segunda-feira, 10 de junho de 2013

Cinquenta anos



Há algumas décadas, completar cinquenta anos era estar no crepúsculo da vida. E quem quisesse deixar no mundo alguma marca duradoura ― e tivesse talento para tal ― devia pensar fazê-lo antes de se aproximar desse limiar perigoso que a vida raramente consentia. Nessa época, não havia tempo para crescer. Num ápice, sem qualquer solução de continuidade, passava-se da idade infantil para a adulta. Não havia nada que se parecesse com um tempo intermédio, onde o tempo transcorre no tumulto que muitas alterações físicas e psíquicas introduzem.
Hoje já assim não é. A infância pode decorrer placidamente resguardada de toda a preocupação. A adolescência ― essa nova aquisição dos tempos modernos ― prolonga o tempo da dependência até bem tarde. E a idade adulta faz-se à estrada apenas na casa dos vinte ou mesmo dos trinta.
E essa dilatação do tempo adia todas as realizações humanamente relevantes. Por isso, ao completar cinquenta anos, sinto que estou por cumprir. Não sei se alguma vez me sentirei inteiramente desdobrado sobre o lençol da história. É possível que ninguém o sinta plenamente. O ser humano é e será sempre esse mistério que o tempo vai revelando, mas que as pregas do seu fluir inevitavelmente escondem. E apesar disso, sinto que posso dar ao mundo muito mais do que dei até agora. Basta que não esmoreça e dedique a tal tarefa o tempo necessário e o esforço que solicita. Depois caberá aos outros a avaliação do que eu fizer. Todos sabemos como é efémera a obra humana e, com ela, toda a aferição do seu valor. Sei bem que o que eu escrever há de sucumbir à voragem da história. E apesar disso, não deixarei de o fazer, convicto de que algumas realizações pessoais valerão a pena. Pelo menos para algumas pessoas, por poucas que sejam. Se alguém ler um texto meu e nele encontrar resposta às suas solicitações espirituais, julgo ter cumprido a minha função no mundo. Esta certeza basta-me para permanecer fiel à tarefa de acrescentar um pouco de beleza às intermitências do mundo.