segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Um destino incomum



Cheguei à estação de comboios antes da hora que o estranho horário ostentava. Para quê permanecer mais tempo ainda naquela sinistra e obscura cidade que me rejeitara durante mais de uma década cujo travo amargo se derramara pela ilharga de cada instante. Vivera como se tudo acontecesse para lá da ilusória vontade que nos faz acreditar sermos fautores do próprio destino. Resignei-me a ser o que o tempo me oferecera e sobejou apenas a cinza das horas intranquilas. Então, reservei para mim o direito a construir o meu próprio futuro, como se tudo acontecesse sob a batuta determinada de um maestro a cuja vontade se verga a dissonante música da vida. E nem assim obtive da cidade o que sempre desejara. Tudo me era esquivo e distante. E o que se aproximara dos limites do meu ser tinha a secura das horas proibidas. Era tempo de partir para longe de tudo quanto conhecera, de tudo quanto me negara a vida, de tudo quanto me dobrara a um destino resignado e triste.
Não fora fácil a decisão. Afinal não se mudam as rotinas, mesmo que funestas, com a mesma ligeireza com que a noite toma da tarde o testemunho. Somos animais de iterativas circunstâncias. Amamos a certeza enfadonha com que elas nos brindam. Abominamos a suspensão obscura que o tempo traz, quando se não entrincheira no eterno retorno de todas as práticas recursivas. Preferimos, por vezes, embarcar na desolação que nos aguarda à porta de nós mesmos ao abalo de um futuro que não antevemos. E assim nos deixamos tomar pelo ramerrão quotidiano, mesmo navegando à superfície da vida. Até se tornar insuportável o fumo lancinante dos instantes sempre iguais.
Decidi, pois, tomar um comboio para longe do que havia sido. Mas para onde? Qual seria o destino onde me haveria de achar, perdido que estava da minha condição dispersa? Qual seria o lugar onde me pudesse cumprir?
Solicitara na bilheteira um horário completo que eu pudesse estudar em pormenor, no qual um raio de luz visitasse a aziaga solidão, companheira de todos os dias. Depois de ler pausadamente o horário, vi que havia, inscrito nele a letras desiguais, um destino invulgar. Às oito da manhã da quarta-feira seguinte (e, facto insólito, apenas dessa quarta-feira) partia daquela estação um comboio para Lugar Nenhum. Seria esta decerto a direção que mais me haveria de convir. Disso não tinha a mais pequena dúvida. E se um destino qualquer nos orienta os passos, ali estava ele, naquele único e irrepetível comboio que deixara no horário extremo a sua pegada sobranceira e talvez benigna.
Ainda eram sete horas e quarenta e cinco minutos. No quadro eletrónico lá estava o misterioso comboio que haveria de tomar na linha dois da promissora estação. Nada dormira durante toda a noite. Afinal, não é todos os dias que embarcamos para destino tão incomum. E como não dormira, pensara no que haveria de ser a minha vida em Lugar Nenhum. Talvez que aí tudo se conformasse à razão de toda a minha existência precária. Talvez fosse apenas tempo de pensar, sem a intromissão dos acontecimentos que não controlamos, no espaço noturno que a minha consciência construíra para si mesma. Aí não teria a desculpa de serem os outros o motivo intransigente da minha infelicidade. Seria eu só, no silêncio calado da minha solidão, o culpado de tudo quanto não vivera, de tudo quanto me negara. Talvez no final da viagem pudesse regressar à mesma estação e observar a cidade sob um novo olhar, que tudo será branco quando o olho vê branco e negro quando a cegueira nos impede de aceitar a dádiva da luz.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O tédio



