sábado, 25 de maio de 2013

A função da arte

O pensador de Rodin



Produzir uma obra de arte no meio da banalidade do quotidiano não é tarefa fácil. A futilidade entranha-se no corpo como a peste negra em tempo de epidemia. Custa-nos libertar-nos do peso cansado da mera repetição das palavras, dos gestos, dos assuntos que servem de conversa e nada acrescentam à vida pessoal ou coletiva ou, se acrescentam, são apenas pragmaticamente relevantes, não humanamente relevantes. Qual a diferença entre um e outro tipo de relevância? O primeiro funda o discurso útil, prático, mas também o discurso científico e tecnológico. E apenas na medida em que serve determinados fins, é socialmente pertinente. Porém, falta-lhe a espessura dos sentimentos, a força profunda do sentido. É o que é e não pode ser diversamente, nem aponta para qualquer outra dimensão, para além da comezinha realidade dos objetos imediatos. Pelo contrário, a arte (e neste sentido, todo o discurso simbólico, como o discurso religioso) pretende aportar no âmago da vida, para lá das necessidades imediatas. O discurso estético é rico na sua textura, está ali como testemunha de outra coisa de indecifrável, de misterioso, de transcendente. É a vida na sua plena e mais profunda manifestação.
Como realizar, então, uma obra de arte quando vivemos impregnados pela superfície da vida? Levantamo-nos de manhã cedo, lavamo-nos, deglutimos o pequeno-almoço, corremos para o emprego, produzimos bens úteis, regressamos a casa, estafados, cozinhamos o jantar e comemo-lo, na companhia da família ou sozinhos, vamo-nos deitar para, no dia seguinte, repetirmos incansavelmente a mesma labuta, durante semanas, meses e anos, até nos confrontarmos com o tempo da reforma, com que ansiámos vezes sem conta. Possivelmente, começamos nessa altura e sentir-nos inúteis e desprovidos de sentido. Sem o querer, fomos agarrados pelo quotidiano. Vestimos a pele da monótona passagem das horas, do incansável e recursivo fio do quotidiano. Deixámos de atribuir sentido a qualquer outra forma de vida que não aquela. Sentimos que a rutura com este ramerrão de inúteis utilidades é uma espécie de catástrofe sem concerto. Fomos raptados à vida. À verdadeira, à autêntica, à que não navega nos gestos reiteradamente repostos.
É preciso reaprender a viver. Dar sentido a cada instante para lá da superfície das coisas, mesmo quando os dias nos convocam para a mera utilidade dos minutos, é o grande segredo, a grande aprendizagem que somos chamados a viver até ao último suspiro. Para que tudo possa fazer sentido. Para que cada um de nós possa reconhecer o seu insubstituível lugar na existência.
E uma das dimensões que maior sentido atribui à vida é aquela ação humana impregnada de valores estéticos a que damos o nome de arte. A escolarização dos jovens tem feito muito pelo necessário processo de abertura da pessoa a esse universo de valores, que constitui a mais inútil de todas as atividades humanas, mas igualmente uma das que atribui maior sentido à existência. Um objeto artístico convoca o sujeito para a sua compreensão e o ato de o compreender é já também uma ação estética. Por isso, ter da vida uma ideia estética é sugar o seu tutano e reencontrar-se lá mesmo onde o símbolo remete para outra realidade. Ser intérprete do objeto artístico já é criatividade suficiente, mas produzi-lo é, a fortiori, uma experiência de vértice que oferece ao sujeito uma espécie de inenarrável êxtase quase religioso. É, pois, urgente que a escola seja esse lugar de aprendizagem da vida enquanto arte. Subtrair os jovens a tal aprendizagem, em nome de um paupérrimo utilitarismo humanamente decadente, é comprometer o equilíbrio das sociedades futuras e condenar as pessoas ao processo quotidiano de repetição do igual, sem rasgos nem janelas criativas sobre mundos inexplorados.

1 comentário:

  1. Muito bem!
    Se a Arte está mais próxima do indizível, consegues dar uma imagem quase artística do que é a Arte ou a importância dela.
    Parabéns.

    um abraço
    LB

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