domingo, 14 de abril de 2013

«Somos o esquecimento que seremos»



«Somos o esquecimento que seremos»: um livro notável pelo vigor do seu testemunho. Tal como Borges afirmava, talvez sejamos já esse esquecimento que inelutavelmente seremos, pois não há memória que nos possa resgatar a tal destino. Só um deus poderia cumprir tal desiderato. Só na memória absoluta de um deus poderíamos permanecer eternamente e nada do que fomos se haveria realmente perder. Mas o homem contemporâneo não crê num deus que o resgate ao oblívio. Observa no mundo demasiada injustiça, demasiada irracionalidade. E como poderia um deus bom e omnipotente conviver com um mundo tão diametralmente oposto à sua vontade infinita? A existência do mal no mundo, do mal na sua mais lancinante e despudorada aparição, nega, pois, que uma divindade possa existir. E é por isso que estamos condenados, desde o primeiro segundo da nossa precária existência, a sermos a ínfima irrupção ocasional de um grão de poeira cósmica na imensidão da praia universal do tempo. Perduramos num lapso minúsculo e ao nada estamos inexoravelmente votados, tal como do nada provimos. Perduramos igualmente enquanto alguma memória humana nos der guarida na cega escorrência do tempo. Mas cedo, sempre demasiado cedo, seremos esse esquecimento que guarda memória da nossa origem casual e fortuita, sem um sentido, nem finalidade que sobre ela reponha a densidade que buscamos.
Valerá a pena, numa tal visão da vida, lutar para que o mundo faça sentido, quando é o não sentido que lhe dá forma desde sempre? O autor crê que sim. Eu regozijo-me com ele, mas creio haver nesta atitude alguma incoerência metafísica. Se toda a atuação humana ganha sentido nesse labor pela justiça, pela verdade e pela beleza é exatamente porque o ser humano não pode viver senão inserido num fio de tempo ao qual atribui sentido. E se a irracionalidade da injustiça desmente esse facto, a teimosia em querer fazer do mísero lapso das horas que nos é dado viver um cadinho de vida aí está a testemunhar que convivemos mal com o absurdo e, quer queiramos quer não, somos feitos para a vida, apesar da morte, para a justiça, apesar da injustiça, para a verdade, apesar da mentira, para a beleza, apesar da brutalidade de um quotidiano demasiado virulento.
Somos o esquecimento que seremos! Tal afirmação deve colocar-nos de sobreaviso em relação a toda a forma enfatuada de se autoconceber, a todo o orgulho sem sentido que eleva a própria individualidade acima do que realmente é. E é certo que, no arco do tempo histórico, estamos condenados a não existir, a sermos apenas um leve movimento de memória, enquanto alguém que no recorde sobreviver à voracidade do tempo, mas cedo, demasiado cedo, seremos anónimos cidadãos de uma história que ninguém conta. A humildade é, pois, a forma lúcida de encarar a vida, que se não atribui nenhum valor intemporal, nem a si nem à obra que os anos permitem que vá construindo, mesmo que o aplauso das gentes lhe ofereça a ilusão da permanência. Em última instância, basta-nos a humilde sensatez que os versos de Álvaro de Campos tão bem exprimem:

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

E não obstante a realidade crua da nossa impermanência, só um deus nos pode realmente resgatar ao esquecimento e atribuir sentido ao todo de que fazemos parte.
Porém, perante a morte prematura da pessoa que se ama a vida «não é mais do que uma absurda tragédia sem sentido para a qual não há consolo que valha.» E tal afirmação, que compreendo, dado o contexto existencial que a motiva, faz-me refletir sobre a necessidade de compaginar Deus com essa tragédia absurda para a qual não há consolo que valha.
Se Deus existir, o mundo dele depende e nele se move e permanece. Todavia, a história universal do mundo é a história da alteridade do universo em relação a Deus; é a negação de Deus que se realiza no processo da própria emancipação. Só um mundo que fosse pura identidade em relação a Deus ― e portanto só um mundo que o não fosse ― poderia ser racionalidade absoluta, luminosidade sem pregas obscuras sobre o nada. Só assim se compreende que as regras de funcionamento do mundo sejam racionais, mas realizem acontecimentos fortuitos onde o não sentido se insinua a cada instante.
E se assim for, cabe ao ser humano, no processo histórico onde vida e morte, justiça e injustiça, amor e ódio convivem, ser o corpo de Deus em ação no mundo, lutando para que essa alteridade regresse ao húmus originário de onde provém e se torne finalmente identidade absoluta com o fulgor da vida.
Somos então o esquecimento que seremos? Num certo sentido, sem dúvida que o somos já, condenados que estamos a dissiparmo-nos no vórtice do tempo. Mas se existir um deus, nada do que somos, nada do que são todos os que amamos se há de perder, pois essa memória absoluta tudo recolhe e a tudo dará sentido.

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