sexta-feira, 26 de abril de 2013

Liberdade e democracia em tempos de crise

Ontem foi o dia em que comemorámos o regresso à vida. Depois de mais de quarenta anos em câmara ardente, velando o corpo moribundo da nação num caixão que a censura, o despotismo e a prepotência mantinham bem cerrado, os cravos saíram à rua pelas mãos dos militares, para dar um novo alento à face triste de uma nação derrotada. E que promessas nos trouxe esse regresso à vida? A educação, a saúde, a liberdade, os direitos humanos e a justiça para todos. Foram estas as promessas que a maior parte acreditou ser possível realizar num lapso de tempo relativamente curto. É certo que todos sabiam ser uma tarefa ingente, que não era possível realizar tal programa ousado de um dia para o outro, que haveria de haver avanços e recuos, que forças específicas haveriam de colocar estrategicamente pedras na engrenagem, porque havia (e há) interesses instalados que querem perpetuar a exploração, a penúria, a arrogância dos mais fortes. Todos sabiam, mas o caminho foi-se fazendo e ninguém pensou que trinta e nove anos depois fosse possível delapidar o património imaterial (e material) que três décadas de democracia foram construindo. Infelizmente, vemos agora que sob a capa do interesse público, as principais conquistas de abril se estão esboroando e se afundam na memória longínqua de um museu da história. Passo a passo, a atual governação, sob a justificação de que gastamos mais do que produzimos, tem procurado demolir todo o edifício humano que a liberdade e a democracia nos foram legando.
Dizem que se torna inevitável, dada a falência do Estado, cortar nas despesas com a educação, saúde (já nem se fala da cultura, esse bem inestimável que é sempre o parente pobre), na segurança social, na justiça… E para espanto do próprio Governo (espanto esse que espanta ao mais avisados, pois só o Governo não via o inevitável), nem as contas públicas estão mais equilibradas, nem a dívida diminuiu; bem pelo contrário, a política de terra queimada arrasou com o frágil tecido económico português, fazendo diminuir drasticamente as receitas e aumentar também drasticamente as despesas por causa do brutal aumento do desemprego. E tudo isto redunda no empobrecimento do país e na deterioração das condições sociais de milhares de cidadãos.
Passaram apenas trinta e nove anos e já mandámos às urtigas, sem dó nem piedade, o programa da revolução dos cravos. Que fazemos nós a todos os que usufruíram de uma aposta de três décadas na educação? Consideramo-los excedentes e exportamo-los para o estrangeiro, para que outros países usem o resultado de muitos anos de despesa pública do Estado português. Mas nada disto parece incomodar um Governo interessado apenas na contabilidade do deve e do haver, para o qual as conquistas de abril são meras declarações de intenção ou, pior ainda, devaneios de uma geração sem os pés assentes na terra.
Que fazer perante tudo isto? Resistir, resistir e resistir até ao limite das nossas forças. Nenhuma ideologia neoliberal nos pode arrancar do peito as convicções mais profundas de que um Estado deve prover às necessidades essenciais de todos os cidadãos e de que a iniciativa privada tem decerto o seu lugar no jogo livre da vida económica, mas a ela não podem ser outorgadas as principais funções sociais como a educação, a saúde, a justiça, a defesa e também certos setores essenciais da economia como a energia e as águas. E isto porque o objetivo da atividade económica privada é o lucro e não o bem-estar da população. Ao Estado, pelo contrário, cabe proporcionar a todos os cidadãos, em plena igualdade, o acesso aos bens essenciais da vida. O lucro e o bem-estar de todos são, na maior parte situações, inimigos viscerais que raramente se encontram e se respeitam.
Querem-nos encerrar de novo na câmara ardente da nossa perdição! No que me toca, prefiro viver o vinte e seis de abril da liberdade plena, da justiça, da saúde e da educação para todos, sem qualquer discriminação, do que regressar ao vinte e quatro de abril em que apenas os filhos dos mais abastados podiam usufruir desse património inestimável da humanidade. Resistir até ao limite, sem ceder a consensos que visam apenas espaço e justificação política para os desmandos de um liberalismo que entrega as funções do Estado, e com elas os próprios cidadãos, ao poder do lucro numa teia social onde o mais forte vingará e o mais fraco terá de se contentar com as migalhas que caem da mesa dos bafejados pela sorte. É preferível a tensão social assumida em liberdade do que uma paz apodrecida que adie apenas a explosão incontida.

