domingo, 21 de abril de 2013

Manter o equilíbrio da mente

Lembra-te de manter nos maus momentos,
e não menos nos bons, o equilíbrio da tua mente,
apartando-a dos excessos da alegria,
tu, Délio, que hás de morrer,

quer se triste todo o tempo tiveres vivido,
quer se, reclinando-te num remoto relvado,
durante os dias de festa reconfortado te tiveres
com um seleto vinho falerno.

(…)

Para um mesmo sítio todos nós forçados somos a partir,
mais cedo ou mais tarde, agitada na urna,
a nossa sorte há de sair, colocando-nos na Barca
rumo a um eterno exílio.

É assim o texto excelente de Horácio. Uma lição de vida para quem quiser aprender com este grande mestre da cultura ocidental. E não apenas porque escreve magistralmente, emprestando às frases aquela beleza que só a palavra dos deuses pode dar, mas também pelo conteúdo ético do que transmite.
Que verdade absoluta é esta, segundo a qual estamos condenados a tomar a Barca de Caronte, rumo a um destino definitivo, quer tenhamos vivido alegremente ou tenhamos mergulhado na mais tétrica tristeza! Afinal, qualquer que seja a nossa forma de vida, ela é uma fugidia impermanência no ser. De qualquer modo, enquanto aqui pernoitarmos, convém assumirmos a nossa condição: não dando à passagem pela existência aquela consistência que não tem, nem capitulando sob o peso do absurdo que o fim parece ostentar. Manter a mente equilibrada: eis a ingente tarefa de todo o ser humano. Não é fácil. Vivemos fustigados pelos vendavais da vida, pelas adversidades que a nós infligimos ou que outros nos infligem, pela caducidade da existência, pela tentação de não atribuirmos aos momentos outras tantas oportunidades para nos erguermos acima do tédio e do aborrecimento. O meio-termo é exatamente o que o homem sábio procura. O meio-caminho entre dois excessos cujos contornos se podem definir nos seguintes termos: por um lado, fazer coincidir com a vida aquela infinitude ontológica de que carece, por outro, recusar-lhe sem dó nem piedade aquela densidade que a mente humana é convidada a atribuir-lhe, para que todos os momentos possam ser vividos com sentido e o absurdo se escoe pelos recessos ocultos da alma.
Por último, será que a vida se há de derramar rumo a um exílio eterno, como Horácio proclama? No que me toca, sendo eu um incurável cristão, não vejo a morte como um exílio, mas como uma identificação com o absoluto, a fusão eterna de mim mesmo com a essência absoluta do universo. E assim sendo, apesar da ausência de provas, talvez a morte seja o encontro definitivo comigo mesmo e não esse vagar sem sentido no mundo etéreo das sombras sem densidade, ou essa queda sem retorno no nada absoluto. E é assim que a morte pode dar sentido à vida transitória pela qual gratuitamente caminhamos — esse dom inestimável de estar aqui, apesar da finitude das coisas e do absurdo que elas encerram.

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