terça-feira, 2 de abril de 2013

Rei Lear



A fabulosa tragédia escrita por Shakespeare remete para a história de um rei que, na sua velhice, foi tomado pela loucura. Tal situação manifesta-se primeiro subtilmente, logo no início da peça, e mais tarde de forma evidente, quando os infortúnios se abatem impiedosamente sobre a sua triste vida.
Na verdade, só a loucura pode justificar que o rei decida a partilha do reino pelas suas três filhas com base em declarações de amor que ele espera revelarem-se adequadas à sua majestade. E o texto põe em relevo as palavras de adulação das duas primeiras filhas, que não correspondem a nenhum sentimento autêntico, mas tão-somente à vontade de poder, por oposição à simplicidade ingénua das palavras da filha mais nova, eivadas de uma sinceridade que fica muito aquém do real sentimento que nutre efetivamente pela velho pai. E ao longo de toda a ação, permanece claro que o amor autêntico se revela inesperadamente (ou talvez não) na ação concreta e na dedicação amorosa de Cordélia, a filha mais nova, apesar de ter sido deserdada; muito longe da bajulice interesseira das outras filhas que obtêm o poder e logo se desligam da farsa que as suas palavras haviam gerado, para se mostrarem inteiramente como eram, filhas ingratas e desleais sem o mínimo amor filial.
A trágica ação de um rei demente põe-nos de sobreaviso a respeito dos perigos de um poder absoluto, que não esteja sob vigilância de outros poderes, nem tenha de se submeter ao sufrágio da comunidade. É bem verdade que o poder absoluto de um só leva mais facilmente à ruína de uma comunidade, como se torna translúcido no desenrolar da ação que o texto nos descerra. De facto, o resultado, não previsto nem voluntário, do erro inicial de Lear é o ódio, a luta desenfreada pelo poder, a terrível vingança, o desterro da lealdade, a guerra atroz e, por fim, a morte. Tal como o conde de Gloucester dirá «É um tempo maldito aquele em que os cegos são guiados por doidos.» O poder absoluto nas mãos de um louco ― e todo o poder, quando não limitado por outros, é de certa forma uma loucura ― conduz inexoravelmente à trágica situação do desmoronamento global de toda uma comunidade. Quando absoluto, o poder depende em exclusivo do carácter de um só homem, da sua sanidade mental e do arbítrio da sua vontade, nem sempre firme no bem, muitas vezes volúvel e inclinada para o mal.
No entanto, talvez a peça tenha em vista uma outra lição de vida: se tens o poder, não o partilhes, porque podem aqueles que o assumirem não mostrar para contigo nenhuma espécie de gratidão e a tua desolação será o desfecho que não havias programado. A partilha do poder é sempre um risco e, quer se queira, quer não, significa a voluntária submissão ao poder alheio. Infelizmente, é parca a gratidão dos homens e imensa a avidez do seu coração.
Mas a natureza humana não gera apenas a ingratidão de muitos, gera também a fidelidade de poucos ― representados na peça por Cordélia, pelo rei de França, pelos condes de Kent e de Gloucester, por Edgar, etc. ― os quais, mesmo no meio da maior adversidade, se mantêm leais ao rei e, sobretudo, à bondade do próprio coração.
Por último, é da maior importância algumas observações de natureza social que emergem aqui e ali no texto de Shakespeare, manifestando a sua fina consciência social. No quarto ato, o conde de Gloucester, enquanto oferece ao pobre Edgar uma bolsa de dinheiro, pronuncia estas eloquentes palavras: «Olha, aí tens essa bolsa, é para ti; os flagelos celestes humilharam-te com seus golpes; eu, que sou um desgraçado, quero fazer-te mais feliz. Oh! Céus! quem dera que sempre assim procedesses! quem dera que o homem, farto do supérfluo, nutrido do pecado, desprezando as vossas leis, não vendo porque não quer ver, sentisse prontamente o vosso poder, de forma a fazer uma justa distribuição do excesso da sua riqueza e cada qual tivesse o que lhe fosse preciso!» Se é certo que os Céus (Deus) têm aqui um certo papel na criação das desigualdades eticamente intoleráveis, também é evidente que cabe ao ser humano repor a justiça distribuindo o que lhe sobra por aqueles a quem falta o necessário, como as leis dos Céus o determinam.
Um texto verdadeiramente sublime que põe a nu o melhor e o pior que a natureza humana encerra.

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