente ainda se não dera a conhecer. Dobrei-me sobre o chão e passei o dedo pela fina camada que o cobria. Lembrei-me da poeira que fui e da que serei, quando tudo se apagar na memória transigente do tempo escasso da vida. Que somos nós, seres humanos incautos, cuidando que o que fazemos ou pensamos ocupa o perímetro substancial da existência, quando tudo, na verdade, mais não é do que uma fina camada de pó, esquecida na orla do universo que um dia terá um fim, que um dia se exaurirá na inquietude da sua inconsciência. E apesar disso, sei que há em nós essa pulsão para a afirmação do próprio ser, que nos mantém na existência e nos assegura um sentido qualquer que nem somos capazes de articular no tecido puído da efemeridade da vida. E apesar de tudo, queremos gravar uma palavra funda no mármore dos instantes e crer que aí permanecerá até que a erosão que não invocamos e queremos esquecer se encarregue de a delir para sempre. Para sempre, meu Deus, para sempre. Porque, afinal, nos foi dado acontecer neste tempo que tende para o esquecimento derradeiro, porque nos foi dado acontecer?
Talvez ninguém tenha a resposta a todo o enigma da vida, talvez se esconda algures nas pregas de um universo maior onde o nosso se revela na sua gigantesca pequenez. Talvez uma outra coisa cujo nome não conhecemos possa suturar as feridas que as perguntas lancinantes vão sulcando no corpo e na alma de todos os homens. Talvez uma outra coisa qualquer, uma outra imensidão onde se aninha a esperança de que tudo o que fomos ou seremos se possa recolher numa memória infinita onde tudo permanece. Talvez… talvez. Quem me dera ter fé do tamanho desse grão de mostarda que Cristo invocou. E aí recolher a certeza dessa realidade numinosa onde tudo é eterno e o eterno é tudo quanto existe. E apesar da incerteza que me lacera a alma, fica esse grito ao coração do ser, como uma prece anterior ao tempo, como um desejo cuja satisfação nos não é dada no espaço apertado da nossa existência. Esse grito constante à procura de si mesmo. Esse grito percutido no corpo imenso do que se não conhece.