terça-feira, 12 de março de 2013

Que espera o mundo da Igreja?



Que espera o mundo da Igreja? Qual a visão que o mundo tem da Igreja real? Uma séria investigação que responda a estas duas interrogações poderia ser de grande auxílio na consecução do processo de autorreforma da Igreja Católica.
Sem querer adiantar-me aos resultados de uma tal pesquisa, parece-me que o mundo espera da Igreja que seja coerente com o ideal que ousa pregar, com a mensagem originária do cristianismo. E num mundo onde a informação corre à velocidade da luz, onde a evolução é constante e vertiginosa, o mundo espera da Igreja que anuncie o fundamento seguro de toda a atitude religiosa e simultaneamente se liberte de um discurso dogmático, pré-construído, formulaico e frio. Que adote, portanto, uma linguagem mais afetiva e menos rígida; que condene menos e compreenda mais; que seja lenta no juízo negativo sobre os desenvolvimentos do mundo atual e célere na autocrítica; que insista no núcleo fundamental da mensagem cristã e prescinda do uso de fórmulas de fé que dois mil anos de existência teimaram em acumular. É que a fé é substancialmente uma atitude, mais do que a aceitação intelectual de frases pré-concebidas. Ter fé não é proclamar um rol de fórmulas que concílios e papas definiram num passado mais ou menos longínquo, mas entregar ao Absoluto a própria existência, com aquela confiança que se consolida no encontro pessoal e comunitário com o Deus pessoal de cuja bondade todos dependemos; é sentir-se amado e salvo da própria condição precária pela irrupção do definitivo na provisoriedade da história pessoal e coletiva.
Infelizmente, parece-me que o mundo tem uma visão essencialmente negativa da atuação da instituição eclesial. Sucedem-se os escândalos no interior da Igreja. A rigidez das decisões não permite a adaptação que toda a instituição tem de fazer às novas condições sociais e culturais. Falta transparência em muitos domínios, entre os quais a gestão dos dinheiros que os crentes entregam à comunidade de que fazem parte. Todo o sistema é piramidal e autocrático. É, pois, urgente a democratização da gestão das comunidades, tanto locais como universal. Uma maior participação de todos nos destinos da Igreja, para além de ser um imperativo ético, promove o sentimento de pertença e de comunhão mútua. Em vez disso, o papa é ainda o senhor absoluto, o mestre incontestável… em suma: uma espécie de deus na Terra. E o bispo é-o também na própria diocese, tal como o pároco o é no espaço da sua paróquia. Só o bom senso de muitos pastores tem salvado as comunidades de perderem definitivamente os seus fiéis. Mas temos apenas de confiar no bom senso dos responsáveis ou a própria estrutura institucional tem de garantir graus de participação democrática nos destinos das comunidades que incluam também os leigos?
De uma forma sucinta, eu diria que necessitamos de simplificação (da prática eclesial e da doutrina), transparência (na gestão das comunidades e dos dinheiros) e participação democrática. Eis o programa de um papa que estivesse realmente empenhado na reforma da Igreja e exigisse que a instituição se despojasse do supérfluo para abraçar o que é essencial e nesse núcleo central se empenhasse até ao limite.
Salvo melhor opinião, creio que o retorno à mensagem originária do Evangelho é a revolução de que precisamos. Não se trata de inovar por inovar, se recriar a instituição descaracterizando-a. Trata-se pelo contrário de refrescar a vitalidade da Igreja à luz daquela água viva que jorra da mensagem, do comportamento e do destino de Jesus de Nazaré. É certo que os novos tempos trouxeram problemas que não encontram resposta direta no Evangelho. Mas talvez a Igreja não tenha de se pronunciar sobre tudo. Talvez tenha de assumir com humildade que é sua tarefa anunciar os valores essenciais contidos na mensagem originária de Cristo, deixando a cada pessoa a possibilidade de formar a sua própria opinião acerca dos problemas concretos que assolam os tempos atuais. Quem sabe se a assunção de tal atitude não valorizaria a Igreja aos olhos do mundo. E precisamos tanto de um farol que atribua sentido às circunstâncias complexas e tantas vezes adversas do tempo atual!

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