sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O tédio



Era terrível o tédio que tudo aplanava na mesma superfície impercetível. Que fazer da vida quando nada do que havia prometido se configurava e oferecia? Uma estranha sensação de nunca haver sido, nem sequer quando os dias haviam sorrido no burburinho do vento que a tarde servira. Que fazer agora, quando tudo parecia perdido? Como recuperar essa promessa antiga dobrada sobre a sua ocultação? O esquecimento… sim, talvez o esquecimento pudesse suportar essa ilusão de ser que lhe tomara a mente castigada pelo desânimo.
Saiu de casa. Para onde ir, se todos os lugares eram a mesma nulidade doentia que a noite segregava? Para lugar nenhum. Andar ao deus-dará pelas praças repletas de vontades que se não reconheciam. O mundo é isso mesmo: uma soma de vontades que se não reconhecem, cada uma crente na loucura da própria infinitude. Cada ser humano é a religião de si próprio como se a vontade pessoal delimitasse o ser e condensasse o tempo.
Aqui e ali a mesma incompreensão das pessoas que se cruzam, a mesma perdição entre perdições individuais e mesquinhas. E afinal, quem sabe se não será tudo bem mais fácil de definir? Quem sabe se cada ser humano não é o naufrágio de si mesmo no oceano onde lhe calhou acontecer? Fatal é a vida, como tudo o que a envolve. Seremos donos de nós próprios? Viemos ao mundo para o reconstruir e nele nos reconstruirmos em cada instante, como creem os ingénuos? Não. Somos poeira cósmica lançada pelo acaso na praia da vida. E aqui nos extinguimos, sufocados que estamos no regaço puído do tempo.
Uma criança que grita correndo e saltando na inconsciência do nada que a espreita. Uma criança feliz, porque nada conhece nem desdobra sobre a consciência a própria condição. Talvez a salvação seja mesmo esse regresso à infância que fomos e esquecemos ter sido… e esse descuido foi a nossa perdição. Voltar a adquirir a ingénua crença de que tudo faz sentido, de que o vento tem um propósito e mesmo a noite funda, esse cadinho de morte e medo, regressa sempre à promessa que fora, quando o dia se ergue na alegria luxuriante da vida. Ah quem me dera ser de novo esse enleio despreocupado que brinca às escondidas como quem acha numa esquina o segredo do mundo! Ah quem me dera ser de novo esse que fui em tempos, quando a alegria era a face permitida da vida e a morte não sufocara ainda a loucura da esperança! E em vez disso, passeio no Rossio abstrato o tédio de tudo quanto sou. E em vez disso, perco-me, pessoa entre sombras indistintas, povoando a noite que a alma acolhe. A única salvação do ser humano, se é que há para o ser humano qualquer coisa que se possa assemelhar a salvação, é regressar à infância que foi, quando tudo era claro e o horizonte prometia. Mas eu passeio-me na inquietude dos instantes sempre iguais, planos como a vida. Passeio-me no tédio que me dói e adoece, como se tudo escavasse sobre a tarde o próprio esquecimento.

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