Era terrível o tédio que tudo aplanava na mesma superfície impercetível. Que fazer da vida quando nada do que havia prometido se configurava e oferecia? Uma estranha sensação de nunca haver sido, nem sequer quando os dias haviam sorrido no burburinho do vento que a tarde servira. Que fazer agora, quando tudo parecia perdido? Como recuperar essa promessa antiga dobrada sobre a sua ocultação? O esquecimento… sim, talvez o esquecimento pudesse suportar essa ilusão de ser que lhe tomara a mente castigada pelo desânimo.
Saiu de casa. Para onde ir, se todos os lugares eram a mesma nulidade doentia que a noite segregava? Para lugar nenhum. Andar ao deus-dará pelas praças repletas de vontades que se não reconheciam. O mundo é isso mesmo: uma soma de vontades que se não reconhecem, cada uma crente na loucura da própria infinitude. Cada ser humano é a religião de si próprio como se a vontade pessoal delimitasse o ser e condensasse o tempo.
Aqui e ali a mesma incompreensão das pessoas que se cruzam, a mesma perdição entre perdições individuais e mesquinhas. E afinal, quem sabe se não será tudo bem mais fácil de definir? Quem sabe se cada ser humano não é o naufrágio de si mesmo no oceano onde lhe calhou acontecer? Fatal é a vida, como tudo o que a envolve. Seremos donos de nós próprios? Viemos ao mundo para o reconstruir e nele nos reconstruirmos em cada instante, como creem os ingénuos? Não. Somos poeira cósmica lançada pelo acaso na praia da vida. E aqui nos extinguimos, sufocados que estamos no regaço puído do tempo.
Uma criança que grita correndo e saltando na inconsciência do nada que a espreita. Uma criança feliz, porque nada conhece nem desdobra sobre a consciência a própria condição. Talvez a salvação seja mesmo esse regresso à infância que fomos e esquecemos ter sido… e esse descuido foi a nossa perdição. Voltar a adquirir a ingénua crença de que tudo faz sentido, de que o vento tem um propósito e mesmo a noite funda, esse cadinho de morte e medo, regressa sempre à promessa que fora, quando o dia se ergue na alegria luxuriante da vida. Ah quem me dera ser de novo esse enleio despreocupado que brinca às escondidas como quem acha numa esquina o segredo do mundo! Ah quem me dera ser de novo esse que fui em tempos, quando a alegria era a face permitida da vida e a morte não sufocara ainda a loucura da esperança! E em vez disso, passeio no Rossio abstrato o tédio de tudo quanto sou. E em vez disso, perco-me, pessoa entre sombras indistintas, povoando a noite que a alma acolhe. A única salvação do ser humano, se é que há para o ser humano qualquer coisa que se possa assemelhar a salvação, é regressar à infância que foi, quando tudo era claro e o horizonte prometia. Mas eu passeio-me na inquietude dos instantes sempre iguais, planos como a vida. Passeio-me no tédio que me dói e adoece, como se tudo escavasse sobre a tarde o próprio esquecimento.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Voltar aqui



— Talvez não tenha que voltar aqui — disse, às voltas consigo mesmo no descampado interior que a tarde consentiu.
— E para que quererias tu voltar aqui? Não há sempre um lugar diferente onde deixar o corpo, ainda que alma vagueie pelas pregas de lugar nenhum?
— Enganas-te. É sempre obrigatório regressar onde pertencemos. Mesmo que tenhamos saído para longe do que somos e nos tenhamos tornado forasteiros da vida. Porque só onde pertencemos poderemos ser em plenitude.
— Será mesmo assim como dizes? E onde será esse lugar onde estamos em casa, onde nos sentimos pacificados connosco mesmos, longe do tumulto estrangeiro dos instantes? Nunca descobri um tal lugar, se é que existe.
— Talvez tenhas procurado demais. Só quando já não procuramos é que o poderemos achar, porque a nossa pátria está em nós mais ainda do que essa severa imitação da vida a que damos o nome de autoconsciência.
— Mas se é em nós que estamos em casa, para quê procurar noutro lugar o que em nós se dá, quando os dias se abrem sobre as intempéries do momento? Basta sermos e sendo acolhermos os minutos todos como quem recolhe num balde as gotas da chuva.
— É em nós que se desvenda a iluminação dos instantes, mas é preciso que tudo permita esta rara aparição. Entre espadas e fome não há vida que irrompa pelo chão manchado de sangue.
— E contudo, até no campo salpicado de corpos depois da batalha a vida parece gritar no silêncio contido para lá da morte fraturante. É que o silêncio é onde se esconde o desejo eterno da vida, ainda que efémera e inconsistente.
— Tudo quanto fazemos é esse olhar secreto sobre a eternidade. Pedintes nos caminhos da vida, só a morte é o segredo que não tem tradução. Está escrita numa língua que não conhecemos e que jamais haveremos de conhecer, porque nos não foi dada a cifra.
— Será aí mesmo o lugar que procuramos, a casa do ser, onde nos deitaremos sobre o cicio de todos os sentidos.
— Na eternidade ou na morte?
— E não serão uma e a mesma coisa?
— Aparentemente serão os opostos que resistem a reconciliar-se.
— Mas o segredo da vida é exatamente a reconciliação de todos os opostos e, acima de todos, da morte e da eternidade que se enleiam e reconfiguram nos dias lavados de sangue ou nas noites que a Lua acaricia.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O absurdo da vida