domingo, 21 de abril de 2013

Manter o equilíbrio da mente

Lembra-te de manter nos maus momentos,
e não menos nos bons, o equilíbrio da tua mente,
apartando-a dos excessos da alegria,
tu, Délio, que hás de morrer,

quer se triste todo o tempo tiveres vivido,
quer se, reclinando-te num remoto relvado,
durante os dias de festa reconfortado te tiveres
com um seleto vinho falerno.

(…)

Para um mesmo sítio todos nós forçados somos a partir,
mais cedo ou mais tarde, agitada na urna,
a nossa sorte há de sair, colocando-nos na Barca
rumo a um eterno exílio.

É assim o texto excelente de Horácio. Uma lição de vida para quem quiser aprender com este grande mestre da cultura ocidental. E não apenas porque escreve magistralmente, emprestando às frases aquela beleza que só a palavra dos deuses pode dar, mas também pelo conteúdo ético do que transmite.
Que verdade absoluta é esta, segundo a qual estamos condenados a tomar a Barca de Caronte, rumo a um destino definitivo, quer tenhamos vivido alegremente ou tenhamos mergulhado na mais tétrica tristeza! Afinal, qualquer que seja a nossa forma de vida, ela é uma fugidia impermanência no ser. De qualquer modo, enquanto aqui pernoitarmos, convém assumirmos a nossa condição: não dando à passagem pela existência aquela consistência que não tem, nem capitulando sob o peso do absurdo que o fim parece ostentar. Manter a mente equilibrada: eis a ingente tarefa de todo o ser humano. Não é fácil. Vivemos fustigados pelos vendavais da vida, pelas adversidades que a nós infligimos ou que outros nos infligem, pela caducidade da existência, pela tentação de não atribuirmos aos momentos outras tantas oportunidades para nos erguermos acima do tédio e do aborrecimento. O meio-termo é exatamente o que o homem sábio procura. O meio-caminho entre dois excessos cujos contornos se podem definir nos seguintes termos: por um lado, fazer coincidir com a vida aquela infinitude ontológica de que carece, por outro, recusar-lhe sem dó nem piedade aquela densidade que a mente humana é convidada a atribuir-lhe, para que todos os momentos possam ser vividos com sentido e o absurdo se escoe pelos recessos ocultos da alma.
Por último, será que a vida se há de derramar rumo a um exílio eterno, como Horácio proclama? No que me toca, sendo eu um incurável cristão, não vejo a morte como um exílio, mas como uma identificação com o absoluto, a fusão eterna de mim mesmo com a essência absoluta do universo. E assim sendo, apesar da ausência de provas, talvez a morte seja o encontro definitivo comigo mesmo e não esse vagar sem sentido no mundo etéreo das sombras sem densidade, ou essa queda sem retorno no nada absoluto. E é assim que a morte pode dar sentido à vida transitória pela qual gratuitamente caminhamos — esse dom inestimável de estar aqui, apesar da finitude das coisas e do absurdo que elas encerram.

domingo, 14 de abril de 2013

«Somos o esquecimento que seremos»



