quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Voltar aqui



— Talvez não tenha que voltar aqui — disse, às voltas consigo mesmo no descampado interior que a tarde consentiu.
— E para que quererias tu voltar aqui? Não há sempre um lugar diferente onde deixar o corpo, ainda que alma vagueie pelas pregas de lugar nenhum?
— Enganas-te. É sempre obrigatório regressar onde pertencemos. Mesmo que tenhamos saído para longe do que somos e nos tenhamos tornado forasteiros da vida. Porque só onde pertencemos poderemos ser em plenitude.
— Será mesmo assim como dizes? E onde será esse lugar onde estamos em casa, onde nos sentimos pacificados connosco mesmos, longe do tumulto estrangeiro dos instantes? Nunca descobri um tal lugar, se é que existe.
— Talvez tenhas procurado demais. Só quando já não procuramos é que o poderemos achar, porque a nossa pátria está em nós mais ainda do que essa severa imitação da vida a que damos o nome de autoconsciência.
— Mas se é em nós que estamos em casa, para quê procurar noutro lugar o que em nós se dá, quando os dias se abrem sobre as intempéries do momento? Basta sermos e sendo acolhermos os minutos todos como quem recolhe num balde as gotas da chuva.
— É em nós que se desvenda a iluminação dos instantes, mas é preciso que tudo permita esta rara aparição. Entre espadas e fome não há vida que irrompa pelo chão manchado de sangue.
— E contudo, até no campo salpicado de corpos depois da batalha a vida parece gritar no silêncio contido para lá da morte fraturante. É que o silêncio é onde se esconde o desejo eterno da vida, ainda que efémera e inconsistente.
— Tudo quanto fazemos é esse olhar secreto sobre a eternidade. Pedintes nos caminhos da vida, só a morte é o segredo que não tem tradução. Está escrita numa língua que não conhecemos e que jamais haveremos de conhecer, porque nos não foi dada a cifra.
— Será aí mesmo o lugar que procuramos, a casa do ser, onde nos deitaremos sobre o cicio de todos os sentidos.
— Na eternidade ou na morte?
— E não serão uma e a mesma coisa?
— Aparentemente serão os opostos que resistem a reconciliar-se.
— Mas o segredo da vida é exatamente a reconciliação de todos os opostos e, acima de todos, da morte e da eternidade que se enleiam e reconfiguram nos dias lavados de sangue ou nas noites que a Lua acaricia.

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