Será a vida humana um tombo absurdo no mundo sem nenhuma vontade que a tivesse querido, nem nenhuma intenção que lhe estivesse na base? Por que razão teimamos em pôr ordem no mundo, ainda que à nossa volta gravite o caos metafísico e moral? Por que razão insistimos em revoltar-nos face ao sofrimento do inocente, à injustiça que tomba inexplicavelmente sobre bons e maus, numa proporção que dificilmente somos capazes de equacionar à luz de uma razão radiosa? Quase todo o comportamento humano, por mais alheio a qualquer ideia religiosa, tem a sua explicação adequada na existência de um horizonte que se não coaduna com a desordem e o mal. Vivemos como se a morte não existisse. Indignamo-nos com o mal que transparece despudoradamente, como se não fosse inerente à condição da vida, como se fosse um discurso errático, sem sentido, no plano magistralmente racional com que o universo está escrito. E apesar de tudo isso, nem pestanejamos quando nos declaramos ateus. Comportamo-nos como crentes quando bradamos pela bondade e pela ordem de um universo inexplicavelmente contraditório, que contém em si as inequívocas sementes do mal e da desordem, sem nos apercebermos que ao fazê-lo pressupomos um fundamento absolutamente luminoso pelo qual ansiamos.
Somos indagadores da verdade absoluta, apesar de apenas lhe desocultarmos a face temporal e finita. E não haverá tempo, nos poucos anos que por aqui vivemos, para dela extrairmos a esquiva seiva. E mesmo que estendêssemos até ao infinito o tempo natural da vida, recolheríamos apenas as migalhas do mistério espalhadas pelo solo do mundo.
Cada vez estou mais convencido de que não haverá salvação para o ser humano se Deus for apenas um sonho na mente alucinada da humanidade. É por isso que, mesmo que Deus não exista, me não cansarei de acreditar que existe.

domingo, 8 de setembro de 2013

Deus



Deus para mim é uma evidência. Não uma evidência racional, pois provavelmente escapa a todas as incursões da razão. Nenhuma prova o há de confirmar. Nenhuma demonstração lhe será adequada. Mas apesar disso, Deus é para mim uma evidência. Uma evidência do coração. A ideia que faço dele é tão bela, tão elevada, tão luminosa que tem de existir realmente um tal ser. Dir-me-ão que nada disto prova a sua existência. E assim será. Mas a beleza infinita torna os dias menos tenebrosos e tinge o tempo do sentido de que carece.
Muitos brandem as categorias racionais para nos assegurarem da impossibilidade da sua existência. Outros, recorrendo às mesmas categorias, creem poder deduzir Deus da contingência do mundo. Uma e outra atitude são pomposas pretensões humanas que excluem Deus do âmbito que lhe é próprio. Deus é o mistério absoluto. Só é possível nomeá-lo por meio de metáforas que se aproximam apenas levemente da sua natureza incomensurável. Estaremos tanto mais perto de Deus, quanto mais nos despojarmos da pretensão de o enclausurarmos nos nossos conceitos acanhados. O afastamento de Deus é paradoxalmente a sua maior aproximação.
Pelo contrário, o caminho do coração é o que nos introduz no seu mistério maior. Porém, dirão os mais céticos, o facto de eu amar a Deus e desejar que exista não implica que exista realmente. E eu dou-lhes razão. Mas o facto de eu o desejar não é razão suficiente para excluir perentoriamente que exista.
Deus é a única possibilidade humana de salvação perante a miséria da morte a que estamos votados, perante a miséria do pecado que experimentamos como atores (in)competentes ou alvos passivos da maldade alheia. E o coração diz-me que não tenha medo de aceitar a dúvida que a razão teimosa nos serve todos os dias, de aceitar que tudo quanto acontece no universo só terá sentido à luz da eternidade. O coração diz-me.