sábado, 4 de maio de 2013

Um furacão na barra do país



Um rosto choroso de criança, perturbada pela falta de pão, pelo desemprego dos pais, pelas preocupações materiais que apenas ao mundo dos adultos pertencem ou deviam pertencer… Custa ver este espetáculo clamoroso, sem desferir sobre a mesa o punho cerrado da própria indignação. Às crianças compete viverem inteiramente despreocupadas, sem aqueles temores que só os adultos devem apoquentar. Infelizmente, assistimos ao retorno da pobreza, quando esse fantasma parecia ter sido, de um modo geral (a verdade é que nunca o foi totalmente), enxotado da vida pública. O regresso dos fantasmas estampado no rosto desesperado das crianças que uma reportagem televisiva exibe perante os olhos atónitos de uma multidão…
Que dizer da frieza com que o primeiro-ministro nos brindou ontem no anúncio de mais um corte na despesa do Estado, no valor astronómico de 4800 milhões de euros? Que dizer dos olhos tristes das crianças famintas cujos pais perderam o emprego, cujos pais hão de ainda perder o emprego, dado que tais cortes terão decerto as suas perversas consequências sociais? Que dizer do discurso contabilisticamente frio de um primeiro-ministro, contrastando com a miséria espelhada na face sem esperança de milhares de portugueses? Um governo que dirige o país a ferro e fogo não merece o lugar que ocupa, nem o povo que governa. Por isso também sou dos que clamam por eleições antecipadas, dada a insensibilidade social, económica e política dos que nos governam (ou desgovernam).
Ontem, Francisco Louçã disse o que para mim é óbvio, mas necessita de ser dito: a cega política de austeridade devora-se a si mesma, porque medidas de austeridade provocam recessão, a qual produz perda de receitas e, portanto, exige mais austeridade para supostamente equilibrar as contas públicas. O círculo vicioso não tem retorno se não forem abandonadas as políticas em que este governo acredita piamente, como uma religião qualquer. Mas as crenças deles têm, lamentavelmente, repercussões calamitosas sobre a situação do país e revertem nos olhos tristemente apagados de crianças famintas, preocupadas com o futuro da sua família. Para o governo, trata-se apenas de despedir mais trinta mil funcionários públicos. Como se se tratasse de beber um copo de água.
É assim que tal situação abate irremediavelmente qualquer espírito, por mais otimista que seja. E uma tal política expande a fome que grassa nas margens do tecido social, enquanto os senhores do mundo passam ao lado, assobiando, sem disso tomar cuidado. É desoladora tal conjuntura político-económica! E urge que tombe sobre quem domina o juízo de todo um povo oprimido. Em democracia, só eleições antecipadas podem responder pacificamente à violência a que a população está sujeita. E se um presidente da república, alheio ao sofrimento da comunidade humana, se recusar a ver o óbvio, urge que a coletividade manifeste o seu descontentamento, oferecendo-lhe assim razões bastantes para demitir o governo e convocar eleições antecipadas. Julgo que é cada vez mais difícil assobiar para o lado, enquanto a desgraça deita raízes à porta das nossas casas.

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