«Somos o esquecimento que seremos»: um livro notável pelo vigor do seu testemunho. Tal como Borges afirmava, talvez sejamos já esse esquecimento que inelutavelmente seremos, pois não há memória que nos possa resgatar a tal destino. Só um deus poderia cumprir tal desiderato. Só na memória absoluta de um deus poderíamos permanecer eternamente e nada do que fomos se haveria realmente perder. Mas o homem contemporâneo não crê num deus que o resgate ao oblívio. Observa no mundo demasiada injustiça, demasiada irracionalidade. E como poderia um deus bom e omnipotente conviver com um mundo tão diametralmente oposto à sua vontade infinita? A existência do mal no mundo, do mal na sua mais lancinante e despudorada aparição, nega, pois, que uma divindade possa existir. E é por isso que estamos condenados, desde o primeiro segundo da nossa precária existência, a sermos a ínfima irrupção ocasional de um grão de poeira cósmica na imensidão da praia universal do tempo. Perduramos num lapso minúsculo e ao nada estamos inexoravelmente votados, tal como do nada provimos. Perduramos igualmente enquanto alguma memória humana nos der guarida na cega escorrência do tempo. Mas cedo, sempre demasiado cedo, seremos esse esquecimento que guarda memória da nossa origem casual e fortuita, sem um sentido, nem finalidade que sobre ela reponha a densidade que buscamos.
Valerá a pena, numa tal visão da vida, lutar para que o mundo faça sentido, quando é o não sentido que lhe dá forma desde sempre? O autor crê que sim. Eu regozijo-me com ele, mas creio haver nesta atitude alguma incoerência metafísica. Se toda a atuação humana ganha sentido nesse labor pela justiça, pela verdade e pela beleza é exatamente porque o ser humano não pode viver senão inserido num fio de tempo ao qual atribui sentido. E se a irracionalidade da injustiça desmente esse facto, a teimosia em querer fazer do mísero lapso das horas que nos é dado viver um cadinho de vida aí está a testemunhar que convivemos mal com o absurdo e, quer queiramos quer não, somos feitos para a vida, apesar da morte, para a justiça, apesar da injustiça, para a verdade, apesar da mentira, para a beleza, apesar da brutalidade de um quotidiano demasiado virulento.
Somos o esquecimento que seremos! Tal afirmação deve colocar-nos de sobreaviso em relação a toda a forma enfatuada de se autoconceber, a todo o orgulho sem sentido que eleva a própria individualidade acima do que realmente é. E é certo que, no arco do tempo histórico, estamos condenados a não existir, a sermos apenas um leve movimento de memória, enquanto alguém que no recorde sobreviver à voracidade do tempo, mas cedo, demasiado cedo, seremos anónimos cidadãos de uma história que ninguém conta. A humildade é, pois, a forma lúcida de encarar a vida, que se não atribui nenhum valor intemporal, nem a si nem à obra que os anos permitem que vá construindo, mesmo que o aplauso das gentes lhe ofereça a ilusão da permanência. Em última instância, basta-nos a humilde sensatez que os versos de Álvaro de Campos tão bem exprimem:

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

E não obstante a realidade crua da nossa impermanência, só um deus nos pode realmente resgatar ao esquecimento e atribuir sentido ao todo de que fazemos parte.
Porém, perante a morte prematura da pessoa que se ama a vida «não é mais do que uma absurda tragédia sem sentido para a qual não há consolo que valha.» E tal afirmação, que compreendo, dado o contexto existencial que a motiva, faz-me refletir sobre a necessidade de compaginar Deus com essa tragédia absurda para a qual não há consolo que valha.
Se Deus existir, o mundo dele depende e nele se move e permanece. Todavia, a história universal do mundo é a história da alteridade do universo em relação a Deus; é a negação de Deus que se realiza no processo da própria emancipação. Só um mundo que fosse pura identidade em relação a Deus ― e portanto só um mundo que o não fosse ― poderia ser racionalidade absoluta, luminosidade sem pregas obscuras sobre o nada. Só assim se compreende que as regras de funcionamento do mundo sejam racionais, mas realizem acontecimentos fortuitos onde o não sentido se insinua a cada instante.
E se assim for, cabe ao ser humano, no processo histórico onde vida e morte, justiça e injustiça, amor e ódio convivem, ser o corpo de Deus em ação no mundo, lutando para que essa alteridade regresse ao húmus originário de onde provém e se torne finalmente identidade absoluta com o fulgor da vida.
Somos então o esquecimento que seremos? Num certo sentido, sem dúvida que o somos já, condenados que estamos a dissiparmo-nos no vórtice do tempo. Mas se existir um deus, nada do que somos, nada do que são todos os que amamos se há de perder, pois essa memória absoluta tudo recolhe e a tudo dará sentido.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Rei Lear



A fabulosa tragédia escrita por Shakespeare remete para a história de um rei que, na sua velhice, foi tomado pela loucura. Tal situação manifesta-se primeiro subtilmente, logo no início da peça, e mais tarde de forma evidente, quando os infortúnios se abatem impiedosamente sobre a sua triste vida.
Na verdade, só a loucura pode justificar que o rei decida a partilha do reino pelas suas três filhas com base em declarações de amor que ele espera revelarem-se adequadas à sua majestade. E o texto põe em relevo as palavras de adulação das duas primeiras filhas, que não correspondem a nenhum sentimento autêntico, mas tão-somente à vontade de poder, por oposição à simplicidade ingénua das palavras da filha mais nova, eivadas de uma sinceridade que fica muito aquém do real sentimento que nutre efetivamente pela velho pai. E ao longo de toda a ação, permanece claro que o amor autêntico se revela inesperadamente (ou talvez não) na ação concreta e na dedicação amorosa de Cordélia, a filha mais nova, apesar de ter sido deserdada; muito longe da bajulice interesseira das outras filhas que obtêm o poder e logo se desligam da farsa que as suas palavras haviam gerado, para se mostrarem inteiramente como eram, filhas ingratas e desleais sem o mínimo amor filial.
A trágica ação de um rei demente põe-nos de sobreaviso a respeito dos perigos de um poder absoluto, que não esteja sob vigilância de outros poderes, nem tenha de se submeter ao sufrágio da comunidade. É bem verdade que o poder absoluto de um só leva mais facilmente à ruína de uma comunidade, como se torna translúcido no desenrolar da ação que o texto nos descerra. De facto, o resultado, não previsto nem voluntário, do erro inicial de Lear é o ódio, a luta desenfreada pelo poder, a terrível vingança, o desterro da lealdade, a guerra atroz e, por fim, a morte. Tal como o conde de Gloucester dirá «É um tempo maldito aquele em que os cegos são guiados por doidos.» O poder absoluto nas mãos de um louco ― e todo o poder, quando não limitado por outros, é de certa forma uma loucura ― conduz inexoravelmente à trágica situação do desmoronamento global de toda uma comunidade. Quando absoluto, o poder depende em exclusivo do carácter de um só homem, da sua sanidade mental e do arbítrio da sua vontade, nem sempre firme no bem, muitas vezes volúvel e inclinada para o mal.
No entanto, talvez a peça tenha em vista uma outra lição de vida: se tens o poder, não o partilhes, porque podem aqueles que o assumirem não mostrar para contigo nenhuma espécie de gratidão e a tua desolação será o desfecho que não havias programado. A partilha do poder é sempre um risco e, quer se queira, quer não, significa a voluntária submissão ao poder alheio. Infelizmente, é parca a gratidão dos homens e imensa a avidez do seu coração.
Mas a natureza humana não gera apenas a ingratidão de muitos, gera também a fidelidade de poucos ― representados na peça por Cordélia, pelo rei de França, pelos condes de Kent e de Gloucester, por Edgar, etc. ― os quais, mesmo no meio da maior adversidade, se mantêm leais ao rei e, sobretudo, à bondade do próprio coração.
Por último, é da maior importância algumas observações de natureza social que emergem aqui e ali no texto de Shakespeare, manifestando a sua fina consciência social. No quarto ato, o conde de Gloucester, enquanto oferece ao pobre Edgar uma bolsa de dinheiro, pronuncia estas eloquentes palavras: «Olha, aí tens essa bolsa, é para ti; os flagelos celestes humilharam-te com seus golpes; eu, que sou um desgraçado, quero fazer-te mais feliz. Oh! Céus! quem dera que sempre assim procedesses! quem dera que o homem, farto do supérfluo, nutrido do pecado, desprezando as vossas leis, não vendo porque não quer ver, sentisse prontamente o vosso poder, de forma a fazer uma justa distribuição do excesso da sua riqueza e cada qual tivesse o que lhe fosse preciso!» Se é certo que os Céus (Deus) têm aqui um certo papel na criação das desigualdades eticamente intoleráveis, também é evidente que cabe ao ser humano repor a justiça distribuindo o que lhe sobra por aqueles a quem falta o necessário, como as leis dos Céus o determinam.
Um texto verdadeiramente sublime que põe a nu o melhor e o pior que a natureza humana encerra.